MS: família de soldado morto em treinamento acredita em omissão do Exército; população pede justiça (vídeo)

Com morte de soldado e vários recrutas relatando terem sido vítimas de maus tratos famílias pedem justiça - Fotos: Eduardo C. Souza Pereira

Conforme o advogado que representa a mãe do soldado Vinicius, mesmo tendo dito que não se sentia bem, o recruta foi privado de água e tratamento adequado durante o treinamento

LAURA BRASIL

Para a família do soldado Vinícius Ibanez Riquelme, de 19 anos, que morreu após um treinamento do exército, o jovem foi vítima de “maus tratos” e “omissão” pela equipe que conduziu o exercício militar do 10º Regimento de Cavalaria Mecanizado do Exército Brasileiro, em Bela Vista.

O advogado Fernando Lopes de Araujo, que representa a mãe de Vinícius, Nilda Ibanes Acosta, conversou com o Correio do Estado e explicou um pouco da dinâmica do que aconteceu no treinamento que ocorreu entre os dias 22 a 26 de abril.

A família diz que Vinícius entrou no exército com o sonho de servir na área da comunicação para ajudar a mãe que trabalha como diarista. Inclusive comprou equipamento fotográfico e conforme relatou o advogado gostava de treinar fotografando caminhões que passavam carregados de calcário.

Treinamento
No segundo dia de treinamento, Vinícius começou a se sentir mal, no entanto, nenhuma providência teria sido tomada. Em vários relatos, que a reportagem teve acesso, uma enfermeira que teria a patente de sargento reduziu os pedidos de auxílio médico a “frescura”.

Ainda, segundo fontes que terão os nomes preservados, por mais de uma vez, Vinícius procurou atendimento médico, mas a sargento o teria colocado para fora da ambulância.

O tratamento que mais de um recruta alegou ter recebido ao dizer que não se sentia bem era sair com uma cabeça de alho para comer.

Falta de água, ingestão de limão, frutas e ovos com casca teriam sido a alimentação dos recrutas durante os seis dias. Até o momento em que Vinícius não conseguiu suportar o peso do equipamento, tendo ido ao solo. Neste momento, levou um chute na cabeça e outro na face.

“Nas fotografias tiradas durante o velório de Vinicius, observa-se claramente que seu corpo apresentava lesões no rosto, manchas roxas na face, inchaço das orelhas, marcas de agressão”, conta o advogado Fernando.

Ele foi apontado por diversas fontes como um recruta “visado” durante os episódios de agressões. Apenas no momento em que perdeu os sentidos foi levado até a ambulância para receber atendimento médico.

“No dia 26 de abril, ultimo dia de treinamento, quando os recrutas estavam vindo a pé em marcha, Vinicius não suportou e caiu ao chão desmaiado. Somente nesse momento os responsáveis pelo treinamento o levaram para a ambulância”, disse o advogado.

“O que podemos afirmar até o momento é que houve sim maus tratos aos recrutas, omissão por parte do exército no atendimento de Vinicius, e que seu corpo apresentava sinais de lesões”.

Vinícius deu entrada em torno de 12h na enfermaria do 10° RC Mec, onde ficou aproximadamente quatro horas, posteriormente em decorrência do agravamento do quadro seguiu para o Hospital local São Vicente de Paula, em Bela Vista. Devido ao quadro de desidratação severa solicitaram transferência por vaga zero para a Santa Casa de Campo Grande.

O soldado chegou a Santa Casa de Campo Grande em torno de 19h30, no entanto, no dia 27 de abril em torno de 6h45 não resistiu e veio a óbito. A certidão da causa da morte apontou “Choque, Necrose centro lobular, Disturbio Hidroeletrolítico, Desidratação, Síndrome infecciosa, realização de exercícios físicos rigorosos”.

O advogado de defesa explicou a razão da evolução de cada quadro que culminou com a morte do recruta:

Apesar de alguns dos militares que estiveram no treinamento com o soldado Vinícius (o recruta 856), terem testado positivo para Influenza, a defesa aponta que até o momento não há provas de que essa teria sido a causa para sua morte.

Com relação às lesões no rosto, a defesa aguarda o laudo necroscópico que leva 30 dias para ficar pronto. O prontuário do Hospital São Vicente de Paula foi solicitado nesta segunda-feira (06).

Além da morte de Vinícius, outros 89 militares precisaram receber atendimento médico, entre eles o caso mais preocupante neste momento é o do soldado Maycon Gabriel, transferido na noite de sábado (04) com urgência para a Santa Casa de Campo Grande.

Maus tratos
Enquanto os recrutas evitam o assunto familiares estão revoltados, vários quebraram o silêncio por meio de redes sociais e estão relatando traumas nos jovens que temem voltar ao quartel. No domingo (05) houve uma vigília em frente do 10º Regimento de Cavalaria Mecanizado do Exército Brasileiro.

