Reforma administrativa mantém militares com privilégios preservados

reforma administrativas
Proposta evita ajustes nos privilégios das Forças Armadas e foca apenas em magistrados e Ministério Público

 

 Cleber Lourenço

A chamada reforma administrativa, apresentada em três peças legislativas — uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), um Projeto de Lei (Marco Legal da Administração Pública) e um Projeto de Lei Complementar (Lei de Responsabilidade por Resultados) — foi divulgada pela Câmara dos Deputados e coordenada pelo deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), relator e coordenador do grupo de trabalho responsável pelo texto.

A proposta, construída sob forte influência do Centrão, foi anunciada como um marco para modernizar o Estado, racionalizar carreiras, eliminar privilégios e vincular remuneração ao desempenho. Na prática, porém, a leitura detalhada dos documentos mostra uma omissão notável: as Forças Armadas foram completamente poupadas de qualquer ajuste, revisão de benefícios ou inclusão de regras de transição que as aproximem das demais carreiras civis.

Nos dispositivos dedicados à chamada “extinção de privilégios”, tanto o texto constitucional quanto o Marco Legal concentram-se exclusivamente no sistema de Justiça. O discurso de Pedro Paulo e de integrantes do grupo de trabalho enfatiza a necessidade de conter supersalários, limitar verbas indenizatórias e vedar aposentadorias compulsórias como forma de punição, mas omite por completo a situação das Forças Armadas. Nenhuma linha menciona adicionais por tempo de serviço, licenças especiais ou gratificações de representação militar, que permanecem intocadas.

Essa ausência chama atenção por contraste. A mesma Câmara que defende a uniformização de critérios de progressão e avaliação para professores, analistas e técnicos manteve intacto um sistema historicamente protegido de qualquer medida de transparência efetiva. O regime militar, regido pelos artigos 42 e 142 da Constituição, continua funcionando à margem do esforço de reorganização administrativa, protegido por um manto de exceção institucional. Fontes próximas ao grupo de Pedro Paulo admitem que não houve consenso político para incluir militares no pacote, por temor de reação das cúpulas das Forças.

O Marco Legal da Administração Pública, também coordenado sob a supervisão do deputado, foi apresentado como instrumento para disciplinar a gestão e prevenir conflitos de interesse. O termo “quarentena” aparece apenas em sentido restrito: trata da passagem de ex-agentes públicos para a iniciativa privada. A quarentena eleitoral, que poderia limitar o uso político da farda e estabelecer um período mínimo de afastamento para militares que desejem disputar eleições, simplesmente não aparece. Essa omissão, segundo técnicos ouvidos pela coluna, foi mantida de propósito para evitar desgaste político com setores militares aliados ao Centrão e à cúpula da Câmara.

Já o Projeto de Lei Complementar, que cria a Lei de Responsabilidade por Resultados, tampouco faz qualquer menção a alterações no regime militar. O texto cita os militares apenas uma vez, em um parágrafo técnico, para determinar que despesas de pessoal devem distinguir ativos e inativos civis e militares — uma formalidade contábil, sem impacto real sobre benefícios, promoções ou aposentadorias especiais. Pedro Paulo, ao apresentar o relatório, defendeu que o foco da reforma fosse “a modernização da gestão civil” e evitou mencionar qualquer ajuste nas Forças Armadas.

Na prática, o conjunto da reforma reforça um recorte político. O grupo de trabalho coordenado por Pedro Paulo buscou um alvo de fácil consenso — o sistema de Justiça — e evitou abrir conflito com as Forças Armadas, cuja capacidade de pressão institucional segue elevada. Ao deixar o regime militar intocado, o texto preserva um dos segmentos mais caros da máquina pública, responsável por uma fatia crescente do orçamento federal e por aposentadorias com valores médios muito acima das carreiras civis equivalentes. A articulação do Centrão assegurou que o texto avançasse sem gerar atrito com as lideranças militares ou comprometer alianças políticas.

O discurso de isonomia, que sustenta a narrativa de modernização administrativa, se torna frágil diante dessa omissão. Especialistas em administração pública e direito constitucional apontam que, sem incluir os militares na lógica de controle de gastos, avaliação de desempenho e limitação de penduricalhos, a promessa de “fim dos privilégios” perde coerência. O resultado é uma reforma que mira apenas o funcionalismo civil e cria uma nova camada de desigualdade entre servidores de um mesmo Estado.

Outro ponto sensível é a ausência de qualquer debate sobre a participação política de militares. A falta de uma quarentena eleitoral específica perpetua a confusão entre o papel institucional das Forças Armadas e a atuação partidária de seus membros. Em um contexto recente marcado pela politização de fardas, pela presença de oficiais em cargos civis e por candidaturas diretas de militares da ativa e da reserva, a omissão legislativa parece deliberada. Evita-se o confronto, mas também se renuncia a um debate essencial sobre a separação entre Estado e poder militar.

