Coronel que incitou militares contra Lula nega golpismo e diz não se lembrar de ofensa a Dino

Coronel José Placídio Matias dos Santos fez parte do GSI . Ele fez declarações golpistas nas redes sociais Reprodução

Sem acreditar na versão do oficial, Ministério Público Militar e Exército apontaram indícios de crimes

Thaísa Oliveira
BRASÍLIA – Um coronel da reserva do Exército que publicou mensagens golpistas na internet e ofendeu o ministro Flávio Dino (Justiça) negou em depoimento ter incitado as tropas contra ordens do presidente Lula (PT). Ele também disse não se lembrar das ofensas escritas nas redes sociais contra Dino.

Em 8 de janeiro, durante o ataque às sedes dos Poderes, o coronel José Placídio Matias dos Santos conclamou as Forças Armadas e pediu para que o então comandante do Exército, general Júlio César de Arruda, desrespeitasse as ordens de Lula.

“Brasília está agitada com a ação dos patriotas. Excelente oportunidade para as FA [Forças Armadas] entrarem no jogo, desta vez do lado certo. Onde estão os briosos coronéis com a tropa na mão?”, disse em uma das postagens.

“General Arruda, o Brasil e o Exército esperam que o senhor cumpra o seu dever de não se submeter às ordens do maior ladrão da história da humanidade. O senhor sempre teve e tem o meu respeito. FORÇA!!”, afirmou em outra.

A versão do coronel não convenceu nem o Exército, e um inquérito policial militar concluiu que havia indícios de incitação à indisciplina, crime previsto no artigo 155 do Código Penal Militar. O processo está em segredo de Justiça.

Em depoimento prestado no dia 3 de fevereiro, o coronel disse que não quis incitar os coronéis, mas sim provocá-los “a não deixarem de estar juntos de suas tropas em momento de tensão”.

“Acrescentou possuir a mesma especialidade do Gen Arruda, qual seja, a de Forças Especiais, daí possivelmente ter usado a expressão ‘FORÇA!!’, o que significa, no seio das Forças Especiais, uma saudação”, diz trecho do depoimento.

Em outra publicação no mesmo dia, o coronel ofendeu o ministro Dino e escreveu, em tom de ameaça: “O ministro da justiça está se sentindo empodeirara [empoderada]. Tua purpurina vai acabar”.

A investigação interna entendeu que as publicações do coronel caracterizaram “incitação de universo específico de Oficiais (‘Coronéis’) à indisciplina de posicionar-se politicamente (‘do lado certo’)”.

“Por ter referenciado o então Comandante do Exército –general de Exército Júlio César de Arruda– sem autorização e sem obediência à cadeia de comando, o investigado deu publicidade a assunto atinente à disciplina militar, havendo indício de crime previsto no CPM.”

O Ministério Público Militar argumentou, por outro lado, que a conduta se enquadra no Código Penal Comum —incitar, publicamente, animosidade das Forças Armadas contra os poderes constitucionais— e defendeu que o coronel fosse julgado pela Justiça Federal.

“Não se trata de conduta dirigida contra o patrimônio sob a administração militar, contra a ordem administrativa militar, nem contra militar da ativa”, escreveu a promotora Caroline de Paula Oliveira Piloni, defendendo que não há competência da Justiça Militar no caso.

Foto: Sérgio Lima/ AFP

A Justiça Militar da União discordou do Ministério Público Militar e decidiu dividir o caso. O processo por suspeita de crime militar tramita no STM (Superior Tribunal Militar), enquanto a ofensa ao ministro da Justiça (suspeita de crime contra a honra) foi enviada à Justiça Federal.

Em fevereiro, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes decidiu que os militares envolvidos nos ataques às sedes dos Poderes —tanto das Forças como da Polícia Militar— serão processados e julgados pela Corte.

A decisão foi tomada depois que a Polícia Federal disse ao magistrado que depoimentos indicavam “possível participação/omissão dos militares do Exército Brasileiro, responsáveis pelo Gabinete de Segurança Institucional e pelo Batalhão da Guarda Presidencial”.

Apesar da decisão de Moraes, o juiz federal substituto da Justiça Militar Alexandre Augusto Quintas entendeu que o artigo 155 do Código Penal Militar —crime de incitação à indisciplina— “não se encontra no rol dos delitos descritos” na decisão do ministro.

“Este Juízo entende que as infrações investigadas no presente IPM foram praticadas por um graduado Oficial da reserva remunerada do Exército Brasileiro, incitando o Comandante e outros Oficiais do Exército Brasileiro à desobediência, à indisciplina e à prática de crime militar, configurando, assim, crime propriamente militar.”

A reportagem não conseguiu contato com o coronel. O Exército não quis se manifestar sobre o caso. A instituição disse que o episódio de 8 de janeiro e “os fatos que culminaram no evento” já estão “sob escrutínio” do STF, da PF, da CPI do Congresso Nacional e da CPI da Câmara Legislativa do Distrito Federal.

“Sendo assim, este centro informa que o Exército não se manifesta sobre processos de investigação conduzidos por outros órgãos. Cabe destacar que esse é o procedimento que tem pautado a relação de respeito do Exército Brasileiro com as demais instituições da República.”

Flávio Dino disse em nota que confia no Poder Judiciário. “Com as punições legais que virão, espero que esses criminosos parem com a perpetração de violências e ameaças.”

Hoje na reserva remunerada, Placídio foi assessor do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) durante três anos do governo Jair Bolsonaro (PL). Ele chegou ao cargo no início de 2019 e foi exonerado em fevereiro do ano passado.