Até o momento, cerca de dez famílias estão sendo representadas pelo advogado especialista em direito militar José Roberto Bekmann que corrobora com a versão de maus tratos e qualificou o episódio como excesso dos limites da legalidade.

“A atitude dos militares superior e hierárquico é manter a integridade física, a dignidade de qualquer militar dentro das Forças Armadas. O que aconteceu ali por parte dos instrutores foi [que] nessa instrução de sobrevivência ela excedeu os limites da legalidade, ou seja, esse excesso [cometido] pela equipe da instrução é considerado como maus tratos”, pontuou Bekmann.

Com relação a tudo que escutou dos clientes, Beckman que serviu o exército por 18 anos, afirmou que nunca viu tantos relatos de agressão ocorridos durante um treinamento militar.

“Eu fui militar por 18 anos e nunca tinha visto tanta agressão, tantos relatos assim, das famílias, dos recrutas. Que há rigor físico, que há rigor psicológico. Ok. Porque assim, o que tem que preparar? O soldado é preparado para a guerra. Infelizmente, essa é a finalidade do Exército. Preparar os militares para a guerra. Mas como nós estamos em tempo de paz, é inadmissível que um militar, ainda mais o serviço militar obrigatório, perca a vida por uma atitude omissa, que vai ser apurada em inquérito policial militar”, e completou:

“Aconteceu que cortaram a água dos recrutas. Inclusive o laudo do soldado Vinicius Riquelme está como desidratação e choque séptico, sem falar nos hematomas. A responsabilidade por saber da situação do subornados é do comandante do 10º RC Mec”.

Familiares dos recrutas que terão os nomes preservados definem o retorno dos filhos para casa como verdadeiro “pesadelo”. Mães relatam que os filhos estão acordando a noite para realizar manobra, enquanto outros não conseguem dormir, e ainda há os que não estão se comunicando com os pais.

“Acorda assustado sentado na cama. Fica fazendo as obrigações do quartel. Meu filho nunca ficou nessa situação. E ele falou mesmo que tinha um cara que era do rancho, soldado lá, que judiava deles. Ele falou para mim”, disse uma das mães.

O 10º Regimento de Cavalaria Mecanizado do Exército Brasileiro abriu o inquérito policial militar para levantar a conduta de quem aplicou o treinamento e quem são os envolvidos. Assim que a investigação for concluída, a ação penal militar é apresentada para o Ministério Público Militar em que são analisados os indícios de autoria e materialidade para então definir se irá apresentar a denúncia para a Auditoria da 9º Circunscrição Judiciária Militar em Campo Grande.

A reportagem contatou o 10º RC Mec, no entanto, até o fechamento da matéria não obteve resposta. O espaço segue aberto.

CORREIO DO ESTADOEdição: Montedo.com

Respostas de 9

  1. Todo ano, ano após ano, tragédias como essa acontecem sempre envolvendo jovens instrutores que em sua esmagadora maioria são oficiais ou sargentos temporários, em atividades de instrução com recrutas recém incorporados. Nessas horas desaparecem o oficial de segurança, o oficial de operações, o plano de segurança na instrução, o plano de instrução com as assinaturas do instrutor e demais atores, o Quadro de Trabalho Semanal com as assinaturas do Oficial de Operações, do Comandante de Subunidade e do Comandante do regimento, o boletim interno que publicou a relação de militares escalados para o acampamento e a ordem de deslocamento, as fichas de serviço das viaturas, principalmente das ambulâncias com o registro dos itinerários e odômetros, o plano de evacuação em caso de amergência.

    E surgem diversas questões:

    1. Quem era o oficial mais antigo presente no acampamento durante a semana de instrução?

    2. O médico estava no acampamento durante toda a semana ou apenas sargentos de saúde. Essa equipe tinha capacitação em APH?

    3. Quem era o oficial de segurança na instrução designado para a atividade? Esse oficial percorreu as oficinas atestando a conformidade da instrução com as normas de segurança?

    4. Os atendimentos ambulatoriais durante o acampamento foram registrados nos livros de atendimento médico? Esses registros foram lançados nas fichas médicas dos militares? caso negativo por qual motivo?

    5. O efetivo que se deslocou para o acampamento foi submetido a inspeção de saúde previamente com a ordem de inspeção e o resultados das atas publicadas em boletim interno e registradas no sistema de perícias?

    6. Alguns desses recrutas tinham comorbidades registradas nas suas fichas médicas?

    7. O comandante do regimento orientou pessoalmente a equipe de instrução sobre o trato com os instruendos?

    8. A Organização Militar possui normas gerais sobre segurança na instrução com a sequência de providências em caso de acidentes? Essas normas são de conhecimento de todo o efetivo?