A comparação com outras categorias evidencia o desequilíbrio: professores, servidores administrativos e técnicos serão submetidos a metas rígidas, avaliação anual, teletrabalho limitado e bonificações condicionadas a resultados. Enquanto isso, o contingente militar, que consome uma parcela significativa das despesas obrigatórias com pessoal e previdência, permanece intocado e fora do alcance das novas regras de desempenho e transparência.

Reforma carrega omissões estratégicas

A economista e procuradora Élida Graziane reforça a crítica ao lembrar que os militares mantêm um regime funcional oneroso e pouco transparente. Segundo ela: “Militares têm um regime funcional muito oneroso para a sociedade, mas sem suficiente contrapartida, escrutínio público e controle:

  • Inatividade remunerada com integralidade e paridade: concedida a todos, sem limite mínimo de idade e com regras que ainda permitem falta de contribuição previdenciária e, por vezes, até o cômputo de tempo fictício (os servidores civis deixaram de ter o benefício da paridade/integralidade com a EC 41/2003). Não é sem razão que o déficit per capita do militar inativo é 17x superior ao do cidadão aposentado no RGPS.
  • Regras de elegibilidade privilegiada: os que já têm mais de dez anos de serviço podem concorrer sem necessidade de se afastar definitivamente do cargo público.
  • Infraestrutura exclusiva: escolas e hospitais públicos segregados de alta qualidade, voltados apenas às Forças Armadas.
  • Casas funcionais: mantidas como benefício adicional, mesmo em situações em que não há prestação de serviço relevante.
  • Sistema de Justiça Militar: Ministério Público e Judiciário especializados, com custo proporcionalmente alto e produtividade limitada.
  • Outros privilégios: pensão vitalícia para filhas solteiras de militares que ingressaram no serviço público até 2001, ainda que não tenham tido filhas até hoje, e a controversa figura da ‘morte fictícia’, que permite pensão a familiares de militares punidos disciplinarmente.

“É como se os militares gozassem de um welfare state peculiar, que nenhuma outra categoria de cidadão pode usufruir.”

A administradora Daniela Montori, graduada em Administração Pública pela FGV e com mais de 20 anos de experiência no setor de distribuição de combustíveis, também critica o desequilíbrio da proposta: “A reforma administrativa é um tema importantíssimo para que tenhamos um Estado, cada vez mais, moderno e eficiente. Traz à luz a possibilidade de oferecer à sociedade serviços de qualidade realizados por agentes públicos comprometidos, além de promover adequações nos gastos públicos e aprimoramento de gestão, algo tão criticado, principalmente pelo mercado. Acredito que essa reformulação seja algo bem visto pela sociedade como um todo”, afirma.

“No entanto, ‘esquecer’ propositalmente dos militares, nessa discussão, deixa a proposta incompleta, desigual e politicamente comprometida. Contemplar duras mudanças aos servidores civis, sem qualquer contribuição dos militares no processo de ampliação dos ganhos fiscais e no equilíbrio das contas públicas, descredibiliza o desafio de equalizar direitos e deveres de maneira justa e universal entre todos os servidores. Para que a reforma realmente faça diferença, todos os segmentos do serviço público precisam estar juntos nessa transformação. Tirar os militares da proposta reforça a ideia de que a reforma tem um viés seletivo, que protege grupos historicamente com maior poder de pressão em detrimento dos demais trabalhadores do serviço público. O Brasil precisa avançar a passos mais largos; essa forma antiga e enferrujada de preservar alguns e faltar com a transparência só provoca mais desigualdade. Além disso, a participação dos militares na política recente demonstra que esse é exatamente o momento crucial para trazê-los para o centro da discussão, promovendo responsabilidade e controle sobre o papel de cada agente e respectivos gastos no aparato estatal.”

Ao final, a reforma administrativa chega ao Congresso travestida de modernização, mas carregando omissões estratégicas. O conjunto de normas impõe rigidez e controle sobre os civis e poupa integralmente a estrutura militar, uma das mais beneficiadas historicamente por exceções constitucionais. O resultado é um pacote que promete racionalizar o Estado, mas que reforça desigualdades internas e perpetua privilégios sob o silêncio conveniente das casernas — com a chancela de Pedro Paulo, da Câmara e do Centrão que conduziram a proposta.

ICLNOTÍCIAS

Respostas de 23

  1. Essa tal de Élida Graziane não sabe nada de militarismo, não aguenta um dia em qualquer missão. Se esta diferente é porque somos diferentes, usamos farda para sempre.

