Brasil responde a mobilização “pré-guerra” da Venezuela com preparação de defesas em Roraima

PACARAIMA

 

Satélite identificou em território venezuelano a expansão de base militar e da pista de uma base aérea,  além do posicionamento de forças navais em locais estratégicos
CARINNE SOUZA

O Exército Brasileiro tem movimentado equipamentos – entre eles mísseis e carros de combate – e modernizado instalações militares para criar defesas na região fronteiriça de Roraima e assim dissuadir forças militares da Venezuela de usarem o território brasileiro em uma possível invasão à Guiana. A ação ocorre em paralelo a movimentações de tropas do lado venezuelano compatíveis com um cenário pré-guerra, segundo relatório divulgado na semana passada pelo think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês).

O CSIS identificou em território venezuelano por imagens de satélite a expansão de uma base militar e da pista de uma base aérea e o posicionamento de forças navais em locais estratégicos. Além disso foram criados novos comandos militares e estruturas legais para alegadamente supervisionar a defesa da região a ser anexada. Esses são indícios de que o país pode estar de fato se preparando para realizar uma invasão na Guiana.

O Brasil, por sua vez, enviou para sua fronteira um reforço de militares, 8 blindados de transporte de tropas Guarani e 32 jipes blindados Guaicuru e 6 blindados de reconhecimento Cascavel. Além disso foram transportados para a fronteira mísseis antiaéreos RBS 70, Mísseis Anti-Carro (MSS 1.2 AC), munição de armamento pesado e leve, morteiros de 81 mm, metralhadoras pesadas Minimi MK3, .50 M2 HB e de calibre 7,62 mm e granadas de artilharia pesada. Ao todo, o equipamento enviado tem o valor de R$ 228 milhões.

A movimentação de equipamentos e tropas, iniciada em dezembro de 2023, foi chamada de Operação Roraima. Além de levar o equipamento militar para o local, a ação inclui a criação de instalações para manutenção de armamentos, construção de fortificações e identificação de rotas rodoviárias, fluviais e aeroportos para a necessidade de se mover mais equipamentos e tropas em caso de conflito.

Os detalhes operacionais e táticos da preparação da defesa são tratados com o mesmo sigilo de uma operação de combate. O objetivo é que tropas brasileiras estejam prontas para impedir que o território nacional seja usado como rota de passagem, já que as estradas de Roraima são, em tese, a melhor rota para tropas venezuelanas pesadas sustentarem a logística de uma invasão à Guiana.

Mas o clima é de serenidade no Comando de Operações Terrestres, o órgão do Exército responsável pelo planejamento e execução das ações militares, segundo fontes familiarizadas com a operação. A ideia é que os militares estejam prontos para agir, mesmo que não haja indícios de conflito iminente.

Na sexta-feira (17), a Guiana colocou suas agências em alerta devido à movimentação anormal de tropas do lado venezuelano da fronteira.

“Para aumentar sua presença em Roraima, o Exército acelerou a ativação do 18º Regimento de Cavalaria Mecanizado, na cidade de Boa Vista”, segundo Paulo Filho, mestre em Geopolítica pela Universidade Nacional de Defesa de Pequim.

“Essa ativação se deu pela transformação do Esquadrão de Cavalaria Mecanizado, que já existia naquela cidade. Como um Regimento é composto de três Esquadrões, faz-se necessário triplicar a quantidade de pessoal e de material”, explica Paulo Filho, que também é mestre em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado Maior do Exército. O atual contingente na fronteira é de aproximadamente 600 combatentes.

Esse número de militares não se destina a conter uma invasão terrestre venezuelana de larga escala. Se a concentração de tropas da Venezuela aumentar, as Forças Armadas têm planos para mobilizar grandes efetivos e enviá-los para a região em poucos dias.

Paulo Filho afirmou que foram necessários cerca de três meses de mobilização da força armada para transportar todo o material necessário para a região fronteiriça com a Venezuela e Guiana. O equipamento foi enviado das regiões Sul e Sudeste do Brasil e contou com uma força-tarefa logística para ser concluída.

“Mas o esforço vale a pena, na medida em que demonstra a capacidade da Força Terrestre de cumprir sua destinação constitucional de defesa da pátria, zelando pela integridade do país ao dissuadir qualquer tresloucada ideia de violar a soberania territorial brasileira”, afirmou Paulo Filho.

Ameaça de Maduro fez Exército antecipar ativação do Regimento
A mobilização começou em dezembro com a transformação do 12º Esquadrão de Cavalaria Mecanizada em uma unidade militar três vezes maior. Foi criado em seu lugar o 18º Regimento de Cavalaria Blindada de Boa Vista. A ampliação estava prevista para acontecer no futuro, mas precisou ser antecipada pelo Exército por causa das ameaças do ditador Nicolas Maduro. O plano inicial era de que essa mudança acontecesse em dois anos.

