“Então está resolvido. Assume Sarney. Alguém é contra?”

Ministro do Exército no governo Sarney (1985-1990), general Leônidas Pires Gonçalves

Nota do editor:
Em 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral elegeu o mineiro Tancredo Neves para suceder o general João Figueiredo na Presidência, dando fim ao ciclo do regime militar.
Em 14 de março, um dia antes da posse, Tancredo foi internado, acometido de doença que o levaria a morte, em 21 de abril. O relato de de Fernando Lyra, ministro de Justiça do governo eleito, revela os bastidores da reunião que definiu a posse do vice, José Sarney:

Véspera da posse que seria de Tancredo, chegamos no aeroporto de Brasília e a Polícia Federal me esperava (fora da programação).
– O ministro (Lyra) pediu para ir direto ao gabinete de Dorneles.
Maria Lectícia e os pais dela, dona do Carmo e dr. Armando, foram para o hotel; e, eu, para a Esplanada. Francisco Dorneles era sobrinho de Tancredo, futuro ministro da Economia e homem forte do seu governo. Perplexidade no ar, pelas incertezas do momento. Na sala de espera se amontoavam assessores, militares, quase todos os futuros ministros. O baiano Carlos Santana (da Saúde) ficava olhando só para o alto, imóvel, como se estivesse congelado. O gaúcho Pedro Simon (da Agricultura) rodava em volta dele mesmo, como um peru, sem parar. Fernando veio conversar
– Vai assumir Ulysses (Guimarães), como presidente da Câmara dos Deputados.
– Não pode, Fernando (como a doença de Tancredo era pública, já tinha examinado as questões jurídicas). O vice (Sarney) presta compromisso, perante o Congresso. Tancredo não, que está no hospital e tem 10 dias para isso. Ainda mais, por haver “motivo de força maior” (Constituição da época, art. 78). O Congresso declara momentaneamente vago, seu cargo, e assume o vice. Esse é o caminho.
– Mas assume Ulysses.
– Então pode escolher outro para meu lugar, amigo. Que nosso primeiro gesto, no ministério, seria uma ilegalidade. E não farei parte disso.
Algum tempo depois, Dorneles chamou cinco ou seis para reunião na sala dele (já com muitos outros personagens, por lá). O resto ficou onde estava. Na saída, Fernando contou como foi. Dorneles
– Afonso Arinos disse haver um antecedente, com Rodrigo Alves; que, doente, assumiu seu vice Delfim Moreira. Brossard e Saulo Ramos defendem a mesma tese. Fosse pouco, o próprio Ulisses prefere Sarney, repetindo sempre “é isso que a Constituição manda”. E Leitão de Abreu (que coordenava a transição por João Figueiredo, último presidente militar) garante que Sarney assumirá sem contestações.
O futuro ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, pediu a palavra. Era comandante do 3º Exército e contava com apoio de parte expressiva das Forças Armadas. Mostrou uma Constituição cinza, edição de bolso (quem viveu em Brasília, naquele tempo, sabe qual era) e falou:
– Devemos seguir o que diz esse livrinho.
Fernando:
– Meu Secretário Geral também diz que assume Sarney, como vice. E nem vai ficar no cargo, se a gente escolher Ulysses.
Muitos outros confirmaram esse entendimento. E Leônidas, depois de dar um tapa forte na mesa,
– Então está resolvido. Assume Sarney. Alguém é contra?
Silêncio na sala.
– E não se fala mais nisso.
Ninguém teve disposição, ou coragem, para contradizer. A palavra das forças armadas, numa hora dessas, é forte. Mais tarde, já na casa de Sarney, a transição seria sacramentada em ata por todos assinada. Foi assim.
Texto extraído de artigo publicado por José Paulo Cavalcanti Filho, do Jornal do Comércio de Recife.

Respostas de 13

    1. Exatamente, e eu era do grupamento “E” (ECHO), aquele que deu um sacode no sargento responsável em conduzir estes instruendos às oficinas de Instrução.
      Pagamos milhões, Rssssss

  1. Esse general tinha um genro que possuía uma fábrica/empresa de tecidos, pois a seu Comando e ordens foi alterado o uniforme diversas vezes.
    Esse não deixou saudades.

  2. ´´ É HISTÓRIA “ Cada um conta ,segundo o que pensa o que viu e acha que é. Conheço outra versão , de quem estava junto do Presidente Figueiredo , que é bem diferente . Mas não interessa mais polêmica. Tudo é passado. O que vale é o futuro do Brasil, que no momento me parece tenebroso.

  3. “A palavra das Forças Armadas, numa hora dessas, é forte. E é nessas horas que se ver a atitude de um patriota, o General Leônidas Pires Gonçalves. Mostrou o “livrinho”(Constituição) que tirou do bolso e sapecou: “Devemos seguir o que díz este livrinho!” (…)assume Sarney,alguém é contra? (…) Siléncio na sala . E não se fala mais nisso. Em outras palavras, Tá dito! Sarney assumiu.
    Lembro-me de um antigo político que dise certa vez: Os políticos têm a Constitução e os c###; os militares teem a Constituição, os c#### e os canhões! (não sei se o Montedo vai publicar,sim ou não, está no seu direito).

  4. Diante de tudo que estamos vivenciando e assistindo passivamente, de forma covarde e omissa, o que realmente está faltando é exatamente isso. Com uma das mãos a porrada na mesa e na outra um exemplar da nossa tão ultrajada Carta Magna seguida da ordem para o fiel cumprimento dos termos ali estabelecidos.

  5. General pesa em sua consciência a vitória do Lulá-lá.

    Geberal em janeiro vá falar com o Recursos Humanos

    Sua carta de demissão estará prontinha lhe esperando

    Ass: Lula

  6. Leônidas Pires Gonçalves foi um general diferenciado. Proporcionou o acesso de praças do Exército ao oficialato sem concurso e a eleição de ladrões ao mais elevado cargo da República com o aval do STF/TSE. Um homem que antevia o futuro.

    1. “foi um general diferenciado…”.
      Que coisa asquerosa, deixe de ser babão, submisso.
      Vc nessa idade e fase da vida continua naquela veneração vexatória típicas do século passado.
      “Relendo Leônidas”:
      – com certeza deve ser mais uma alcunha daquele sujeito inominável.

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