Como mostrou a Folha, o inquérito policial militar aberto para investigar os militares que deveriam ter protegido o Palácio do Planalto em 8 de janeiro livrou as tropas de culpa e apontou “indícios de responsabilidade” da Secretaria de Segurança e Coordenação Presidencial do GSI.

À época, a secretaria era chefiada pelo general Carlos Feitosa Rodrigues. Ele chegou ao cargo em 2021, na gestão do então ministro Augusto Heleno, e foi mantido no governo Lula pelo general Gonçalves Dias, ministro do GSI que pediu demissão em abril após a divulgação de imagens internas do palácio.

FOLHA

20 respostas

  1. “amar a verdade…”
    Juramento do cadete.

    Do aluno da esa nao, so do cadete. Eles nao mentem, sao castos e brilhantes, os sábios.

    Ai o coroné “não se lembra”…

    É bom que a sociedade está vendo que é tudo mentira, desde o caráter até as atividades… é só pou pou e formatura.

  2. Classe cômica são esses FE, com suas medalhas, manicacas, formaturas com gente fantasiada de planta e aprestamentos cheios de coisas…

    Quem não conhece até acredita nas historinhas deles. Mais ai quando vem a menor reação do judiciário, viram gatinhos… não é nada disso, nao lembro, nao fiz.

    Foi igual aquela ação do rio que a PCERJ matou uns 10 no morro, eles tiraram fotos com os defuntos, começaram a contar histórias gloriosas…… e aí instauraram um inquérito. Foi aquele chororô, “não seu juiz a gente só escoltou a PCERJ, somos de paz, nosso negócio é formatura”

    Tá ai. Não viu, não sabe, não lembra, foi mal interpretado…

    1. Jonas meu peixe, eles com armas de guerra, duvido que isso aconteça, pois acompanharam quem estava ” brincando de bodoquinho” , segundo um especialista fajuto que coloca a boca no trombone.

  3. Vexame estrelar que nunca cessa, só piora.
    Mais um covarde e exemplo que a escola pública Marechal Castello Branco da praia vermelha é uma farsa, piada.

  4. Na tela do celular e conforto de sua casa um leão rugindo, mas quando se chama a responsabilidade um gatinho que mia. Esses são nosso oficiais. Não acreditem neles em uma guerra e capaz de marchar junto convosco e logo nos primeiros metros dar meia volta e fugir do combate.

    1. Mestre! Não e questao de ser Sgt e Of! Kant ja falava sobre a “universalizacao dos atos e palavras”! Com o advento da internet e a possibilidade de emitir Opiniões de forma anonima as pessoas comentem muitos erros! Resumindo ! Se vc nao puder falar “ao vivo” nao deve falar na internet!

      1. Agora o mundo mudou, desligue a internet e viva aquartelado lendo o BI, as pessoas se manifestam, o sargento pensa e provavelmente estudou mais que você, já que fez uma faculdade de verdade, essas que geram riquezas (engenharia por exemplo), e vc ai sonhando em voltar para os anos 60 ahahahah.

        Eu falo na internet e falo ao vivo também, não tenha dúvidas, e qualquer coisa empurro um processo igual já fiz… o leao mia fininho ahahahahaah

        Ngm tem medo desse seu rde ou dessas suas divisas, as pessoas pensam por si, e agora até se manifestam e compartilham opiniões, os anos 50 passaram…..

  5. Desacreditar total nos oficiais das Forças Especilais, em termos de conhecimento Preparo tecnológico, caráter e coragem. Parece mesmo que estão lá porque alguém tem que estar. Conheci Alguns ao longo da carreira, quando novos servem no máximo para uma guerra de paus e pedras, quando mais velhos, Para entreter as 3°Sgt e os lobinhos. Triste mas verdadeiro

  6. Sempre me enjoou essa covardia por parte de alguns “Lideres”. Na hora que são “apertados” negam o óbvio. Mesmo que tenham testemunhas, sempre falavam que não fizeram nada, não sabem de nada.

    Por isso que eu fazia questão de orientar os mais modernos de registrar tudo de forma oficial, seja através de parte, ofício ou DIEx. Se não tiver registrado eles negam mesmo na cara dura.

  7. Muito triste ver o nome da Força jogada às traças. Uma instituição que um dia fiz parte, e hoje tenho vergonha em dizer que pertenci.

    São verdadeiros Rambos com os praças, e se tornam cordeirinhos na frente do capa preta.

    E pensar que eu achava que os F.E. ( Fezes Especiais ), fossem diferenciados. Não passam de soldados EVs, com manicacas nos uniformes.

  8. Faltou acao de comando! Ha uns anos atras um militar mais moderno postou uma ofensa a uma autoridade no facebook, eu chamei a atencao dele no Regimento, inclusive refresquei a memoria dele que aquela autoridade estava no rol das autoridades que poderiam puni-lo com a punicao mais severa do RDE! mas como o Cmt na epoca fazia isso, pasmem “contra uma alta autoridade”, ele retrucou mas apagou a mensagem! Vi nesses ultimos tempos muitos chefes omissos! Como uma pessoa vivida, de idade, conhecedor do RDE coloca umas besteiras dessas em rede social? Sem falar em CPM, CP, codigo civil! Faltou, quem tinha autoridade para tal, enquadra-lo no tempo certo! Provavelmente hoje ele estaria tranquilo em casa! Mas como nao tiveram coragem moral, ele, no arauto de sua arrogancia, pagou para ver! Agora, pagara Um preco alto!

  9. Ser covarde não é só empregado para aquele que tem medo, é também considerado covarde o só age como valente quando garante se garante que está seguro, por isso existe a célebre frase de Goethe: “O covarde só ataca quando está a salvo”.
    Resumindo, esse Coronel só era valentão enquanto existia alguma forma de se safar.

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