    9. A marcha a pé realizada no final do exercício foi desencadeada a partir de que horário?

    10. Ocorreu alguma atividade de instrução antes do início da marcha? Caso afirmativo, qual o horário de término da instrução anterior? houve período de descanso alimentação e hidratação da tropa antes do início da marcha?

    11. Quem era o oficial mais antigo presente durante a realização da marcha a pé ao final do acampamento?

    12. quem era o oficial responsável por fiscalizar e providenciar a alimentação, hidratação e descanso dos instuendos durante o acampamento? Durante os momentos de alimentação, hidratação e descanso da tropa o oficial responsável atestou por escrito a conformidade do cardápio, da quantidade de água e locais de descanso com o bem estar dos recrutas?

    13. Quem é o oficial e os sargentos comandantes da fração a que pertencia o Sd Vinícius? Esses militares estavam presentes durante a semana de instrução e acompanharam as atividades do subordinado zelando por seu bem estar?

    14. quem são os militares, oficiais e sargentos designados para as equipes de instrução durante o acampamento?

    15. os militares designados instrutores, monitores e auxiliares possuíam em seus registros, alguma anotação de maus tratos ou alteração disciplinar envolvendo subordinados?

    16. Nos últimos cinco anos, qual o número de procedimentos apuratórios, sindicância, Inquéritos Policiais ou disciplinares instaurados na Organização Militar sobre maus tratos, agressões físicas ou verbais foram instaurados na organização militar? quem são os militares envolvidos? Os militares envolvidos com essas alterações participaram da atual semana de instrução? Quais foram as providências do comandante em relação a essas situações nos últimos cinco anos? O escalão superior foi informado? Quais as providências do escalão superior?

    São algumas questões que podem jogar luz na fatalidade que vitimou o Sd Vinícius, embora outras possam surgir a depender das respostas.

  2. O IPM será feito pelos “colegas” e a conta será passada para a União que é incapaz de agir para pedir o ressarcimento ao erário pelos responsáveis, criando um ciclo sem fim de mazelas, gastos públicos e impunidade.

  3. Há muito que a instrução militar dos nossos recrutas está nas mãos de jovens imaturos e descompromissados – sejam eles temporários ou de carreira.

    A imaturidade talvez tenha sido o caso da sargento de Saúde, citada na reportagem, que se negou a averiguar com mais profissionalismo as queixas iniciais do recruta que faleceu dias depois.

    atualmente, os militares mais jovens – na graduação de 3° Sgt e Aspirante ou nos postos de 2° e 1° Ten – pertencem à geração das “redes sociais”, cujas características, entre outras, são o hedonismo extremo, a irresponsabilidade e o descompromisso totais, a imaturidade e a prioridade na chamada “ostentação-lacração”.

    Quando se observa mais de perto, quando se conversa com eles ou quando os flagramos reagindo a uma situação de “estresse”, constatamos quão crianças ainda o são. (Já vi oficiais jovens, de carreira, chorando e desesperados porque não conseguiam reagir como adultos à situação apresentada).

    Além disso, os militares designados para a instrução não tem perfil adequado para a nobre função de instrutor (não é porque se sabe prestar continência, por exemplo, que você pode ser instrutor de continência).

    Em suma: vislumbro duas causas para esses problemas na formação dos nossos recrutas que, infelimente, continuarão e aumentarão. Uma diz respeito a atual geração de jovens sargentos e oficiais, em sua maioria ainda “crianças de 20 anos”, imaturos e descompromissados.

    A outra causa é a pouca atenção que se dá na seleção rigorosa daqueles que serão instrutores na tropa (O único critério é ser o mais moderno, mesmo que seja o mais incompetente).

    Simples assim.

  4. Protestem também contra o mandato de Lula, o governo gastou cerca de 1 bilhão de reais em despesas de viagens. Só com giros internacionais foram 164 milhões de reais destinados a pagamentos de diárias e compra de passagens, além de outras despesas.

  5. Outros tempos srs
    O recruta de hoje não é o recruta de 20 ou 30 anos atrás.
    A grande maioria esta saindo de casa sozinho pela primeira vez e muitos nem isso. Pai e mãe levam e buscam de carro no Portão das armas.
    Ele não possuem ( a maioria) a rusticidade de antigamente.
    Um iPM bem feito e alguns militares colocarão um ponto final em suas carreiras.
    Todo cuidado é pouco

    1. Perfeiro, “Sub Véio”.

      Agora some a isso um tenente e um sargento dessa geração (imaturos, sem compromisso) cuidando da formação desses recrutas.

      É só esperar os problemas pipocarem.

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