Rússia começa a convocar reservistas, mas jovens fogem e falta estrutura de treinamento

Ativista solitária faz ato de apoio ao presidente Vladimir Putin, em Moscou Foto: Alexander Nemenov / AFP

Analistas apontam que Moscou desmontou a capacidade de grandes mobilizações militares herdada da União Soviética

Por O Globo e agências internacionais — Moscou
Um dia depois de declarar a mobilização militar parcial na Rússia, o Kremlin anunciou as regras para a convocação de reservistas, que teoricamente podem aumentar em até 300 mil o número de militares em combate na Ucrânia. Teoricamente, apenas aqueles com algum tipo de experiência nas Forças Armadas serão chamados, mas analistas apontam que os termos do decreto firmado por Vladimir Putin são vagos e destacam que a medida pode demorar a surtir efeito na guerra.
Em declarações à imprensa, Vladimir Tsimlyansky, um dos responsáveis pela organização dos convocados, afirmou que reservistas de até 35 anos, no caso daqueles com patente de sargento, ou até 55 anos, no caso de oficiais superiores, estão sujeitos à convocação. Será dada prioridade àqueles com “registros militares idôneos” e com “experiência de combate”, e que devem trabalhar como “atiradores, tanquistas, operadores de artilharia, motoristas e mecânicos”.
Antes do anúncio da mobilização, analistas apontavam que, para a manutenção das áreas hoje ocupadas na Ucrânia, seriam necessários de 300 a 500 mil novos militares — o decreto firmado por Putin no dia 21 de setembro não estabelece um número preciso de quantos serão convocados, mas o Ministério da Defesa afirmou que seriam até 300 mil.
Autoridades militares afirmam que cerca de 10 mil pessoas já se apresentaram em centros de recrutamento, e que cartas já foram mandadas a milhares de pessoas ao redor da Rússia. Mas, entre enviar cartas, assinar decretos e estabelecer quem poderá ser chamado até que os convocados estejam armados dentro da Ucrânia, há um longo caminho.
“Primeiro, mobilizar até metade deste número poderá ser considerado um sucesso. Segundo, essas tropas não serão enviadas às frentes de batalha até o outono ou o inverno [no hemisfério Norte]”, escreveu o pesquisador Grzegorz Kuczyński, em artigo publicado pelo centro de estudos Instituto Varsóvia.
Analistas apontam que a outrora grandiosa estrutura de mobilização criada pela União Soviética, usada em conflitos como o do Afeganistão (1979-1989), foi desmantelada pelo Estado russo. Não há bases ociosas em quantidade suficiente para absorver rapidamente os novos militares, tampouco recursos para treiná-los de forma adequada. Na prática, as exaustas tropas russas serão substituídas por soldados sem o mesmo nível de treinamento, provavelmente em situações mais precárias, com armas de segunda mão e, mais importante, que foram obrigados a lutar.
“A diferença no moral, na coesão das unidades e outros fatores críticos entre as forças ucranianas e russas vai aumentar ainda mais”, apontou, no Twitter, o analista militar Rob Lee. Outro fator que pode ser determinante é a extensão dos contratos dos voluntários, antes válidos por alguns meses, mas que, agora, permanecerão em vigor até o fim do estado de mobilização. Rob Lee vê nisso um espaço para o aumento no número de desertores.

