Os impactos na imagem do Exército após o envolvimento de altos oficiais na trama golpista

Lula, Múcio e comandantes no 7 Setembro 2025

O Exército tem realizado pesquisas para avaliar a opinião da população em relação à Força. VEJA obteve os dados dos últimos quatro anos
Marcela Mattos
O indisciplinado Cavalão, como Jair Bolsonaro era conhecido em seus tempos de farda, deixou a caserna pela porta dos fundos com a patente de capitão para, 31 anos depois, voltar a pisar nos quartéis como comandante ­em chefe das Forças Armadas. Em seu governo, colocou um número recorde de militares em postos-chave, empossou generais em ministérios estratégicos como o da Saúde e a Casa Civil e teve como braço direito na Vice-­Presidência um oficial quatro estrelas. Bolsonaro também fez constantes acenos às tropas. Sua agenda estava sempre aberta para solenidades de cadetes e promoções de oficiais, e até o brado dos paraquedistas — o famoso “Brasil acima de tudo” — foi incorporado como slogan de seus quatro anos de mandato. Doze militares ou ex-militares chefiaram em algum momento seus 23 ministérios — dez deles, aliás, oriundos do Exército. A história mostra que essa aproximação não costuma produzir bons resultados. A condenação dos generais Braga Netto, ex-­ministro da Casa Civil, Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e Almir Garnier, ex-comandante da Marinha, além do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do presidente, é prova disso.

As investigações sobre a tentativa de golpe têm entre os principais personagens representantes das Forças Armadas. São generais, coronéis e tenentes-coronéis. Entre eles, há acusadores, acusados e a rara figura do delator, prática rejeitada dentro dos preceitos de lealdade e fidelidade dos quartéis. Dos 31 réus da trama, 21 já serviram a alguma Força — sem contar Bolsonaro — e cinco deles agora estão condenados por integrar o núcleo central de uma organização criminosa que arquitetou uma ruptura institucional para prolongar a estadia de Bolsonaro na Presidência da República. Atualmente, há sete militares presos em alojamentos do Exército — o delator Mauro Cid está em regime domiciliar. Ao proferir seu voto, o ministro Alexandre de Moraes relatou diversas atuações indevidas dos fardados, como uma “nota esdrúxula” emitida pelo Ministério da Defesa sobre uma possível fraude nas urnas e a efetiva participação deles em reuniões de cunho golpista. “O Brasil demorou a concretizar sua democracia. Nós tivemos vinte anos de ditadura, torturas, desrespeito à independência do poder Judiciário e do poder Legislativo. As pessoas sumiam, as pessoas eram mortas. Não é possível banalizar o retorno a esses momentos obscuros da história”, disse o relator do caso.

Na sequência, o ministro Flávio Dino ressaltou que não se tratava de um julgamento das Forças Armadas, mas fez críticas à presença dos oficiais em “convescotes partidários”. “Os acampamentos não foram em porta de igreja. Foram na porta de quartéis. Eu sei que se reza nos quartéis, mas lá sobretudo há fuzis e tanques”, disse o magistrado, que era ministro da Justiça à época do 8 de Janeiro e chegou a bater boca com o então comandante do Exército, Júlio César de Arruda, que acabou demitido dias depois. Arrastada para o centro do processo, a cúpula das Forças Armadas trabalha numa frente de contenção de danos para evitar que a imagem da instituição volte ao patamar da década de 80. Um dos principais esforços visa blindar a instituição e fazer crer que, ao contrário de 1964, não houve adesão ao golpismo. Os episódios revelados no apagar das luzes do governo Bolsonaro, segundo essa narrativa, tiveram a participação de alguns poucos que se encantaram com o ex-capitão e, mesmo assim, acabaram contidos pela postura legalista de seus comandantes.

O Exército, responsável pelo maior número de investigados, tem realizado pesquisas para avaliar a opinião da população em relação à Força. Por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), VEJA obteve os dados dos últimos quatro anos. O levantamento segue os padrões dos principais institutos e foi feito em quase todos os estados, ouvindo 2 000 pessoas presencialmente. Para este ano, houve uma inovação nos questionamentos. O Exército quis saber, por exemplo, o que poderia atrapalhar sua imagem. Para a maior parcela dos entrevistados, que responderam de maneira espontânea e sem uma lista predeterminada, o maior dano envolve justamente a presença de militares no governo. Na sequência, citam repulsa à corrupção e ao regime militar. Ações que envolvam autoritarismo e golpe de Estado também foram lembradas como algo negativo — o que demonstra que, apesar de aparecer em menor proporção, os últimos acontecimentos influíram negativamente na imagem da Força.

A pesquisa também perguntou qual era a primeira coisa que vem à cabeça dos entrevistados quando se fala em Exército. As principais finalidades, entre elas segurança, defesa e guerra, foram apontadas em maior quantidade. Mas novamente ficou demonstrada a contaminação: os entrevistados voltaram a citar autoritarismo e golpe, e incluíram até o nome do ex-presidente Jair Bolsonaro como referência. A Força também buscou um comparativo com as demais instituições. Em uma resposta estimulada, os bombeiros despontam com o maior índice de confiança da sociedade, com a lembrança de 95,3% dos entrevistados. Na sequência aparecem a Força Aérea (77,9%), a Marinha (77,2%), a Polícia Federal (72,2%) e o Exército (71,9%) — à frente de órgãos como a Polícia Militar (57,5%), a igreja evangélica (57,3%) e o Supremo Tribunal Federal (44,6%). Esses dados são similares aos da pesquisa Quaest divulgada no início da semana, que indicou um nível de confiança de 70% da população em relação aos militares das Forças Armadas. Em novembro de 2022, o índice era de 79%. Os eleitores do presidente Lula mantiveram o patamar quase inalterado, enquanto o tombo foi relatado por bolsonaristas, que registravam uma confiança de 91% nos derradeiros dias do ex-capitão à frente do governo, número que agora é de 72%.

