A obediência militar segundo a inteligência artificial

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Disciplina e lealdade, somadas à hierarquia, são as argamassas para a manutenção da coesão dos homens e mulheres das armas em missões da caserna

Otávio Rêgo Barros*
Estou começando a palmilhar o misterioso mundo da inteligência artificial (IA) do ChatGPT. Ainda não confio nele (e será que devo confiar?) e, portanto, não o levo a ferro e fogo. Entretanto, essa semana, retomando a leitura do livro Diálogos sobre o comando (Bibliex), de André Maurois, quis aquilatar a percepção da IA em questões morais relativas à obediência e compará-las aos escritos do pensador francês.

Perguntei ao “ser” por trás daquele sítio da internet sobre obediência militar e obediência política. Após considerações sobre os dois conceitos ele concluiu: “A obediência militar é uma obrigação estrita dos militares, enquanto a obediência política é um direito e uma responsabilidade dos cidadãos em uma sociedade democrática”. Cumprimentei a IA com um like e registrei como positivo o fato de que ela esclareceu as diferenças básicas, mas ressalvei que a resposta precisava ser mais elaborada com exemplos e citações. Aliás, esse é um dos desafios da versão da empresa OpenAI.

Mas, convenhamos, é mesmo difícil perceber as características dessas obediências, principalmente em uma sociedade alijada histórica e culturalmente das discussões sobre o papel dos militares como instituição e do militar como cidadão-soldado. O Tenente, personagem na obra de Maurois, em conversas com o seu velho mestre, o Filósofo, afirmou que “quando me perfilo diante de meu coronel (e asseguro que o faço com vivo prazer), não é diante de um homem que bato os calcanhares. É diante de um princípio de autoridade que julgo útil e respeitável e sem o qual as sociedades humanas, nutrizes de sua liberdade, não teriam jamais existido”.

Não precisando atravessar o Atlântico, aqui mesmo em nosso Exército o general Armando Luís de Paiva Chaves assegurou a um subordinado que ouvira diversas vezes seu pai, também general, afirmar com convicção que “a carreira das armas é a mais livre das profissões, porque nela não se prestam honras e obediência ao homem, mas aos galões que ele porta”.

Reafirmo, essas são atitudes incompreendidas para a maioria da população, que muito confunde poder pessoal com poder funcional, ainda influenciada pelo sentimento, lembrando Gilberto Freire em Casa grande e senzala, de que o senhor de engenho pode tudo.

Afirmou o coronel da Reserva Marcelo Lopes Serrano, estudioso de liderança militar e instrutor da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, que o sentido da obediência possui duas expressões na alma do soldado. A disciplina, corolário da obediência, que se transmuta em lealdade, dever legal de todos os soldados. A lealdade, por sua vez, expressão subjetiva da disciplina, não deve ser dirigida a pessoas, porque seu dever de obediência não se vincula a elas, e sim ao princípio de autoridade que as reveste.

Disciplina e lealdade, somadas à hierarquia, são as argamassas para a manutenção da coesão dos homens e mulheres das armas em missões da caserna. Elas se estendem além, alcançando o velho soldado, já no descanso de seu lar, a observar seus camaradas na linha de frente, estando igualmente obrigado a defender os mesmos princípios, valores e tradições. Atuam também para melhor interpretação do controle civil sobre o militar, promovendo a responsável submissão do detentor da violência em nome do Estado ao nível político.

Robustece Maurois esse principio buscando, na sobrevivência moral do indivíduo, a justificativa para a servidão: “Submetido a civis, o soldado profissional se acha salvo de perigosas ilusões”. Instiguei a IA a propor uma receita para que a sociedade criasse melhores condições de compreender a obediência entre as peculiaridades dos fardados e, em consequência, aperfeiçoasse o relacionamento entre os estamentos civil e militar. Eis a resposta: Promover um diálogo aberto e respeitoso. Respeitar as diferenças. Conhecer melhor as Forças Armadas. Valorizar a democracia. Fiscalizar e denunciar abusos. Incentivar a formação de líderes comprometidos com o bem-estar coletivo.

As propostas da IA parecem platitudes, mas em sua simplicidade podem ser indicações de passos concretos para estabilização desse diálogo tão importante para a caminhada rumo a um futuro sem mais sobressaltos em nosso Estado de direito, que também deve se servir de obediência para amadurecer.

Obediência militar, antes que uma obrigação profissional aos que marcham armados e alinhados, é um dever moral que cresce na mesma proporção em que cresce o reconhecimento da sociedade desarmada ao papel de seus militares. Nisso, a IA não pode ajudar. Cabe-nos, tão somente a nós sociedade, o dever de cortejá-la com reverência. Paz e bem.

* General da Reserva, foi chefe do Centro de Comunicação do Exército

CORREIO BRAZILIENSE/montedo.com

5 respostas

  1. Lembrando que ética não é moral, como tão bem foi demonstrado pelo envolvimento dos militares no último governo. Qual O princípio moral seguiam?

  2. Disciplina são interresses; lealdade é via de mão única; hierquia e a subalternização do conhecimento. Na prática, não existem valores que resistam a cargos e contracheques extras.

  3. Hierarquia e disciplina são pilares muito interessantes, entretanto, no Eb, são aplicados de maneira estranha e injusta, vemos um sub tenente com 30 anos de serviço sendo obrigado a acatar ordens de um oficial temporário de 19 anos de idade, se há a necessidade de mais oficiais, pq não aproveitar os praças mais antigos?

    1. Isso vamos promover os militares com 30 anos de serviço a oficial e comandar os pelotões! Vamos mostrar que mesmo após os 50 anos ainda se corre os 3.000 metros em 12 e se faz a PPM e como faltaram militares nestes postos iremos puxando os demais para suprir as lacunas. Curso para quê? Vamos abrir na AMAN o serviço militar obrigatório e os oficiais entrarão como recrutas e somente após os 30 anos de serviço serão declarados 2º tenentes! É tão simples!

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