Minorias convocadas
A mobilização parcial também ressaltou algo que jornalistas e analistas políticos vinham apontando desde o início do conflito: uma quantidade desproporcional de voluntários lutando na Ucrânia vem de algumas das regiões mais pobres da Rússia, como Buriácia, Daguestão e Inguchétia, e não são etnicamente russos.
Anteriormente, se podia alegar que muitos foram convencidos pelas promessas de pagamentos em dinheiro do Exército. Mas relatos mostram que muitos dos convocados também são dessas áreas, e nem sempre se enquadram nos critérios do governo.
— Meu marido tem 38 anos, ele não está na reserva, ele não serviu — afirmou, em vídeo enviado ao partido do governo, o Rússia Unida, Yanina Nimayeva, jornalista da Buriácia.
Segundo ela, o marido tem cinco filhos — pessoas com mais de quatro filhos deveriam estar isentas de convocação — e trabalha em um serviço de emergência local. Na mesma região, estudantes do ensino fundamental foram mandados para casa porque suas escolas se tornaram centros de recrutamento. Imagens da capital regional, Ulan Ude, mostram longas filas de homens entrando em ônibus do Exército, e as redes sociais foram inundadas por histórias de cartas de convocação entregues aleatoriamente no meio da noite.
“Racismo e classismo são absolutamente parte desse processo. Guerras são quase sempre travadas pelos desprivilegiados, marginalizados e pobres, a serviço dos poderosos, e a Rússia não é exceção”, escreveu, no Twitter, Sam Greene, do Centro Europeu de Análise Política. “Mas há uma razão mais mundana — e mais problemática para Putin — atrás disso: inércia burocrática. Com a tarefa de juntar a maior quantidade possível de homens, os militares estão indo atrás dos alvos mais fáceis.”
Para muitos, sair do país se tornou questão de sobrevivência. Desde a manhã de quarta-feira, aeroportos ficaram lotados com viajantes em busca de voos para qualquer país que não exija visto de cidadãos russos: passagens para Turquia, Armênia, Albânia e Emirados Árabes dispararam de preço ou desapareceram. Longas filas se formaram nas fronteiras terrestres com o Cazaquistão e a Geórgia.
— Recebo, como meus colegas da Fundação Buryatia Livre, centenas de mensagens perguntando como partir para Ulan Bator [Mongólia]”, escreveu, no Facebook, Alexandra Garmazhapova, líder de uma organização contra a guerra na região.
Nesta quinta-feira, o governo da Alemanha afirmou que está pronto para dar asilo a reservistas russos que queiram desertar e “estejam ameaçados por medidas de repressão graves”.
— Aqueles que com coragem se opõem a Putin e, por isso, se vejam em perigo grave, poderão pedir asilo político na Alemanha — afirmou a ministra do Interior, Nancy Faeser, em entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung.
O Globo/montedo.com

Respostas de 7

  1. ´´ COMO SE FAZ A GUERRA “ É caros amigos do Montedo , a guerra Rússia x Ucrânia expõe a verdade que se faz guerra é com “PRAÇAS “ , não com estamento superior. Só nesses momentos ,mesmo com toda as armas modernas , não se ganha guerra , não secumpre a missão, pois não tem soldados para lutar e morrer.
    Vamos acreditar que os gênios militares do FA do Brasil ,tirem alguma lição do conflito e raciocinem antes de fazer leis ( 13.954/19 ) que lhes garantem só seus privilégios e alavancam seus rendimentos para o topo dos cargos da república, passando o ônus para o estamento inferior. Mas, O BRASIL NÃO FAZ GUERRA.

    1. Meu nobre amigo, fazendo um adendo ao que você escreveu. Temos o Exército Americano, que percebeu que quem trava guerras são praças. Eles são heróis até em seus filmes exemplo: Sgt John Rambo. Perceberam que o que motiva um homem a combater é o reconhecimento da nação que vem em forma do seu forte patriotismo e benefícios aos militares, bem como através de seus soldos, onde um Sgt Major ganha os mesmos proventos de um Coronel. No Brasil não temos praças heróis e sim, combatentes que por questões salariais sonham em se tornarem oficiais.

    2. Com certeza. A estrutura de comando russa é compartimentada e apenas oficiais superiores tem capacidade decisória. A Ucrânia, até 2014, não passava de um mini exército russo, porém com a o Euromaidan, consequente derrubada de Víktor Yanukóvytch e com a aproximação do ocidente, as forças ucranianas passaram a contar com assessoria militar de membros da OTAN, sendo que, nesses países, a liderança nas pequenas frações é incentivada e os comandantes de pelotão e grupo tem a liberdade para tomar decisões e explorar êxitos, independente de uma ordem do comandante de batalhão ou brigada, permitindo desta forma maior fluidez nas operações.

  2. O Brasil não faz guerra porque Se for o deus, patria e família, será deus do Milton; patria do Donald e, a sua família, a família copenhagen. o outro, vai atacar com tudo, depois negar; se for confrontado dirá que não foi o Brasil que atacou, foi un Hermano nuestro. E os generais? Há aaaa, que pena! Tô cheio de serviço na seção, se puder comandar de casa eu quero, vou sair marechal, não de Campo, de sala; outro não vai acontecer guerra pois ele tira o nome do soldado da relação…só um prexta, vai comandar em nome de deux, cabo veio….

  3. Se fecharem as fronteiras dos países para receberem os russos que não concordam com a guerra, eles não terão para onde ir e serão obrigados a irem para guerra.

    Os países devem receber os russos que não querem se envolver em guerras políticas e eternas.

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