      1. Depende do ponto de vista seu juruna. Explica para o civil o salário de um ten , nível 2° grau, sem concurso, por oito anos; o salário de um Capitão com aperfeiçoamento já com duas transferências; o salário de um Maj…explique o salário e mordomias, inclusas transferências e diárias dos generais…eu sei que vc vai dizer que as Praças bla, bla, bla. fazendo uma analogia com uma fala do filme Do BOPE 2, adaptada a situação em tela eu diria: ” Quem falou que o comando é teu?” Triste mas, verdadeiro.

        1. Juruna é Vc que se inclui na rela dos que vme aqui falar asneiras. Que regalias de transferências ?

          Todo servidor recebe diárias e porque VC vem aqui falr que o militar não pode receber ?

          Que preconceito é isse ? REcalcado.

        2. Para começar senhor Anônimo, um Tenente mesmo sendo temporário só entra com nível superior. E mais: prestando concurso dificílimo.
          Então antes de escrever o que não sabes, pesquise.
          E se quiseres, nós vamos mais a frente com as devidas respostas.
          Pq todos esses comentários de pessoas que nunca viveram a caserna só falam contra.
          Não falam dos baixíssimos salários que nos dão sempre.
          Não falam que somos servidores 24h por dia.
          Não falam de transferências que nos impõe e com isso nossa família é sempre prejudicada.
          Com relação à salários façam um levantamento entre os poderes e verão que o executivo é o que paga menos.
          E dentro do executivo as FFAA são a parte do executivo que menos recebem.
          Senhores e senhoras comentaristas de plantão: qual civil quem vai dar plantão nos rincões do nosso grandioso Brasil?
          QUEM?
          Nos militares é claro.
          Quem é que é chamado para as diversas dificuldades que o nosso povo enfrenta?
          Com relação à salários e mais penduricalhos, olhem para o JUDICIÁRIO COMO UM TODO. GANHAM MUITO BEM E QUEREM MAIS AINDA.
          ISSO OS COMENTARISTAS DE PLANTÃO NÃO FALAM SERÁ PQ?
          Quando temos um aumento que não é aumento, este é DIVIDIDO em três a quatro vezes. Enquanto isso do outro lado da praça é de uma vez só e retroativo..
          Cansei de ter que ficar escrevendo para um povinho que só sabe olhar o rabo dos outros, mas não veem o seu próprio rabo.

    1. Essa esquerdalha mente qem nem sente. Que privilegio existe em ser militar…das FFAA sálario de fome. Tem de fala do auxilio moradia de Juiz que tem casa e ganha esse auxilio

    2. Realmente parece que faz questão de se destacar de forma negativa. Não sabe nada e vem falar de privilégios do Militar?
      Que privilégios?

      Toda classe tme suas peculiaridades, e esse povo esqueropata fala do que não sabe. E as perdas que o militar tem? Com certesa isso ela não faz questão de falar né ?

    1. Acho que a melhor parte é quando citam como privilégio, juntamente com colégios militares, “hospitais segregados de alta qualidade”!!! Que mundo essa pessoa vive? Vem depender da assistência médica do fusex, escassez de profissionais conveniados, falta de insumos, valores para despesas com Exames acabando antes do dia 15 de cada mês!!! Sabe de nada essa reportagem.

      1. Quer ver privilégios vai nas Universidades Federais que VC vai ver o que são privilégios de professores ganhando horrores para formar esse bando de analfabetos sociais cheio de direitos.

        Militar com Priviégio, realmente um comentário patético.

        Alguem viu comentar sobre o provilégio da classe poli´tica?
        Privilégio do Judiciário?

        Viu não né ?

        MAs pra vir falar asneira de militar todos bicho deorelha se acha com condições.

  2. Que reportagem lixo, ela nem se deu ao trabalho de verificar a situação atual: não temos mais tempo de serviço, não temos mais licenças especiais, não temos mais nada. As PM dos Estados mantiveram todos esses privilégios. Nós já temos a avaliação então conceito há séculos e só temos a estabilidade a partir de 10 anos. O mais caro e o judiciário porra. Mas ela está tão cega ideologicamente que nem se quer leu a últimas reformas. O MD poderia mandar para ela e evasão deste ano para o mundo civil dos privilégiados.

  3. Pensamento do dia: ”Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos.” Friedrich Nietzsche. Pergunto: onde fica a razão humana e o interesse público?! Tudo pode ser resumido em projeto de poder e riqueza!
    vivemos num estado distópico onde até o passado é incerto!

  4. “…integralidade e paridade: concedida a todos, sem limite mínimo de idade e com regras que ainda permitem falta de contribuição previdenciária e, por vezes, até o cômputo de tempo fictício (os servidores civis deixaram de ter…”

    É uma esquerdista débil mesmo!
    Somos uma categoria que paga INSS até morrer.

    A comunicação social das 3 Forças armadas tem que rebater essa FAKE NEWS das brabas….. PQosP!!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *