Como soldado, é meu dever alertar

mapa mundi

Para o Brasil construir um escudo que suporte pressões internacionais, só com investimento e planejamento na área da indústria de defesa

Fernando José Sant’Ana Soares e Silva*
O fim da guerra fria trouxe ao mundo, ao menos para alguns, a esperança de uma paz kantiana. Mas a realidade confrontou a esperança.

A ascensão da China e o surgimento de vários outros atores, tanto estatais quanto não estatais, vêm modificando o sistema internacional e o equilíbrio de poder.

Estamos num mundo multipolar. Por definição, é um mundo complexo, incerto, volátil e ambíguo. Os inúmeros conflitos, em tantos lugares e de intensidades distintas, certificam essas características. Mudanças virão neste novo contexto.

Elas ocorrerão no meio de três grandes desafios de alcance global: as mudanças climáticas, com suas consequências para a vida no planeta; o fim do paradigma fordista do trabalho, precarizando e diminuindo os empregos; e a disputa pela hegemonia política, entre a democracia e o “sistema chinês”.

Diante desse cenário, é incumbência da sociedade brasileira, em última instância, definir seu destino e o papel que o Brasil deve desempenhar no sistema internacional.

Acredito que o melhor caminho seria adotar a neutralidade em relação aos blocos de poder internacionais. Essa atitude de equidistância poderia permitir que o Brasil ganhasse credibilidade e confiança das outras nações, assumindo o papel de uma ponte entre países, ajudando na preservação da estabilidade mundial.

Ser neutro implica não ter alinhamentos automáticos, mantendo boas relações com todos os países, independentemente de ideologia política e sistemas de governo.

Para alcançar essa neutralidade, o País precisa, antes, ter condições de mantê-la. Caso contrário, seria uma neutralidade enviesada que coincidiria com os interesses de outras potências. Lembremo-nos do diálogo de Melos: os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.

O Brasil tem dois grandes trunfos que poderiam ajudar a alcançar essa condição. Somos uma sociedade multicultural e, por enquanto, estamos longe dos focos de tensão internacional. Essas características são importantes, mas não são suficientes. Precisamos mobilizar todos os campos de poder do Estado para resistir a pressões de terceiros.

O PIB do Brasil tem oscilado nos últimos anos entre o 6.º e o 12.º lugares no mundo. Nossa produção de riqueza está ligada a serviços, ao agronegócio e à extração mineral. Participamos pouco das cadeias produtivas globais, especialmente as de alto valor agregado, que se beneficiam da tecnologia de ponta. Sem uma mudança de rumo nas estruturas produtivas, nosso futuro é inseguro.

A sociedade brasileira, em seus diplomas legais, atribui às Forças Armadas a missão de defender a Pátria, ou seja, impedir que forças de outros países ofendam nossa soberania com intenções ou ações.

Além do princípio primário de defender nosso território, valores, tradições e desejos justos e naturais de nosso povo, ao fazer defesa garantimos que a sociedade brasileira possa tomar suas decisões com total autonomia.

No entanto, os recursos disponíveis para as Forças Armadas não são suficientes para cumprir essa missão. Elas têm efetivos reduzidos, equipamentos insuficientes ou tecnologicamente defasados.

É um padrão internacional que os gastos militares girem em torno de 2% do PIB para manter um aparato de defesa razoável. De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), os dispêndios do Brasil com a área de defesa vêm diminuindo gradualmente e de forma contínua. Com a moeda estável do real, tornou-se mais fácil mensurar. A curva aponta um declínio de quase 44%. Em 1995, o orçamento destinava cerca de 1,86% do PIB, enquanto em 2022 foi de apenas 1,05%.

O porcentual acima claramente não atende às demandas do País e reflete o pouco interesse da sociedade brasileira pelo tema. Como soldado, é meu dever e minha missão alertar a sociedade: talvez, quando a necessidade se tornar premente, seja tarde demais para corrigir o descaso.

Poder tecnológico e militar diferenciado e autóctone possibilitará ao Brasil construir um escudo que suporte pressões internacionais. Isso só será alcançado com investimento e planejamento na área da indústria de defesa.

A dimensão, localização e postura do Brasil revelam-se importantes na construção da estabilidade no novo cenário que se desenha com o reposicionamento dos polos hegemônicos da geopolítica mundial. E, sem rodeios, essa estabilidade poderá exigir ação.

