Leonardo Martins e Eduardo Militão
UOL, em Brasília
O grupo técnico de controle de armas do governo de transição do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), estuda tirar do Exército a avaliação e autorização de registros de CAC (Caçador, Atirador e Colecionador). O trabalho seria transferido à Polícia Federal.
Integrantes do grupo informaram ao UOL que a sugestão de mudança é debatida e avaliada junto com uma série de propostas para o setor.
O assunto será levado ao vice-presidente eleito e coordenador geral do governo de Transição, Geraldo Alckmin (PSB), neste fim de semana.
Por que tirar do Exército?
Os técnicos acreditam que a mudança tornaria o processo de aprovação de CAC mais confiável e reforçaria a fiscalização dos atiradores.
Hoje, eles veem riscos à segurança pública pelos seguintes motivos:
– o Exército afirmou que não sabe quantas armas existem em cada cidade brasileira nas mãos de CACs, conforme noticiou o UOL.
– o sistema das Forças Armadas não detectou uma fraude no controle de munições considerada “esdrúxula” pela Polícia Civil do Maranhão num desvio de 60 toneladas de projéteis;
– outro problema, histórico, é a falta de integração e dificuldade de acesso entre os sistemas da PF, o Sinarm, e do Exército, o Sigma –o grupo de Justiça e Segurança também debate as formas de corrigir isso.
Para se ter ideia, no dia em que o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) atirou contra policiais usando um fuzil, os agentes e delegados da PF envolvidos na ação não conseguiram acessar o Sigma para conferir a quantidade de armas registradas em nome dele ou de conhecidos. O motivo é que o sistema estava instável, segundo um dirigente da cúpula da PF informou ao UOL.
O acesso rápido às informações de bancos de dados envolve também o setor privado. A sugestão debatida no grupo é criar um sistema de com dados da fabricação e da venda das armas.
Hoje, dois sistemas pertencem às indústrias de armamentos e munições. As duas aplicações seriam substituídas por outra, que seria utilizada pela Polícia Federal e pelas polícias civis dos estados. Não há notícia de que o grupo técnico possua integrantes da caserna.
Arsenal nas ruas
Durante a gestão de Bolsonaro, 1 milhão de novas armas particulares foram registradas no país, diante dos decretos assinados com flexibilizações pelo presidente.
Ampliar o acesso da população a armamento foi uma das promessas de campanha de Bolsonaro em 2018. Em 2019, ele assinou decreto facilitando o registro, a posse, o porte e o comércio de armas para os CACs.
Informações obtidas sobre a fiscalização do Exército chamaram atenção do grupo. Em 2020, o Exército teria fiscalizado apenas 2,3% dos CACs. Em 2022, entre janeiro e julho, apenas 2,7% dos CACs registrados haviam sido fiscalizados. Atualmente, são mais de 600 mil pessoas cadastradas como CAC no Brasil.
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas, não deu detalhes da sugestão, mas analisa que os dados são preocupantes e que o cenário será solucionado pelo governo eleito.
Posição do Exército
O UOL pediu esclarecimentos ao Exército sobre o tema. Eles serão publicados quando forem recebidos.
O UOL pediu entrevistas com dois representantes de movimentos favoráveis à maior facilidade na obtenção de armas, o advogado Marcos Pollon, do Movimento Pró-Armas, e o coordenador do Centro de Pesquisa em Direito e Segurança Pública, Fabrício Rebelo. Não houve retorno até o fechamento da reportagem.
O que pode ser feito?
“Se decidida esta transferência de competência por parte do governo eleito, é preciso criar estrutura para o órgão que for receber (como PF)”, disse outro integrante do grupo técnico, o mestre em administração pública e políticas públicas pela Universidade de York (Reino Unido) e gerente do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani.
Criação de um novo órgão
Outra ideia é criar um órgão de controle de armas. “Ou ainda pensar numa agência de controle de armas sob controle civil, como existe na Argentina (Anmac) e no Peru (Sucamec)”, sugere Langeani.
Essa sugestão de Langeani é reforçada por outros integrantes do grupo técnico, conforme o UOL apurou.
Além da disposição do novo governo, a ação dependeria de análise mais detalhada dos custos e em qual ministério ficaria alocada.
UOL/montedo.com
Respostas de 4
Vamos ser sinceros o controle dos CAC nas regiões militares, fica ano controle de algum coronel manga lisa e normalmente problematico, com um ou dois sargentos que fazem tudo e estão há muito tempo na função. Qdo estive servindo em Brasilia um companheiro tirou a vida com uma sindicância que foi instalada e estava chegando nele.
Tudo nas mãos dos “cumpanheros” é a idéia central. “Arsenal nas ruas?” Ora, estão antecipadamente penalizando os cidadãos que possuem armas legalizadas. E sobre os meliantes que possuem armas mais letais que as próprias polícias…nada? Não os desarmam? Santa hipocrisia!
Excelente notícia, espero que se concretize.
Menos uma mochila nas costas do EB.
Em desarmar bandidos ninguém fala nada!