Israel e Hamas concordaram com o plano da Casa Branca para uma primeira fase de cessar-fogo
Por O Globo com agências internacionais
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou ontem que Israel e o grupo Hamas aceitaram os termos da primeira fase do plano de paz divulgado pela Casa Branca na semana passada, dando início a um processo que pode garantir o fim da guerra em Gaza, que já dura dois anos.
Negociado por três dias no Egito e confirmado pelas partes, o acordo prevê o fim dos combates, o retorno dos 48 reféns a Israel, a libertação de prisioneiros palestinos, o recuo das tropas israelenses para uma zona acordada e a retomada da entrada de ajuda humanitária no enclave. A assinatura deverá ocorrer nesta quinta-feira, e Trump poderá ir à região no dia seguinte.
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O acordo, que é o mais concreto avanço até o momento para por fim ao conflito, ainda tem pontos, no entanto, que precisam ser esclarecidos:
Fim dos combates em Gaza
Durante o anúncio do acordo entre Israel e o Hamas, não ficou claro se o cessar-fogo será imediato após a assinatura e também se haverá um prazo de duração pré-estabelecido.
Outro ponto importante: o desarmamento do Hamas. Conforme relatou o New York Times, o grupo palestino poderia aceitar um desarmamento parcial de suas forças em Gaza, exigindo em troca algum tipo de garantia vinda de Trump de que Israel não retomará a guerra.
Pelo plano do presidente norte-americano, o grupo deveria entregar todos seus armamentos, mas suas lideranças diziam que isso está fora de cogitação. Nenhum dos envolvidos mencionou o tema em suas declarações.
— O Hamas pode estar disposto a abrir mão de algumas armas, mas não ficará sem elas completamente — disse ao New York Times o oficial aposentado da Inteligência israelense Adi Rotem, que participou de negociações com o grupo palestino até 2024. — As armas são uma parte essencial do DNA do Hamas.
As fontes ouvidas pelo jornal americano não detalharam o tipo das armas que o Hamas insistiria em manter em seu poder, mas sugeriram que seriam itens como pistolas e fuzis para proteção de seus membros contra futuras represálias internas.
O Hamas também quer a saída imediata e completa de Israel do enclave, mas o plano de Trump prevê apenas a saída gradual das forças militares israelenses para uma área acordada – que não está definida ainda -, sob o argumento de que isso serviria para garantir a segurança de Israel.
A presença militar israelense em Gaza, portanto, não tem data para terminar, e a proposta da Casa Branca defende que os prazos sejam discutidos posteriormente.
Libertação de todos os reféns
O acordo prevê a devolução de todos os 48 reféns – vivos e mortos – mas há dúvidas sobre a capacidade de o Hamas cumprir essa meta, já que muitos corpos estão perdidos embaixo de tonelads de escombros de prédios bombardeados por Israel.
Fontes israelenses próximas às negociações indicaram à CNN que o Hamas pode não ser capaz de devolver os restos mortais de todos os 28 reféns que morreram após sua captura em outubro de 2023, quando o grupo atacou Israel, deixando quase 1,2 mil mortos e dando início à guerra. Segundo a CNN, o grupo não sabe onde estão os corpos de ao menos 15 dos reféns. Há ao menos 20 reféns vivos, e o Hamas disse que todos serão libertados de uma só vez. Em entrevista à Fox News, o presidente Trump falou que os reféns seriam libertados na próxima segunda-feira.
“Este é um progresso importante e significativo para o retorno de todos, mas nossa luta não terminou e não terminará até que o último refém retorne”, afirmou o Fórum de Famílias de Reféns e Desaparecidos, principal grupo de pressão pelo retorno dos capturados em outubro de 2023, em comunicado, no qual agradece os esforços de Trump e pede pressa na assinatura do acordo. “Ainda há 48 reféns em cativeiro pelo Hamas. Temos a obrigação moral e como nação de devolver todos para casa, os vivos e os mortos juntos”.
Libertação de prisioneiros palestinos
O hamas entregou uma lista com nomes de 250 pessoas condenadas à prisão perpétua e mais 1,7 mil detidas em Gaza desde outubro de 2023. Segundo a Reuters, os nomes de Marwan Barghouti, líder histórico do Fatah (que controla a Autoridade Nacional Palestina/ANP), e de Ahmad Sa’adat, chefe da Frente Popular pela Libertação da Palestina, ambos presos desde 2002, estão na lista, mas dificilmente devem ser libertados por Israel.
Entrada de ajuda humanitária
Ainda não está claro qual é o cronograma de entrada de ajuda externa ao povo palestino, inclusive se todas as organizações estrangeiras estariam liberadas para entrar no território e que tipo de suprimentos seriam permitidos passar nessa retomada da ajuda.
A CNN informou que as Nações Unidas “apoiarão a implementação total” do cessar-fogo em Gaza e do acordo de reféns, de acordo com o secretário-geral da ONU, António Guterres.
A ONU “aumentará a entrega de ajuda humanitária sustentada e baseada em princípios, e avançaremos nos esforços de recuperação e reconstrução em Gaza”, disse Guterres.
Segundo uma fonte citada pela BBC, assim que o cessar-fogo entrar em vigor, Israel permitirá que 400 caminhões de ajuda entrem em Gaza diariamente durante os primeiros cinco dias, com o número aumentando gradualmente nas etapas posteriores. Mas nenhuma das partes confirmou essa informação.
