O Brasil falhou com os militares

Blindado doado ao Uruguai

Diante de tantos fracassos, surpreende que a crise só tenha eclodido agora

Érico Esteves Duarte*
Existe um mal-estar com os militares brasileiros expresso pelo presidente Lula, no último dia 12, e que se generalizou na imprensa e nas mídias sociais. Esse sentimento pode ser indevido porque, se os militares falharam na crise de 8 de janeiro, a República vem falhando com os militares há muito mais tempo.

Todos os presidentes que tivemos desde a redemocratização fracassaram com os militares por terem exercido pouco o papel de comandantes em chefe. Nenhum deles teve como agenda minimamente prioritária reformar as Forças Armadas e o Ministério da Defesa. A criação deste e suas remodelagens sempre foram de maneira delegada e, quando houve maior participação presidencial, foi a contragosto em momentos de crise. Eles falharam gravemente em nunca terem cumprido o artigo 91, parágrafo 1, inciso IV da Constituição, que estabelece ao Conselho de Defesa Nacional a responsabilidade de “estudar, propor e acompanhar o desenvolvimento de iniciativas necessárias a garantir a independência nacional e a defesa do Estado democrático”. Esse conselho nunca cumpriu seu papel, e os militares são mais consultados que subordinados a prioridades da Presidência da República; já suas atividades ordinárias são submetidas à quase nenhuma avaliação externa.

Pior, mesmo com o histórico de intervenções na política nacional, os vários governos nada fizeram para reduzir o poder político dos militares. Ao contrário, tornaram-se cada vez mais dependentes deles para construir estradas e pontes, distribuir água, conter epidemias, combater o crime organizado e mesmo garantir eleições, entre outras funções civis. Enquanto os militares forem centrais para a administração pública, terão envolvimento na política e recurso de barganha para se manterem insulados do controle civil.

O Congresso falhou com os militares por nunca ter supervisionado e intervisto quando o Executivo não cumpriu seu papel com as Forças. Deputados federais e senadores falharam quando aceitaram um papel marginal na formulação da política de defesa e, em vez de desenvolverem assessorias e debates públicos qualificados, se submeteram aos lobbies dos representantes formais e informais dos militares no Legislativo. Pior que isso, os parlamentares sempre subscreveram, quando não pressionaram, para o uso extrapolado dos militares em funções civis.
Com a exceção de Nelson Jobim, os ministros da Defesa falharam ao aceitar assumir uma pasta desestruturada, sem pessoal qualificado e mais submissa que de autoridade sobre os militares —e pouco fizeram para reverter isso. Nenhum deles foi capaz de desenvolver uma estrutura de análise e gestão da pasta independente. Mais que isso, todos aceitaram que os militares loteassem o Ministério da Defesa e transferissem para lá seus feudos e agendas particulares.

O Judiciário brasileiro também falhou quando nada fez para reverter a permanência, desde a ditadura, de um sistema judiciário militar paralelo sem equivalente em qualquer democracia no mundo.

As universidades falharam no desenvolvimento de expertise e conhecimento qualificados sobre defesa e nunca assumiram um papel mais central na formação dos militares. A maioria dos cientistas sociais tem aversão, senão repulsa, a assuntos de defesa e guerra em geral.
Os militares brasileiros falharam consigo mesmos. Nunca aceitaram plenamente serem servos sem reservas da nação e sempre flertaram com a tutelagem da democracia. Cederam à tentação de expansão de missões subsidiárias em troca de orçamento extraordinário e a posições civis nos governos Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (MDB) e, principalmente, Jair Bolsonaro (PL), com ganhos financeiros, privilégios e status que deformaram e expuseram suas corporações.

A lista de fracassos do Brasil com os militares é longa, e não surpreende o mal-estar geral em relação a eles. O que surpreende é como isso demorou tanto para acontecer.

* Professor de relações internacionais e estudos estratégicos da UFRGS, é professor visitante da Universidade de Denver (EUA) e autor de “Estudos Estratégicos” (Intersaberes)

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

FOLHA/montedo.com

Respostas de 16

  1. O texto é muito bom, principalmente pelos relação aos argumentos apresentados. Porém, discordo sobre o vitimismo do militar. Não tem santo nessa história.
    Os civis, sim, querem usar os militares em atividades civis para explorar e dizer que é seu, já os os militares querem benesses como troca.
    Falta, de um lado (o do milico), dizer que a tarefa solicitada não É UMA função de militar e, o DO outro, criar meios para que a sociedade civil tenha os serviços com o uso de pessoal qualificado para exercê-los.
    O problema é a ganância dos atores. Sim, os militares, representados pelos Generais, querem mais poder e não contrariam os seus chefes e, o que é pior, flertam com a extrema direita golpista. os governantes querem colocar rédeas nos militares, mas nada fazem para melhorar as suas condições profissionais, querem apenas usá-los como civis baratos e disponiveis a qualquer tempo.
    Repito, bom texto, mas vítima? Nós não somos.

  2. Artigo de professor de universidade Federal e Uma nota de três para mim é o mesmo … nessas universidades fuma-se ervas a rodo kkkk

    E aí subtenentes , Suboficiais e sargentos das três forças que votaram no ex presidiário, já tiveram aumento? Um Mês de governo já era pra Ter aumento e picanha …

    1. Pelo menos não tiveram “decréscimo” em seus salários, como ocorrera na gestão anterior. Um conselho ao colega sub: pega esse seus “altos estudos” e vá tomar…, vá tomar uma cerveja na praia com a família. Aproveita o que outros sequer tiveram a oportunidade de cursar.

          1. Se você não teve oportunidade de cursar o CHQAO porque ele não existia, pelo menos uma LE pegou. Se não cursou por algum outro motivo, é ruindade mesmo.

    2. Meu colega, eu sou Subtenente da reserva, sou professor DE de ensino superior Federal e nao e isso o que eu presencio no campus. Serão esses futuros Profissionais, os quais eu incluo o meu filho e de muitos aqui que por Méritos entraram nas melhores Universidades do pais Serão os futuros profissionais que vc ira precisar, Médicos, dentistas, engenheiros, advogados, etc. Não faca Ilação daquilo que vc Não vivenciou e não conhece. O Avanço Tecnológico e desenvolvimento do pais so Será Alcançado com Educação e Ciência.

    3. Perdeu excelente oportunidade de ficar calado. Ficou quatro anos sem receber nenhum centavo de aumento e comendo ovo e vem com esse papinho, se fosse um terceiro sargento até relevaria mas vindo de um pseudo sub tenente é de doer. Sei que você não ficará com vergonha do seu Comentário, mas Eu fiquei e olha que Eu tive aumento heim.

  3. Se somar o texto mais a resposta do bisonho de carreira e um plano de carreira para os praças teremos resolvido boa parte dos problemas.
    Chega de catar lixo na beira de carrego para vereador tirar fotos

  4. Textinho fraco, típico
    desses ” intelectuais brasileiros ” cheio de ressentimento contra militares.A nossa formação como povo,
    modelou as nossas FFAA. isso é único,mas vivemos no país que até mesmo quando o militares depuseram um caquético regime liderado pelo – Imperador – somos chamados de golpistas!!! Teria sido melhor continua como monarquia,né?

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