A Venezuela constantemente reivindica o território guianense de Essequibo e elevou o tom para um discurso de anexação militar em novembro do ano passado. A região cobiçada está passando por uma fase de grande desenvolvimento econômico devido à descoberta de reservas de petróleo.

Analistas de defesa e relações internacionais avaliam que o ditador Nicolás Maduro pode ter esperado anuência de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para utilizar o território brasileiro como passagem para ocupar o território da Guiana. Apesar disso e das diversas tentativas do petista em reintegrar o venezuelano ao cenário internacional, tudo indica que o presidente brasileiro não deu esse aval.

O ministro da Defesa, José Múcio e as Forças Armadas Brasileiras têm reforçado o discurso de que o território brasileiro é inviolável, o que pode ser entendido como um recado a Maduro de que não haverá permissão, por parte do Brasil, para invadir a Guiana passando por aqui. O estado de Roraima tem uma faixa de cerca de 800 quilômetros de extensão que faz fronteira com a Venezuela e com a Guiana mas, principalmente, possui uma área de vegetação similar à do cerrado e rodovias pode onde é possível movimentar carros de combate e caminhões – o que não é possível na região de floresta amazônica.

Necessidades militares reforçam apelo para destravar Ferrogrão e BR-319
A movimentação de tropas pesadas pelo território brasileiro em rota até a fronteira em Roraima fez o comando logístico do Exército identificar vulnerabilidades militares no sistema de vias terrestres, fluviais e aéreas do país.

Já se sabia que é difícil e custoso movimentar grande quantidade de equipamento militar pelo extenso território brasileiro devido à baixa quantidade de ferrovias que o país possui. Caminhões pesados do Exército tiveram que transportar carros de combate por milhares de quilômetros em rodovias deterioradas e usando hidrovias e balsas que elevam o tempo de deslocamento devido à sinuosidade dos rios. Algumas das travessias aquáticas levaram mais de duas semanas.

A Força Aérea transportou mais de 120 toneladas de suprimentos e comprovou que alguns aeroportos do norte do país não comportam grandes operações militares. Foi o caso do aeroporto de Boa Vista, em Roraima, cuja pista não pode receber grandes aviões cargueiros. Os suprimentos tiveram que ser levados de avião a Manaus e de lá em caminhões por rodovias até Roraima.

Outra vulnerabilidade identificada foi a rodovia BR-319, que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM). Sua reconstrução e pavimentação está sob constante ataques jurídicos de organizações não governamentais que alegam que a recuperação da rodovia pode causar danos ambientais.

Mas a principal constatação da operação no campo logístico foi a necessidade de se destravar o imbróglio jurídico que tem impedido a construção da ferrovia Ferrogrão, que deve ligar o Mato Grosso ao Pará para o escoamento da produção agrícola da região centro-oeste. Em março deste ano o projeto foi novamente adiado depois que um grupo de indígenas, instigado por uma ONG, fez um protesto exigindo mais discussões sobre a ferrovia.

A Operação Roraima constatou que os 933 quilômetros previstos para a Ferrogrão teriam grande importância estratégica na movimentação de tropas e equipamentos pesados para a região norte do país em caso de mobilização militar ou conflito.

Reforço militar em Roraima tem poder de dissuasão contra ameaças de Maduro
Guiana e Venezuela chegaram a fechar um acordo, mediado pelo Brasil, de que a controvérsia em relação ao território de Essequibo seria resolvida com diálogo entre as duas partes. Mas não é isso que Maduro tem se mostrado disposto a fazer.

Recentemente, o ditador venezuelano promulgou uma lei para anexar à Venezuela o território de Essequibo, que pertence de fato à Guiana. O regime de Maduro chegou a produzir um novo mapa da Venezuela com parte do território guianense já anexado ao país.

O território da Guiana denominado Essequibo, ou Guiana Essequiba, está em disputa desde o século 19. Porém, desde o final do último ano, o ditador Nicolás Maduro tem apostado em uma forte campanha em busca de apoio de sua população para invadir e ocupar a região. Rica em petróleo e minerais, o território representa cerca de 70% da Guiana. A exploração dos recursos naturais provenientes de Essequibo são apontados como o fator que potencializou a economia guianense.

Outra hipótese é que a retórica de Maduro pelo Essequibo é pautada pela campanha eleitoral. A Venezuela tem o pleito marcado para o dia 28 de julho.

Considerado o responsável por agravar a crise econômica do país e pelo êxodo migratório de milhões de venezuelanos, Maduro tem se mostrado preterido entre os eleitores e tem buscado apoio para tentar se manter no poder.

A estratégia de resgatar a discussão sobre Essequibo é uma forma de tentar expandir sua popularidade, já que o tema possui grande apelo entre os venezuelanos.

GAZETA DO POVO

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