Quando a ultima ratio regum, o uso da força, se mostrar necessária em nome de nossos interesses, repito, só seremos ouvidos se a ameaça de acender a mecha do canhão, iniciando o rastilho de pólvora, estiver clara aos antagonistas.

Precisamos decidir o que queremos para o futuro, que legado deixaremos para nossos filhos e netos: ser um país fraco e vulnerável a pressões, onde a sociedade é arrastada para um lado ou outro de acordo com a vontade de outros países; ou ser uma sociedade que tenha autonomia decisória, que possa determinar seus próprios rumos e, com isso, manter um padrão de equidistância e neutralidade internacional que a capacite a ser até mesmo uma facilitadora da paz mundial.

*General-de-Exército Chefe do Estado-Maior do Exército

ESTADÃO

 

19 respostas

    1. primeiramente #cidinocente

      “No entanto, os recursos disponíveis para as Forças Armadas não são suficientes para cumprir essa missão.”

      Isso é obvio! Mas qual General/Almirante/Brigadeiro irá abrir mão das suas benesses para apoiar a força?

      Ora, quer dinheiro para a força?
      1. Nivela as ajudas de custos em faixas. A família do oficial não é mais importante que a minha.
      2. Aux fardamento: justo para todos e não no soldo. Afinal usamos as mesmas fardas.
      3. Acaba com as “diariazinhas” para visitar OM

      Oficial só quer manter o status quo. Valores para eles, para nós o regulamento.

  1. O General Está certíssimo. Agora Precisa-se Da autorização do império, coisa muito difícil e depois, o que é mais difícil ainda, muita brasilidade, muito conhecimento, muito estudo, muito amor ao Brasil, menos corrupção e muita, muita vontade política para se tentar, quem sabe, pôr em prática tudo o que disse o general.

    1. Que império, camarada? Toda infra estrutura do Brasil está em mãos estrangeiras, em fundos de investimento internacionais. A Amazônia está nas mãos de ONGs e onde eles dizem que devem desapropriar estão desapropriando, sem dó nem piedade. Vc acha que o Fundo de Investimento da Amazônia, um fundo internacionalista é o quê? Caridade para preservar as riquezas para os brasileiros analfabetos?

  2. Certamente vc não entrega dinheiro para um desconhecido, pessoa que vc não confia para depositar na sua conta bancária. Dá mesma maneira a nação não pode dar dinheiro para Golpistas e ladrões do horário, porque se dá, é leite Condensado, camarão e torta de cajuzinho. Para que a nação possa colocar uma porcentagem maior do PIB nas FFAA, deve haver uma depuração, descontaminação e Sacerdócio. Só pode cobrar quem dá o exemplo, e as FFAA virou centrão.

  3. Esse texto é a prova de que ainda não aprenderam.

    Militar deve se voltar à caserna. Esse artigo tem viés político e, inclusive, vai de encontro ao que pensa o Barba, pois fala-se em “neutralidade” em relação aos principais atores internacionais. Não é neutralidade que o Barba e seu governo estão procurando lá fora.

    Em suma: militar deve se preocupar com sua tropa. Munição, treinamento, equipamento, alimentação, enfim, essas são as preocupações que deveriam nortear a cabeça de um líder militar.

    Mas querem “lacrar” tecendo comentários sobre geopolítica, política internacional, entre outros. Esses assuntos ficam para consumo interno, não para externar em coluna de jornal.

    ainda não aprenderam…

    1. Claro, ninguém precisa saber o que se passa dentro das instituições de Estado. Depois que vem a enxurrada é que vão se preocupar com as prevenções. Vc deve ser daqueles que jogam lixo na rua e diz: _Eu pago imposto, eles que limpem!

      1. Em parte ele está certo, cuidar proficuamente da instituição, pois todos querem saber das estratégias de Estado por causa da lei de acesso à informação.

      2. Não meu amigo. A sua leitura está equivocada.

        Pergunto: do que adianta divulgar o que se pensa dentro da “instituição de Estado” se o soldadinho dá apenas 25 tiros durante o Seviço Militar?

        Parafraseando vc mesmo: vc deve ser daqueles que reclamam do arrombamento, mas continua com a porta sem tranca.

    2. É melhor ficar fazendo formatura exortando valores aos recrutas e lembrando de glorias da guerra do paraguai até dois ou tres enfiar a cara no asfalto, repetir isso por 35 anos (eram 30, bozó cedeu, mas na PF E PRF ainda sao 30), até a reserva.
      Ai na reserva descobrir que…..era tudo mentira

  4. Se, toda a sociedade, principalmente os militares, não dispuserem de conhecimento e educação politica, seus regimes, seus sistemas, suas leis e suas consequências de nada adianta derramar bilhões de recursos quando não se sabe qual o modo de vida que escolhemos para nossa civilização. Não tem essa de legado para o futuro, a ação é agora, imediata, todo dia, toda hora.

