Exército ameaça punir militar que comemorar aniversário o 31 de março

Capa do Estadão em 3 de abril de 1964

Estratégia segue decisão do Ministério da Defesa de ignorar data e evitar crises com o Palácio do Planalto

Cézar Feitoza, João Gabriel
BRASÍLIA – O comandante do Exército, general Tomás Paiva, afirmou a interlocutores que a Força punirá oficiais que comemorarem o aniversário do golpe militar nesta sexta-feira (31) ou participarem de eventos organizados por militares da reserva.

Segundo relatos feitos à Folha, a orientação foi repassada a oficiais-generais. A principal preocupação está com os movimentos previstos entre reservistas no Rio de Janeiro.

Para isso, oficiais da Força ficarão atentos à movimentação no Clube Militar —grupo de integrantes da reserva que promoverá um almoço, no Rio, para celebrar o golpe de 1964.

O evento é convocado sob a alcunha “Movimento Democrático de 1964”, com ingresso a R$ 90 e restrito a sócios e convidados. Generais ouvidos pela Folha afirmam que não é rara a presença de oficiais da ativa em eventos do Clube Militar, especialmente pelo fato de reservistas terem familiares na ativa.

A iniciativa de Tomás não decorre de orientação direta do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, mas foi tomada após decisão da pasta de manter-se em silêncio diante do aniversário do golpe de 1964.

Somente o plano de ignorar a data foi acertado entre Múcio e os comandantes Tomás Paiva (Exército), Marcos Olsen (Marinha) e Marcelo Damasceno (Aeronáutica), em conversas informais.

A pasta confirmou à reportagem que não emitirá notas sobre o dia. “O ministério não divulgará nenhum comunicado ou ordem do dia sobre a data”, disse a assessoria.

Integrantes da cúpula do Ministério da Defesa afirmam, sob reserva, que a decisão de ignorar a data foi a forma encontrada de evitar crises na data tanto com os militares quanto com o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O silêncio ainda é o meio-termo entre as comemorações à data, feitas nos últimos quatros anos sob o governo Jair Bolsonaro (PL), e a divulgação de comunicado em repúdio ao golpe militar, que, na avaliação da Defesa, poderia desgastar a relação de Múcio especialmente com oficiais de baixa patente.

Outras áreas do governo também têm decidido ignorar a data. O Ministério de Direitos Humanos, por exemplo, não emitirá nenhum comunicado em repúdio ao golpe militar no dia de seu aniversário.

Por outro lado, a pasta organizou nos últimos dias a “Semana do Nunca Mais”, programação com uma série de agendas voltadas à preservação da memória, da verdade e da justiça sobre o período da ditadura.

A semana teve como ápice a primeira sessão da Comissão de Anistia, nesta quinta, às vésperas do aniversário do golpe de 1964. No encontro, o colegiado reverteu pedidos de indenização negados pelo governo Bolsonaro, em julgamentos considerados injustos.

“Rechaçar os crimes e as violações de direitos humanos ocorridos na ditadura civil-militar brasileira não significa, portanto, criticar as Forças Armadas, mas apontar para um período da história que todos, sem exceção, devem deixar para trás”, afirmou o ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, durante o evento.

“E isso não se dará silenciando sobre este período, mas conhecendo-o profundamente para que não deixemos que se reproduza no presente, como hoje o faz por lamentáveis atos de violência e ameaças contra cidadãos e instituições democráticas.”

Após o retorno da Comissão de Anistia, o ministério articula agora a recriação da Comissão de Mortos e Desaparecidos, extinta por Bolsonaro.

As manifestações contra a ditadura também têm sido feitas pela EBC (Empresa Brasil de Comunicação), que planejou programação especial nesta semana para exibir filmes e organizar debates sobre o “verdadeiro caráter ditatorial do golpe militar de 1964”, segundo um de seus avisos.

“Entendemos que é importante que os que não viveram este período da história do Brasil conheçam os males causados pelos regimes autoritários e entendam os benefícios da democracia”, disse a EBC em nota.

