Christian Korosi, de 19 anos, foi encontrado morto com um tiro de fuzil em julho de 2024 numa guarita de quartel em SP. Exército concluiu que foi suicídio, mas apresentou investigação com falhas. Familiares tentam reabertura do caso
Atenção: esta reportagem trata de saúde mental e pensamentos suicidas — que podem gerar gatilhos. Caso você não esteja bem e precise conversar com alguém, a Ponte recomenda entrar em contato com o Centro de Valorização à Vida (CVV), que funciona 24 horas e pode ser acionado através do telefone 188 (ligação gratuita) ou a partir deste site. Você ainda pode buscar uma unidade de saúde mais próxima da sua casa por meio do Mapa da Saúde Mental.
Paulo Batistella
Na tarde de 27 de julho de 2024, um sábado que parecia tranquilo, o soldado Ezequiel* deixou a guarita em que estava num quartel do Exército na zona oeste de São Paulo e deslocou-se para outra, onde deveria render um colega e seguir com o expediente de sentinela. A ordem do comando era para que, a cada 30 minutos, os sentinelas do 2º Batalhão de Suprimento trocassem de posto, em uma ciranda.
Ao chegar à guarita seguinte, o posto 3, às 15h35, Ezequiel deparou-se com um soldado morto. A vítima era Christian Paiva Korosi, de 19 anos — ele tinha um fuzil calibre 7,62 mm, de alto impacto, sobre o colo e estava ferido com um tiro à queima-roupa na cabeça. O caso foi investigado pelo próprio Exército, que concluiu, em 14 de outubro do ano passado, ter se tratado de suicídio.
A família do jovem contesta, no entanto, esse entendimento e pede a reabertura do caso, amparada por uma perícia independente à qual recorreu em maio deste ano — a consultoria forense acusa falhas na investigação dos militares.
“Eu entreguei o meu filho bom, sem problemas psicológicos. Entreguei ele com sonhos, com projetos. Ele estava no melhor momento da vida dele, ia entregar alianças para a namorada, queria fazer concurso público para a Polícia Militar. E me entregaram meu filho de volta em um caixão lacrado com uma bandeira”, lamenta à Ponte a mãe de Christian, Juliana Korosi Paiva, de 40 anos.
Perícia independente viu falhas em apuração
A Justiça Militar arquivou o caso, com anuência do Ministério Público Militar, dando ele por encerrado. No último mês, contudo, o promotor militar Adilson José Gutierrez pediu novas diligências para esclarecer pontos controversos da investigação, atendendo a um apelo da família de Christian, conforme revelou o site Metrópoles. O prazo para isso seria de 60 dias, sem a garantia de que o caso será reaberto.
A consultoria forense contratada pela família se ateve, principalmente, a um exame do local da morte, produzido por peritos do Exército e ao qual a Ponte não teve acesso.
Os militares não teriam esclarecido, por exemplo, a trajetória do disparo que atravessou a vítima, sem terem fotografado o ponto da guarita em que o projétil teria ido parar. Pelas fotos disponíveis no laudo, a posição do fuzil e do cartucho expelido pela arma seria incoerente com a dinâmica exigida para que o jovem tivesse atirado em si mesmo.
Nas imagens, aparece ainda um outro objeto, parecido com um segundo fuzil. Há uma aparente mancha vermelha nele. Os peritos militares não teriam esclarecido, contudo, o que seria — ainda segundo a consultoria.
Exército deixou de fazer laudos com potencial conclusivo
Um eventual exame de recenticidade do fuzil que estava sobre o colo de Christian foi perdido, já que ele só foi levado para perícia 58 dias depois. Também não foram recolhidos vestígios biológicos na arma para extração de DNA, a fim de esclarecer a autoria do disparo.
O celular do jovem, com o qual ele ficava a todo tempo, só foi identificado pelo Exército cinco dias depois, sem esclarecimentos de onde estava até então — o aparelho ainda foi entregue para a família após sete meses, sem ter sido periciado.
A consultoria contratada pela família afirma ainda que, no laudo do exame do local da morte, os peritos militares descreveram que a lesão no rosto de Christian pela qual passou o disparo de fuzil teria bordas estreladas, característica de um tiro com o cano da arma encostado, e sinais de esfumaçamento, o que é próprio de tiros à curta distância mas sem contato com a pele — ou seja, a descrição feita por eles dá a entender que foram feitos dois e não apenas um disparo contra o jovem.
Um outro documento, contudo, produzido pelo Instituto Médico Legal (IML), submetido à Polícia Técnico-Científica, descreve apenas que a lesão tinha bordas estreladas. Segundo este laudo necroscópico, ao qual a Ponte teve acesso, Christian tinha ainda uma lesão na mão direita, com sinais de queimadura, como se tivesse segurado a ponta do fuzil quando houve o disparo.
Últimas pessoas a verem jovem com vida deram relatos divergentes
O inquérito policial militar (IPM) sobre o caso, acessado pela reportagem em partes, ouviu 36 pessoas, entre militares e os pais de Christian. O único depoente que ouviu o disparo que matou o jovem foi Ezequiel, quando estava no posto 5, a 180 metros do posto 3, a mais isolada das guaritas do quartel — ele disse ter percebido um “barulho de aço”, o que só associou a um tiro após ver o colega morto.