  5. Sou a favor de investimentos pesados nas FFAA, sua valorização, valorização de toda tropa, com hospitais de qualidade, fornecedores bem selecionados, tecnologias avançadas de ponta, modernização dos armamentos e publicidade ostensiva em todas as mídias da atuação e desempenho e missão constitucional. Sou a favor do porte e posse de armas pelos civis e que cada um responda pelos seus atos. Mas antes, por questão de soberania é preciso que o alto comando se reúna com o Dr Felipe Gimenez e entenda o que é o processo eleitoral no Brasil. Depois o alto comando deve se reunir com presidente do senado, da câmara federal, presidente do TSE e STF e exigir o voto impresso com contagem publica dos votos. Só assim as FFAA resgatarão seu prestigio perante a sociedade e estarão garantindo a soberania nacional.

  6. Blá blá blá.

    As FFAA do Brasil são inúteis e o motivo é simples: O Brasil é o país do futuro.

    Como o Brasil é o país do futuro, sempre estará em defasagem diante dos poderes internacionais. E por estar sempre defasado diante desses poderes, no momento em que a ameaça estiver as portas, as FFAA vão alegar que não é prudente reagir, pois, a disparidade de poder é grande, que isso vai derramar muito sangue, etc, etc.

    E vão entregar os anéis para não perder os dedos.

    Resumindo: Vão arregar e botar o rabinho entre as pernas para continuar mamando nas tetas do erário público até a aposentadoria chegar. E vão fazer isso com todo o embuste que não engana mais ninguém com inteligência mediana.

    Qualquer zé mané já percebeu que 70% do que as FFAA dizem é embuste puro. A falta de senso de ridículo é tão grande que se vangloriam de combaterem uns garimpeiros maltrapilhos na Amazônia…

    É muito melhor pegar o dinheiro gasto com esses seres que vivem de resolver problemas criados por eles mesmos e gastar com a saúde e educação das pessoas.

    1. Exatamente! O que eu mais vi durante a Pandemia foi gente com brevê de “guerra na Selva”, “PQD” e outras coisas mais em homeoffice, morrendo de medo de pegar covid. Fico imaginando esse pessoal numa guerra, a coisa seria muito pior. E o tal “com sacrifício da própria vida”? Onde está isso? Só embuste, só curso de faz de conta.

  7. Com todo respeito ao general, mas Investir em indústria de defesa é erro e desperdício. Ver a Ucrânia gastando pouco e vencendo uma guerra sem marinha e força aérea.

    Comprou umas peças de artilharia de costa, antiaérea e de campanha modernos…só isso e o resto é com material antigo, inclusive com guepards e leopards alemães que nos temos.

    Combater desperdícios deveria ser meta. Ver o astros. Sistema muito caro cada foguete e impreciso, diferente do himars cuja precisão é de metros e com munição.

    Mas general é general, deve saber o que diz e o que escreve. Mas cabe lembrar que no início da guerra um estudioso da ECEME deu Enteevista dizendo que a RUSSIA venceria a guerra em dias.

    Mas é assim……se Sun tzu fosse vivo ele colocaria no seu livro a arte da guerra a regra ” ser avarento”…

  8. Quero ver qual será o posicionamento das FFAA se o marco temporal cair, se vão retroceder até 1500 devolvendo todas as terras para os silvícolas ou se devolverão as terras para os portugueses, espanhóis, ingleses, franceses, holandeses ou para a igreja católica.

  9. Querer ser neutro e fazer parte do Conselho de Segurança da ONU me parece inviável, além do que sequer conseguimos manter uma estabilidade política e temos chefes militares claudicantes que empurraram as próprias FA em direção ao abismo.

  10. O Nine com esse discurso de que a Ucrânia deveria ceder território já conquistado lá em 2014 a Rússia, para que a guerra acabe não encontra precedente, ainda mais sendo território de país estrangeiro e com suas fronteiras definidas, língua comum e soberania. Imagine se a França resolve anexar o Amapá ao sua “Guiana”? Já passou a hora do chefe de Estado defender a unidade da Ucrânia contra a Rússia. Ressalto que não foi somente o nine como o Bozo também fez o mesmo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para o conteúdo