A decisão do Ministério da Defesa de ignorar o aniversário do golpe militar rompe um ciclo de quatro anos consecutivos em que, sob Bolsonaro, o governo comemorou a ditadura em comunicados oficiais.

Nos últimos quatro anos, o Ministério da Defesa publicou ordens do dia em celebração ao golpe militar de 1964. A comemoração foi uma ordem dada pelo ex-presidente.

“Nosso presidente já determinou ao Ministério da Defesa que faça as comemorações devidas com relação ao 31 de março de 1964 incluindo a ordem do dia, patrocinada pelo Ministério da Defesa, que já foi aprovada pelo nosso presidente”, disse em 2019 o então porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros.

Depois disso, os então ministros Fernando Azevedo e Braga Netto divulgaram comunicados sobre o dia, que foram lidos nos quartéis e eventos militares marcados para 31 de março.

Em 2020, Azevedo escreveu que “o Movimento de 1964 é um marco para a democracia brasileira. Muito mais pelo que evitou”. E completou: “A sociedade brasileira, os empresários e a imprensa entenderam as ameaças daquele momento, se aliaram e reagiram. As Forças Armadas assumiram a responsabilidade de conter aquela escalada, com todos os desgastes previsíveis”.

Braga Netto, em 2021, foi ainda mais incisivo em sua manifestação. Ele disse que a ditadura militar merece ser “celebrada”. “O movimento de 1964 é parte da trajetória histórica do Brasil. Assim devem ser compreendidos e celebrados os acontecimentos daquele 31 de março”, finalizou o comunicado.

O Exército chegou a celebrar a ditadura de 1964 em comunicados oficiais, lidos em quartéis, antes do governo Bolsonaro. Nos primeiros mandatos de Lula, o comandante militar escreveu quatro manifestações em comemoração ao aniversário do golpe.

Em 2006, por exemplo, o comandante Francisco Albuquerque emitiu um comunicado para o Exército “orgulhar-se do passado”.

“O 31 de Março insere-se, pois na história pátria e é sob o prisma dos valores imutáveis de nossa Força e da dinâmica conjuntural que o entendemos. É memória, significado à época pelo incontestável apoio popular, e une-se, vigorosamente, aos demais acontecimentos vividos, para alicerçar, em cada brasileiro, a convicção perene de que preservar a democracia é dever nacional.”

À época, o ministro da Defesa Waldir Pires disse que respeitava a posição do comandante do Exército. “Não tenho nada a contestar à posição de quem interprete dessa forma [a exaltação ao golpe militar]. Tenho que respeitar a posição de cada um”, afirmou.

O Exército deixou de divulgar comunicados oficiais em comemoração ao golpe militar em 2007. Nos últimos 16 anos, as únicas citações oficiais foram feitas pelo Ministério da Defesa.

Logo após assumir a Presidência, em 2011, Dilma Rousseff (PT) determinou que as Forças Armadas não citassem a ditadura militar nas ordens do dia. Naquele ano, o Exército chegou a vetar uma palestra do general Augusto Heleno que seria realizada em comemoração ao golpe.

FOLHA/montedo.com

20 respostas

  1. Eh assim que os governo autoritario trata fatos da historia do seu povo. queima livros e cala os contrarios. Esse cmt do EB será lembrado como o judas de vO. Ja fiz a queima de fogos hoje na madrugada, em homenagem ao que tombaram em defesa do bem.

  2. Então prepara um presídio inteiro para os associados do Clube Militar da Lagoa-RJ.
    Hoje haverá milhões de comemorações alusivas à data.
    Babaquice!

