Zelenski pede para comandante militar sair e abre crise na Ucrânia

RÚSSIA x UCRÂNIA

Possível sucessor é visto com desconfiança no Ocidente

IGOR GIELOW

O presidente Volodimir Zelenski abriu uma crise militar em meio ao momento mas desafiador para seu governo desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, há quase dois anos.

Ele pediu na segunda (29) que o comandante das Forças Armadas do país, Valeri Zalujni, entregue o cargo. O general, que está no posto desde 2021, liderou a resistência à invasão russa e é uma estrela em ascensão na política ucraniana. Ele se recusou a sair.

A crise ganhou corpo ao longo da segunda, quando a imprensa ucraniana e os ativos canais de Telegram do país passaram o dia com informações de bastidor sobre a reunião que ocorreria à noite entre ambos. Um porta-voz de Zelenski e o Ministério da Defesa disseram que não tinha ocorrido demissão, mas não elaboraram sobre o encontro.

O relato do pedido de saída do general foi divulgado inicialmente de forma anônima e confirmado por veículos ocidentais, como o jornal britânico Financial Times. No fim do dia, um deputado oposicionista aliado a Zalujni, Oleksii Goncharenko, confirmou os detalhes ao também britânico The Guardian.

Antecessor e crítico de Zelenski, Petro Porochenko saiu em defesa do general, dizendo que sua eventual demissão seria um baque para a unidade militar do país em um momento de crise. Isso não passará despercebido no entorno do atual presidente, que considera o general um candidato em formação.

Nos últimos meses, as discordâncias entre Zelenski e Zalujni começaram a se acentuar, tornando-se públicas em alguns episódios. O racha ocorreu em meio à degradação da posição da Ucrânia na guerra.

Em outubro, o general concedeu extensa avaliação da guerra à revista britânica The Economist, admitindo o fracasso da contraofensiva lançada em junho. Zelenski o rebateu, afirmando que o cenário no campo de batalha era dinâmico. Em dezembro, Zalujni criticou o presidente por demitir todos os chefes de escritórios de recrutamento militar devido a casos de corrupção.

Neste ano, o general deu diversas declarações afirmando que a Ucrânia passaria a uma fase de “defesa ativa”, contrariando o usual discurso triunfalista de Zelenski em seus apelos pela declinante ajuda militar de aliados a Kiev. Por fim, ambos discordaram sobre a nova mobilização em estudo: Zalujni queria mais reforços, enquanto o presidente buscava evitar um baque de popularidade.

A crise vem quase cinco meses após Zelenski trocar o ministro da Defesa, Oleksii Reznikov, em meio à crise pela falta de resultados da ação que visava isolar a Crimeia anexada em 2014 dos territórios ocupados pela Rússia na Ucrânia e os escândalos envolvendo venda de isenção militar a jovens ricos.

O mais forte candidato à vaga de Zalujni é o general Kirilo Budanov, o misterioso e popular chefe da inteligência militar do país, o GRU na sigla local. Ele é muito mais agressivo do que o eventual antecessor: coube a ele diversas ações em território russo, como ataques com drones a bases aéreas.

A ele foi atribuído o assassinato da filha do ideólogo nacionalista Aleksandr Dugin, Daria, ocorrido em 2022. Em setembro passado, ele disse à revista americana Time que iria matar todos os russos que pudesse —o fato de ter lançado um drone contra o Kremlin foi lido como uma ameaça à vida de Putin.

Budanov também gestou a bem-sucedida campanha com drones aquáticos ucranianos contra a Frota do Mar Negro da Rússia, destruindo e avariando diversos navios. Ele patrocinou incursões à Crimeia por forças especiais, visando destruir sistemas antiaéreos russos.

Por tudo isso, ele é visto com desconfiança no Ocidente. Os Estados Unidos e outros países da aliança Otan temem uma escalada no conflito que acabe por envolver os vizinhos da Ucrânia, particularmente se Kiev romper o acordo de não empregar armas ocidentais contra o território russo.

Conhecido por fornecer caras e bocas ideias para memes populares na internet, restará saber como seria a gestão na prática de Budanov. Com 37 anos, ele é ainda mais jovem que Zalujni, 50, e pode também representar uma ameaça política futura a Zelenski.

A crise diz muito das dificuldades pelas quais a Ucrânia passa com a falta de fé de seus aliados em sua capacidade de vencer a guerra, mas também sobre o temperamento de seu líder, centralizador e paranoico acerca de rivais.

O retrato é bem desenhado na nova biografia sobre Zelenski, “O Showman”, lançada na semana passada pelo jornalista Simon Shuster, da Time. Na obra, que chega ao Brasil no mês que vem, a evolução das desavenças entre o presidente e o general são radiografadas.

Zalujni era um general de três estrelas, não no topo da hierarquia, quando o presidente o nomeou para um cargo criado em 2020, o de comandante de todas as Forças Armadas. Isso gerou enorme ciúme no generalato, já que toda uma geração de superiores foi ultrapassada por ele.

A indicação ocorreu em junho de 2021, quando Vladimir Putin já começava a mobilizar as forças que viriam a invadir a Ucrânia em fevereiro do ano seguinte. Zalujni achava a guerra inevitável, algo que Zelenski só aceitou quando os mísseis caíram sobre Kiev.

No primeiro momento, relata Shuster, o presidente não se meteu em assuntos militares, e a bem-sucedida defesa de Kiev por Zalujni, aproveitando-se dos erros táticos e da soberba russa, elevaram o general ao status de popstar.

Com isso e novos sucessos posteriores, como a retomada de áreas de Kharkiv (norte) e Kherson (sul), contudo, os dois personagens passaram a se chocar. O biógrafo conta que Zelenski passou a querer influir mais em ordens militares, gerando atritos com o comandante.

FOLHA

2 respostas

  1. Essa merda deve ser uma corrupção desgraçada, e como sempre os filhos de pobres se lascando como sempre, geralzada soh dando entrevista e jogando a tropa aos na lama aos porcos, ai vc me fala compensa ser patriota, ter ser familiares cuidar da sua família o resto q se exploda

  2. A história é cíclica mesmo..

    Em um certo tempo, num certo lugar chamado ROMA, os políticos tentavam se manter no poder mesmo nas piores crises políticas, financeiras ou durante pragas. Porém quando as “revoltas” chegaram aos portões de roma foram nomeados “interventores” (1º e 2º triunvirato). Ao fim, surgiu o imperador e acabou com a república romana.

    O que vemos na Ucrânia: presidente que não quer largar o poder, generais em evidência querendo poder, população civil divida e os “bárbaros” chegando aos portões.

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