Passada a hecatombe das revelações da trama golpista e com a previsão de ter dezenas de militares encarcerados pelos próximos anos, o Exército recebeu com um certo alívio os dados da pesquisa. Reservadamente, militares em postos de comando consideram que, diante da dimensão do escândalo e do envolvimento de importantes e influentes generais no caso, pode-se dizer que as Forças saíram quase ilesas de toda a confusão. Muito embora haja insatisfações com o que são considerados excessos e até perseguições por parte do Judiciário, a ordem é manter silêncio e distância do processo dentro da caserna. O ministro da Defesa, José Múcio, por exemplo, costuma repetir que “as Forças Armadas estão roucas de não falar” — e assim devem continuar. A situação, afinal, ainda é delicada, mas a orientação é para deixar transparecer o máximo de normalidade. No fim da tradicional solenidade do Dia da Independência, no último dia 7, o presidente Lula pegou pelos braços o comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen, e ambos se juntaram ao general Tomás Paiva, comandante do Exército, ao brigadeiro Marcelo Damasceno, comandante da Aeronáutica, e ao ministro da Defesa. O fotógrafo oficial do governo registrou — e divulgou — a imagem.
Publicado em VEJA de 12 de setembro de 2025, edição nº 2961
veja – Edição: Montedo.com

Respostas de 24

    1. Vc é aquele sub que nao fez nada, nao saiu QAO e agora ta puto . Viu que foi Perseguição politica. Pior cego e aquele que nao quer ver. Deve ser esquerdista e da famila que senpre pegou bolsa de tudo que o
      Governo disponibiliza. Abre os olhos e veja a realidade.

  1. Hoje é um dia extremamente triste para as Forças Armadas do Brasil.
    Um dia que entrará para a história, de forma negativa.
    Onde uma turma do Supremo Tribunal Federal, condena homens honrados, numa história sem nexo de trama golpista, totalmente infundada e sem provas legítimas, numa clara perseguição política e revanchismo pessoal da oposição.
    E o pior é ver as Forças omissas e caladas diante dessas arbitrariedades e injustiças.

    Estão sendo condenados os seguintes militares:

    – 01 Almirante de Esquadrão ex Comandante da Marinha;
    – 01 general 4 estrelas tri coroado e ex Comander Force no Haiti;
    – 01 general 4 estrelas ex Ministro da defesa e Comandante do Exército;
    – 01 general 4 estrelas ex Ministro da Defesa, Comandante Militar do Leste e interventor na segurança pública do Rio;
    – 01 TC FE zero de turma;
    – 01 Capitão ex Presidente da República e condecorado com a medalha do pacificador com Palma.

    Uma vergonha e tristeza para todos os homens e mulheres de ontem e de hoje, que fizeram e fazem parte das Forças Armadas do Brasil…..

    1. O EB, antes do público externo, perdeu a confiança dos seus quadros inferiores. Ao se aliarem ao falso Messias, na expectativa de engordar os seus contracheques, os oficiais generais jogaram as bases na cova dos leões, no tocante ao salário. O respeito, admiração, a disciplina e a hierarquia, foram substituídos pelo “meu pirão primeiro”.

    2. Opa pica fumo,
      Vc está enganado.
      Conhece pouco de história.

      Eu vivi essa história. Bolsonaro foi o único deputado impedido de entrar na Bda Pqdt. Um piqueteiro indisciplinado. Foi proibido pois só gerava desordem e indisciplina, tendo ele mesmo sido submetido a CONSELHO DE JUSTIFICAÇÃO e considerado INDIGNO.

      Falas em honra, mas esse foi o tema do informex de 1988 que dizia à tropa o quão bolsonaro não a tinha. Você encontra no google, vale a leitura.

      E todos que se juntaram a ele, por cargos, salário duplex, motorista e imóvel funcional foram meter a mão na titica do gato, logo honra nenhuma.

      O Exército sai fortalecido. A Marinha sai fortalecida. O recado é dado. Disciplina!

  2. Por onde andam os milicos que viviam bajulando os deputados federais da esquerda, Glauber Braga, Val marchiori, Gleisi Hoffman ?
    Cadê? Será que a turma aprovou a esmola de 4,5% jogado aos militares?
    E os qEs irão a sT?

      1. Cadê aquele sub véio da fronteira do Paraguay, que diz que possui canhão, mísseis, tanques, e que são para a guerra e que com o exército ninguém metia a mão, que APENAS vai preso outros que erram de outras tantas Instituições, olha aí Sub reality, teu parça indo para cadeia. É cana meu galo … logicamente que o país está uma vergonha, sendo governado por um ex- presidiário, maior corrupto da história, e que conseguiu se livrar da cadeia, quem sabe pela justiça ser morosa, esses aí também consigam sair dessa…Afinal todos sabem que existe um STF tendencioso e apadrinhamento do 9 DEDOS.

    1. Ninguém quer nem lembrar da perfídia nem do G. Dias servindo água e café aos “terroristas”. Sabe muito esse G. Dias, deve saber de tudo. Na hora certa os vídeos “apagados” pelo Dino irão aparecer.

  3. A única preocupação agora é tentar achar um meio para o STM não punir os generais condenados pelo STF, em relação à perda do posto e patente.

    Pois, o STM desde que foi criado há mais de 200 anos nunca puniu um oficial general a perder posto e patente.

    Ou puniu?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *