Uma década perigosa para o mundo

Caças Su-27 disparam iscas para mísseis durante exibição em Níjni Tagil, na Rússia - Serguei Karpukhin - 25.set.2013/Reuters

Conflitos e tensões geopolíticas indicam que os gastos militares globais, de US$ 2,2 trilhões em 2023, crescerão nos próximos anos; Rússia está no epicentro dos temores não só na Europa
Editorial
Os gastos militares no mundo cresceram 9% em 2023, comparados aos do ano anterior, e atingiram US$ 2,2 trilhões, segundo o mais recente Balanço Militar do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), centro de estudos com sede em Londres que há 65 anos avalia tensões geopolíticas e conflitos em curso. O aumento de despesas com segurança por Estados nacionais, como ensina a história, nunca é casual. No contexto das atuais guerras no Oriente Médio e na Ucrânia e de ameaças latentes da China e também da Rússia no Indo-Pacífico, o diagnóstico do IISS é de que o investimento em segurança crescerá por uma simples razão: o mundo “parece viver uma década mais perigosa”.

O estudo não chega a mencionar o início de uma nova corrida armamentista. Porém, assinala a decisão de diferentes governos ao redor do mundo – da Austrália aos Estados Unidos, passando pela Noruega – de alimentar seus estoques de munições e reverter carências identificadas em suas estratégias de segurança. Em função de ameaças muito bem delineadas, o orçamento global de defesa de 2023 alcançou o equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) do México e instrumentos internacionais de controle de armas, como o da União Europeia, foram relaxados.

A Rússia de Vladimir Putin está no centro das razões do aparelhamento militar desde sua agressão à soberania da Ucrânia, há dois anos. Putin fez girar a roda da economia de guerra no país, com o aumento do orçamento militar de 2,64% do PIB, em 2021, para 4,01%. Os gastos russos chegaram a US$ 108 bilhões no ano passado, cifra três vezes maior do que os desembolsos da Ucrânia, dependente do apoio militar do Ocidente. Dificilmente as despesas russas recuarão diante do cenário de muitos anos de conflito em terreno ucraniano, já dado como certo. Poderão, ao contrário, aumentar, dada a ameaça latente de expansionismo russo sobre o Leste Europeu.

A elevação de 8,5% nos gastos militares no ano passado pelos países da Otan, excetuados os Estados Unidos, responde claramente a esse temor. Nesse grupo estão países europeus, a Turquia e o Canadá. E não há razões para recuar em 2024. O governo da Alemanha decidiu ampliar essas despesas em 2% do PIB. Entretanto, a preocupação com uma Rússia militarmente mais potente – e treinada para o conflito – não se limita à Europa. O IISS detectou tais temores até no Indo-Pacífico, região há décadas exposta ao estresse causado pela China. Não por acaso, a Índia ultrapassou o Reino Unido e assumiu o quarto lugar no ranking dos países com maiores despesas estratégicas.

Pequim estará também consciente dos riscos vindos da Rússia, seu aliado, agora militarmente mais forte. Na atual conjuntura geopolítica, reduziu ligeiramente seu orçamento militar de US$ 1,3 bilhão para US$ 1,2 bilhão entre 2021 e 2023. Mas seu projeto de modernização das forças de defesa, com absorção de elementos de inteligência artificial, e o fato de dispor do maior contingente militar do mundo são por si sós ameaças óbvias ao restante da Ásia, à Oceania e também aos EUA e ao Canadá.

Os EUA, inegavelmente a força militar mais testada no último século, pouco alteraram seus dispêndios militares nos últimos anos. O país gastou 3,36% do PIB em 2023. Não há dúvida de que as decisões políticas de Washington têm repercussão nos conflitos em curso e na contenção de aventuras militares. Afinal, seus dispêndios representam 40% do orçamento militar global. Nem a China, com 10%, chega perto de tal volume de recursos.

É relevante sublinhar que um cenário adverso à paz, como o delineado pelo IISS para esta década, impõe aos Estados nacionais o dever de reforçar sua segurança – em detrimento de outras necessidades prioritárias. Cerca de US$ 31 bilhões foram alocados adicionalmente na rubrica “defesa” em todo o mundo. Ainda assim, infelizmente, nada garante que o caos da guerra e suas devastadoras consequências humanitárias e econômicas sejam evitados. É uma péssima notícia para todo o mundo.
ESTADÃO

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