  3. Não tenho nada de comemoração, mas quanto será terá uma comemoração que os altos coturnos militares brigaram por seus subordinados para todos igual seja da Ativa ou da reserva de terem um salário digno? Pois quem vai comemorar no clube militar quem são????? O soldado? O cabo? O sargento? O subtenente? E quem paga o salário de todos? Quanto vão se reunir e largar uma nota de solidariedade ao pessoal Prejudicado na MP 2215-10? E agora a pior lei 13.954 ,Desde da fundação do exército brasileiro, sim bons e muito bons para uns e ruim para outros, mas o que mais Quem mais prejudicou tudo foi a Divisão de todo Mundo. Não Falaram que o PT que queria dividir para somar. Acredito os que falaram isso e continuam falando isso deviam fazer uma profunda reflexão na memória de quem mesmo dividiu o pessoal com a lei 13.954? As forças armadas já não estão com a imagem muito boa diante do povo e culpa de quem? Olha senhores podiam comemorar o que quiser agora independente de que lado as pessoas estão ouve mortes e com certeza dos 2 lados e por isso se deve ter mais uma profunda reflexão os Prejudicados vão comemorar o que mesmo? Mas sábias frases. Nada melhor que um dia o outro. O tempo é o senhor absoluto da razão.

      1. Ele quis dizer que as vezes, nem sempre, mas de vez enquanto, até parece que alguns, já outros não, tem o costume, embora não seja de todos, de até tentar o que outros não tentam de tentar explicar alguma coisa embora não consiga! Entendeu ou quer que desenhe, ou não quem sabe?

    1. Prezado, desde o Pacto de Princeton as FFAA caminham para o degredo. Se vc quiser mesmo questionar comece por aí pois o tempo, senhor absoluto da razão, te mostrará, em alguns anos, que não terás mais nada a comemorar.

  4. Na Venezuela o General Angel Vivas denunciava as festas da ditadura, Desapareceu e ninguém fala mais nele, nem a ONU, nem a imprensa internacional defensora dos “direitos humanos”, nem a OEA. Aqui nós temos um general denunciando a festa da retomada da democracia.

  5. Ai… Ui… a vermelhada vai ficar magoadinha se comemorarmos o 31 de março. Não façam isso senão eles farão pirracinha, colocarão o MST, o CV, o PCC e os Antifas nas ruas para dizer quem é que manda agora.

  6. Do jeito que falam parece que no dia 31 foi Stálin ou Pol Pot que instalou uma ditadura aqui com milhões de assassinatos e ainda não terminou.

  7. Eu vou comemorar o 31 de Março … o comandante das forças armadas já Foi Preso Por corrupção , que moral ele tem pra me chamar a atenção? Vou no outback hoje a noite e o drink e a ribs serão em comemoração ao 31 de Março … se Bem que Comigo não podem fazer nada 😂😂😂 sou R1 … 🤣
    St Marcos Pinto Rio de Janeiro

  8. Para quem não entendeu, os nascidos em 31 de março não receberão mais aquele cartão de aniversário do RP do quartel que chega atrasado depois do S1 já ter escalado para a guarda …

  9. Faz parte da história do EB comemorar seus fatos histórico. Inclusive salve melhor juízo, existe uma legislação no Exército que determina a alusão em formaturas de todos os fatos histórico do nosso glorioso EB. Infelizmente o Cmt Ex, cumprindo ordem de um presidente Comunista tem que se abster das comemorações em formaturas gerais

  10. Precedente perigoso quando se impõe subverter a realidade, reescrevendo fatos históricos.

    Stalin fazia isso a níveis extremos. Não apenas apagava das fotografias seus desafetos, mas a vida deles também.

    A manutenção dos fatos históricos como aconteceram no mundo real é fundamental para extraírmos aprendizados. Mas Quando se procura “apagar” algo que aconteceu, apaga-se a memória de um povo. E a memória de um povo funciona como a bússola para o navegador. Sem memória, não podemos saber aonde estaremos indo.

    Pergunto: e se amanhã, para não “ofender” suscetibilidades do governo de momento, começarmos a “apagar” a Campanha do paraguai, como ficarão os Patronos das Armas do Exército Brasileiro? Serão substituídos ou escondidos nos “cafofos” das Reservas de Material dos quartéis?

    O primeiro precedente já temos.

    Não nos surpreendamos com o que agora virá.

    Bom final de semana a todos!

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