8 de janeiro: em CPI, G. Dias culpa outro general, Abin e segurança do DF

Na CPI do DF, G. Dias apontou culpados - Arte: montedo.com

8 de janeiro: CPI do DF já tem outro general na mira de convocações
Depoimento de general G. Dias, ex-ministro-chefe do GSI da Presidência da República, trouxe à tona acusações contra outro general

Alan Rios
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Atos Antidemocráticos, em andamento na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), já tem um novo general no alvo. Citado em depoimento dessa quinta-feira (22/6) pelo ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, Gonçalves Dias, o próximo convocado pode ser o general Carlos José Assumpção Penteado.

Penteado era o número 2 do GSI, ocupando o cargo de secretário-executivo na gestão de Augusto Heleno, e se manteve no posto após a transição. Ele acabou sendo exonerado do cargo e substituído pelo general Ricardo José Nigri ainda em janeiro. Na última oitiva da CPI, G. Dias citou que o seu ex-secretário-executivo chegou a sinalizar um cenário de tranquilidade às 14h do dia 8 de janeiro.

“Por volta das 14h, eu estava inquieto e preocupado, pois assistia pela TV as manifestações e elas não batiam com o clima de controle que me havia sido descrito. Decidi ligar para o celular general Penteado, que me disse que estava ‘tudo normal’, ‘tudo tranquilo’, e que eu não precisava ir ao Palácio do Planalto. Mas permaneci inquieto e decidi ir até o Palácio.”

G. Dias ainda citou uma briga que teve com seu número 2, com direito a palavrões.

“Peguei um carro disponibilizado pelo tenente coronel Alex, com motorista do GSI. A viatura levou-me à cancela Leste do Palácio do Planalto. O general Penteado foi ao meu encontro. Perguntei a ele o porquê de o bloqueio da frente do Palácio do Planalto, que deveria ter sido feito pela Polícia Militar do Distrito Federal, não havia sido montado. Aquele era o bloqueio do Plano Escudo do Planalto e tinha de estar montado. Não estava. Inclusive, cobrei dele, com um palavrão, o motivo de o bloqueio do Plano Escudo não ter sido montado.”

Ainda segundo o ex-ministro do GSI, o general Penteado não respondeu aos questionamentos dele naquela discussão e só saiu para montar o bloqueio de proteção porque ele deu a ordem. Com base nesse depoimento, o relator da CPI, deputado Hermeto (MDB), vai apresentar um requerimento de convocação do ex-secretário-executivo.

“Não vou dizer que houve uma sabotagem, mas é muito estranho. Você traz um general que pertencia a um governo passado, em uma eleição tão difícil, tão polemizada como foi. O general Penteado era ligado ao Heleno. O Heleno, têm conversas que apontam suspeitas. Enfim, foi uma inocência, para não dizer outra palavra, do G. Dias mantê-lo no cargo. E cabia ao general Penteado todo o planejamento de segurança, de estrutura. Ele era secretário-executivo, tinha que executar, e isso não aconteceu”, comentou Hermeto.

G. Dias era ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República em 8 de janeiro de 2023. Pressionado após a divulgação de imagens que o mostram circular pelo Palácio do Planalto durante as invasões bolsonaristas, ele pediu exoneração. O anúncio da saída do militar se oficializou em 19 de abril de 2023.

Servindo água
O general que prestou depoimento à CPI nessa quinta se defendeu das acusações de que teria servido água para bolsonaristas que tentavam um golpe de Estado em 8 de janeiro. O militar atribuiu a ação ao major José Eduardo Natale, que é investigado.

“Existe uma narrativa de que facilitei ou deixei por facilitar, mas não servi água para ninguém. Aquela imagem do major servindo água foi gravada às 15h59. A minha, às 16h30. A defasagem dele dando água com a minha é de 30 minutos. Eu não estava junto dele. Não servi água, não fui conivente com o que estava acontecendo. […] Não mandei distribuir água. Esse procedimento do major José Eduardo Natale está sendo ouvido em um processo de sindicância que mandei instaurar. Isso vai ser apurado, e ele vai ser punido se tiver errado”, acrescentou Gonçalves Dias.

Nas gravações, era possível ver, além de Gonçalves Dias, militares do GSI — responsáveis pela segurança de autoridades e do Planalto — guiarem os invasores para as portas de saída, em clima ameno.