Quando Ezequiel foi rendê-lo, ele esperava encontrar na guarita um outro soldado: Cleiton*. Este segundo militar alegou que, no intervalo anterior de troca de posto, quando deveria render Christian, o jovem teria pedido para permanecer ali, ao alegar que gostava de cumprir expediente no local.
Na ocasião, Cleiton estava junto de Pedro*, que deu um relato diferente: Christian teria apenas sinalizado de uma pequena janela da guarita que ficaria ali, o que os fez ir render o sentinela do posto seguinte, descumprindo a ciranda determinada pela chefia. Cleiton e Pedro foram os últimos a ver Christian com vida. Apesar dos relatos em parte conflitantes, eles não foram submetidos a uma acareação, procedimento legal em que teriam de depor juntos para esclarecer as divergências.
Christian teve afastamento por ansiedade dias antes
Os depoentes presentes no quartel na ocasião da morte foram unânimes em dizer que Christian estava tranquilo e descontraído nas horas anteriores. Antes de iniciar o turno, ele se manteve inerte quando um oficial questionou se alguém estaria impedido de cumprir expediente por problemas de saúde.
Quase três semanas antes, contudo, em 9 de julho de 2024, Christian havia sido encaminhado durante o serviço ao Hospital Militar de Área de São Paulo, onde recebeu uma dispensa de dois dias. Na ocasião, segundo dois superiores relataram ao IPM, ele teria tido uma crise de ansiedade no trabalho e relatado ter cogitado tirar a própria a vida — o que pessoas próximas nunca souberam.
“Meu filho foi encaminhado para um hospital, e onde está o relatório médico? Não tem nenhum documento disso, só um atestado de dois dias. Se meu filho pensou em se matar e foi levado para um hospital, por que a família não foi avisada? Por que não afastaram ele?”, questiona Juliana.
Christian mantinha mais recentemente uma relação ambígua com o Exército. Ele era empolgado com o universo militar, em especial no primeiro ano na tropa, quando cumpriu serviço obrigatório. Tinha feito tatuagens para demarcar essa fase da vida. Já na metade de seu segundo ano nas Forças Armadas, cogitava pedir baixa e mostrava cansaço com a rotina no batalhão. Segundo amigos mais próximos, parecia menos comprometido e, às vezes, dormia durante o expediente.
Em função disso, o jovem havia tido algumas punições recentes, após uma troca de comando. Em 12 de junho, recebeu três dias de prisão no quartel por ter sido pego desatento durante o serviço de sentinela, com o fuzil encostado. Em 10 de julho, foi punido com outros três dias, desta vez por ter publicado no Instagram uma foto em que aparecia fardado e fumando, o que, segundo a família, outros soldados também faziam, sem serem retaliados. No dia 22 daquele mês, recebeu uma terceira punição semelhante, agora por ter deixado de cumprir uma ordem de fotografar algumas viaturas.
Para família, Exército deve ser responsabilizado
Apesar da indisposição com o comando, Christian não mantinha inimizades dentro do batalhão, um relato unânime entre as pessoas ouvidas pelo IPM, o que minimizou a hipótese de um homicídio.
O jovem também tinha aptidão para manusear o fuzil com o qual cumpria expediente, nunca havia feito brincadeiras com o armamento e, antes de iniciar a jornada de trabalho no dia de sua morte, passou por um procedimento de segurança para garantir que a arma estava em condições adequadas. Ou seja, a suspeita de um eventual acidente dentro da guarita também não ganhou força.
No IPM, o próprio Exército não explica quais seriam as razões do suicídio, apesar de adotá-lo como hipótese principal. A investigação se limita a dizer que o jovem estaria mal com as punições que recebeu e com a morte de uma avó ocorrida em abril do ano passado, o que a família contesta. Um major alegou ainda que ele teria assumido ter contraído uma dívida, da qual pessoas próximas ainda hoje não sabem.
A advogada da família de Christian, Marinalva de Aguiar, diz que, independentemente da hipótese que explique a morte, pretende responsabilizar o Exército. “Por ser um órgão do governo, militar, a supervisão teria de ser melhor. Ao que aparece, os meninos faziam o que queriam, porque, na troca dos postos, o Christian diz que ficaria ali e ninguém faz nada. Será que isso realmente aconteceu?”, questiona. “Pode ter sido um acidente com outros meninos, faltam respostas para se dizer que foi suicídio.”
A mãe do jovem diz também esperar por esclarecimentos. “Eu passei pelo interrogatório do Exército e, a todo momento, senti que queriam culpar a família. Naquele momento, eu queria fazer perguntas e não podia, eu tinha de responder. Eu estou há um ano e três meses sem respostas de nada.”
A Ponte procurou o Ministério da Defesa, sob gestão Lula (PT) e ao qual está submetido o Exército, mas não obteve retorno. Se houver, a reportagem será atualizada.
*Os verdadeiros nomes das pessoas marcadas com asterisco foram preservados.
ponte – Edição: Montedo.com