Próximas fases
Como os dois lados se concentraram apenas na primeira fase do plano, não há previsão de prazos para que as próximas etapas comecem a ser debatidas. Mas o que se prevê é que será um processo tão ou mais complexo do que o atual.
O futuro de Gaza – sua reconstrução e administração – também segue sem uma definição, em termos de prazos, apenas com acenos sobre intenções.
Trump disse que os Estados Unidos ajudariam Gaza a se reconstruir e formariam um “conselho de paz” que seria “muito poderoso”, mas não forneceu detalhes sobre como funcionaria.
O texto do acordo propõe que Gaza seja administrada, inicialmente, por um grupo de palestinos sem ligação com o Hamas — que seria excluído de qualquer governo futuro — ou a ANP, sob supervisão de um órgão internacional que poderia ser liderado por Trump e com um papel de liderança, também, para Tony Blair, o ex-primeiro-ministro britânico.
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Pela proposta da Casa Branca, “Gaza será reconstruída para o benefício do povo de Gaza”. O conselho de paz estabeleceria uma estrutura para a reconstrução da região, incluindo financiamento por um período de tempo, enquanto a Autoridade Palestina passa por um “programa de reforma” para que possa “retomar o controle de Gaza de forma segura e eficaz” (a Autoridade, que administra parte da Cisjordânia ocupada por Israel, foi acusada de corrupção).
O conselho deve “criar uma governança moderna e eficiente para atrair investimentos”. Deve ser estabelecida uma zona econômica especial, com tarifas preferenciais e taxas de acesso a negociar com os países participantes.
Segundo, ainda, a proposta de paz, ninguém será forçado a deixar Gaza. “Vamos encorajar as pessoas a ficar e oferecer-lhes a oportunidade de construir uma Gaza melhor”, diz a proposta.
Trump havia sugerido anteriormente que os moradores de Gaza poderiam ser realocados para outras nações, talvez Estados vizinhos, uma noção que atraiu condenação generalizada e que ele abandonou desde então.
A Casa Branca também propôs que parceiros regionais no Oriente Médio garantam que o Hamas cumprirá suas obrigações, e os Estados Unidos trabalharão com parceiros árabes e internacionais para desenvolver uma “Força Internacional de Estabilização” para implantar imediatamente em Gaza.
Essa força “treinará e fornecerá apoio às forças policiais palestinas em Gaza”, trabalhando também com Israel e Egito para ajudar a proteger as áreas de fronteira.
De acordo com o New York Times, a proposta afirma que Israel não ocupará ou anexará Gaza e “se retirará com base em padrões, marcos e prazos ligados à desmilitarização que serão acordados”.
Os Estados Unidos estabelecerão um diálogo entre Israel e os palestinos, mas não garante o estabelecimento de um Estado palestino. Diz apenas que, à medida que o redesenvolvimento de Gaza avançar e o programa de reforma da Autoridade Palestina for realizado, “as condições podem finalmente estar reunidas para um caminho confiável para a autodeterminação e o Estado palestinos, que reconhecemos como a aspiração do povo palestino”.
As negociações
Os olhos do mundo estão voltados para o balneário egípcio de Sharm el-Sheikh, onde se realizam as negociações indiretas entre Israel e o grupo palestino Hamas para pôr fim à guerra na Faixa de Gaza.
“Tenho muito orgulho em anunciar que Israel e o Hamas assinaram a primeira fase do nosso Plano de Paz. Isso significa que TODOS os reféns serão libertados em breve e Israel retirará suas tropas para uma linha acordada, como os primeiros passos em direção a uma paz forte, duradoura e duradoura. Todas as partes serão tratadas com justiça!”, escreveu Trump em sua rede Truth Social. “Este é um GRANDE Dia para o Mundo Árabe e Muçulmano, para Israel, para todas as nações vizinhas e para os Estados Unidos da América, e agradecemos aos mediadores do Catar, Egito e Turquia, que trabalharam conosco para que este Evento Histórico e Sem Precedentes acontecesse. ABENÇOADOS OS PACIFICADORES!”
Em publicação no Telegram, o Hamas anunciou a “conclusão de um acordo estipulando um fim à guerra em Gaza, à retirada da ocupação [Israel] dali, a entrada de ajuda e uma troca de prisioneiros”. No texto, o grupo pede a Trump e às demais partes que “pressionem o governo de ocupação [Israel] a implementar em sua forma completa os requerimentos do acordo, não permitindo que se evada ou atrase a implementação do que foi acordado”. A mensagem termina com a promessa de que o Hamas “não abandonará os direitos nacionais do povo [palestino], incluindo liberdade, independência e autodeterminação”.
O premier israelense, Benjamin Netanyahu, disse em nota que este é um “grande dia para Israel”, e que hoje “reunirá o governo para aprovar o acordo e trazer todos os nossos queridos reféns de volta para casa”. Ele fez um agradecimento a Trump e às Forças Armadas do país e na madrugada de hoje (noite de ontem no Brasil) telefonou ao presidente americano para convidá-lo a discursar no Parlamento israelense, de acordo com um segundo comunicado.
O governo do Catar, que participa como mediador das conversas, também confirmou o acerto e disse que “os detalhes serão anunciados posteriormente”.
O GLOBO