O depoente ainda negou que teria fraudado documentos. A suspeita surgiu após uma reportagem da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, apontar falsificação de relatórios enviados à Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI) do Congresso Nacional, a fim de ocultar que o então chefe do GSI teria recebido comunicados no celular com alertas sobre o risco das manifestações de 8 de janeiro.

Gonçalves Dias declarou haver um arquivo da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que “não condizia com a verdade”. “Não adulterei nem fraudei nenhum documento. Temos dois casos que devem ser separados. A CCAI solicitou ao GSI o que a Abin tinha produzido de informação. A Abin respondeu com um copilado de mensagens de aplicativo em que tinha dia, tempo, […], o acontecido e […] difusão”, detalhou.

Ainda nesse documento, segundo o general G. Dias, havia uma coluna com a indicação “ministro do GSI”.

“Mas eu não participei de nenhum grupo de WhatsApp. Não sou difusor daquele compilado de mensagens. O documento não condizia com a verdade. Esse era um documento, [que] foi acertado e enviado para a CCAI. Existe um segundo [arquivo] solicitado pelo MPF. Os dois, no conteúdo e na data, são iguais. Diferem os dois na [parte sobre a] difusão. Esse segundo também foi enviado ao Ministério Público Militar. No período em que passei lá, do dia 1º [de janeiro de 2023] ao 19 [de abril de 2023], passaram pela minha mão esses dois documentos.”

O presidente da CPI dos Atos Antidemocráticos, Chico Vigilante (PT), considerou a afirmação “muito grave”. “Demonstra que um órgão de Estado fraudou um documento”, ressaltou, em referência à Abin.

Acampamento no QG
No início da oitiva, o militar leu uma nota de defesa, com destaques para alguns dos pontos que poderiam ser questionados. Ele mencionou, inclusive, que a permanência de um acampamento bolsonarista em frente ao quartel-general do Exército em Brasília após a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) era algo incômodo para todos.

“Permanecia, contudo, a situação embaraçosa dos acampamentos de partidários do ex-presidente [Jair Bolsonaro] diante do Quartel-General do Exército, algo que não deveria ter sido permitido, mas foi. O governo que assumiu herdou a situação. Ela era incômoda, fosse no governo, fosse no comando das Forças Armadas e das forças de segurança [locais]. Estávamos decididos a pôr fim àqueles acampamentos.”

O ex-ministro do GSI também criticou a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) por não incluir o GSI na reunião de preparação contra os atos golpistas.

“A Secretaria de Segurança Pública do DF fez uma reunião em 6 de janeiro, com diversos órgãos e setores encarregados da segurança e prevenção de distúrbios na Esplanada, e não convidou o GSI para se integrar. Isso é público.”

Sobre o antecessor no GSI, G. Dias declarou: “Não tive, especificamente, contato com o general [Augusto] Heleno. Não houve transição. Também não houve transição [de informações] sobre o que estava acontecendo em frente ao QG”.

METRÓPOLESEdição e imagem: montedo.com

8 respostas

  1. Típico desses senhores: quando pressionados pelos seus erros, logo culpam o subordinado.

    Acho até que essa atitude é tema de estudo na”acadimia” deles.

    Simples assim.

    1. Sobre pedestais, palanques, formaturas: Leões.
      Fora, uns felpudos gatinhos mimados, frágeis, inofensivos.

  2. Nunca havia o visto falar.
    Porém, mesmo sendo sem importância ou relevância:
    – que “voz-zinha” estranha, suave, mole, melosa, paisana.
    Parece tudo, menos um militar.
    ‘Geraçãozinha’ ruim, fraca, descaracterizada, meã, fraca, sem aptidão/vocação.
    Jamais um cidadão como este nesse depoimento sem honra e crédito:
    – chegaria ao generalato anos 80’/anteriores, jamais!
    Vergonha Perpetrada por estamentos superiores que nunca cessa, sem fim.
    Apoio, engajamento, envolvimento, aliciamento da Alta cúpula das FA:
    – a causa bolsonarista continua fazendo estragos.
    E para desgraçar tudo de vez: – é da Arma.
    Vergonha.

    1. Exatamente, no carro peguei sua reportagem pelo meio e fiquei surpreso ao final da entrevista constatar que se tratava de um dos atuais estamentos mais superiores.
      Parece tudo, menos um General

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