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Investigada por estelionato, suspeita teria aplicado ao menos 80 golpes no RS e em SC

BRUNA VIESSERI
A mulher presa dentro de uma casa em Canoas na semana passada, suspeita de ter aplicado ao menos 80 golpes no Estado e em Santa Catarina, nem parece a mesma que chegou ali dois meses antes, de acordo os vizinhos. Prestativa, a nova moradora da residência chegou ao local, em abril, se identificando como oficial do Exército e dizendo que havia pedido transferência do interior do Estado para atuar na Região Metropolitana. Cerca de 60 dias depois, na última sexta-feira (20), saiu dali presa, investigada pela Polícia Civil por estelionato e por usar uma suposta patente de major para ganhar confiança das vítimas.
Conforme a investigação, a mulher é de Porto Alegre e agia desde 2020. Dos 80 casos registrados, 30 foram no RS. O prejuízo é de R$ 200 mil considerando 18 destas ocorrências. Os outros 62 casos ainda são apurados no inquérito, que segue em andamento. O nome da presa não foi divulgado.
Um dos primeiros a conhecer a mulher no novo endereço em Canoas foi André (nome fictício), 74 anos. Junto da esposa, ele conta que passou a ajudar a moradora recém chegada. Como a casa que a inquilina alugou ainda estava vazia, o casal decidiu emprestar alguns itens como colchão e utensílios domésticos, até que a mulher se estabelecesse.
— A gente sabe que demora um pouco até montar uma casa, até chegarem as coisas. Temos uma filha, sabemos como é esse começo. Ela veio sozinha, estava aqui sem os pais, sem apoio. Então demos esse suporte, a gente ajudava, cuidava. Nós levamos até comida quente, fazia feijão e levava para ela. Ela foi tratada como filha e, infelizmente, fez isso com a gente — lamenta o aposentado.
Como vizinha, a mulher era “simpática e prestativa”, segundo a família, e dizia que trabalhava como enfermeira no Exército. Segundo André, a mulher contava que já havia morado no Rio de Janeiro e que teria viajado, para ajudar em crises humanitárias, a locais como Haiti e Vietnã. Nos primeiros dias no bairro, ela circulava pelo local com uniforme da instituição, segundo o aposentado. Pelo WhatsApp, enviava fotos do que seria um quartel do Exército, enquanto supostamente estava no trabalho. Brincando, pedia que os vizinhos cuidassem da casa enquanto ela não estava.
Alguns dias depois, veio um dos primeiros pedidos de ajuda por parte da mulher, segundo André. Ao receber alguns móveis na casa, ela afirmou que estava com problema no cartão e que ele não estava passando. Pediu que o vizinho pagasse pela compra e garantiu que depois faria a trasnferência. O mesmo pedido se repetiu várias vezes depois, com compras de roupa, maquiagens e até cortinas, segundo o idoso.
Ao perceber que os valores prometidos pela mulher não entravam na conta, André relatou a situação para a filha, que conversou com a vizinha.
— Eu pedi para ela me mandar os comprovantes, disse que talvez ela tivesse anotado errado o número da conta do meu pai, porque o dinheiro não vinha. Ela me mandou uns prints e eu vi que parecia muito uma montagem. Foi quando a gente decidiu procurar a polícia. Lá, fomos informados que já haviam outros casos registrados e que uma investigação estava em andamento — conta a filha do idoso.
Na delegacia, a família diz ter sido orientada a não mudar o comportamento, para que a mulher não percebesse.
— A gente ainda precisou se fazer de cínico, não deixamos de tratá-la bem, para que ela não fugisse — afirma o aposentado.
Segundo a família, a mulher também teria aplicado golpes em comerciantes do bairro, como um vendedor de verduras e um borracheiro. Para a filha do idoso, a vestimenta do Exército ajudou a golpista a conquistar a confiança dos moradores:
— A gente não imagina que qualquer um tenha acesso a essas roupas. Ela usava o nome do Exército e os uniformes para conquistar a confiança das pessoas. Ela sempre dizia que dinheiro não era problema para ela, que só estava com problemas no cartão. Chegou a dizer que ia conseguir uma vaga para a minha filha no Colégio Militar, mas eu sei que não é assim que funciona, então nem dava bola. Mas ela ficava insistindo nisso — lembra.

“Esse caso é algo que me abala muito, foi uma lição”
Conforme a família, o prejuízo total é de cerca de R$ 20 mil, valor que vem sendo cobrado nas parcelas do cartão, referente as compras pagas pelo idoso a pedido da mulher. O aposentado afirma que aguarda autorização judicial para tentar devolver os produtos ou colocá-los para venda, na tentativa de reaver o valor.
— Eu fui criado para ajudar, tenho 74 anos e sempre fui ensinado a ajudar os outros. Esse caso é algo que me abala muito, foi uma lição. E, além disso, agora estamos com móveis e sacos de roupas aqui em casa, com as parcelas dessas compras chegando. Não sei como resolver isso. Assim como eu, muitas outras pessoas estão enfrentando problemas por causa dela. A gente espera que a Justiça nos ajude a resolver tudo isso, eu ainda acredito na Justiça — diz o aposentado.

Atuação sofisticada
De acordo com a Polícia Civil, a mulher agia de forma “sofisticada”. As vítimas são de diferentes idades e se tornavam alvo de acordo com uma “seleção” feita pela mulher. Além de oferecer vagas e cursos nas Forças Armadas, ela pedia dinheiro emprestado às vítimas, utilizava cartões de crédito das pessoas e até montava negócios em sociedade.
— Não é uma golpista comum. Ela agia de forma ardilosa, inteligente. Era uma ação sofisticada. Ela escolhia as pessoas que ela acreditava que poderiam dar algum valor as qualidades que ela criava. Então atraia pessoas que têm respeito pelo Exército, que tem algum problema de saúde, já que afirmava ser enfermeira. Ela aliava a vítima a qualidade. Chegou a prometer, inclusive, que ajudaria em um processo de adoção. Eram golpes dos mais variados — avalia a diretor da 2ª Delegacia Regional Metropolitana, delegado Mario Souza.
Segundo a investigação, a mulher criava um personagem e se deslocava entre cidades do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Quando aplicava golpe em um local, desaparecia, voltava para casa e depois partia para outro município. A mulher chegou a abrir um negócio em sociedade com pessoas que foram lesadas, deixando um prejuízo de cerca de R$ 60 mil para uma das vítimas. Ela chegou a ser presa em 2021, mas foi liberada posteriormente pela Justiça.
No dia da prisão, na sexta-feira passada, os agentes cumpriram também um mandado de busca. No local, foram apreendidos uniformes militares completos que a mulher usava para se encontrar com as vítimas, além de insígnias e distintivos correspondentes a um nome fictício usado por ela, segundo a polícia. Também foram localizados terminais de computadores e máquina para pagamentos com cartões. Segundo as equipes, a investigada simulava, por vezes, estar dentro de um quartel das Forças Armadas, trabalhando.
GZH tenta localizar a defesa da mulher, para esclarecimentos.
A polícia pede que pessoas que tenham sido vítimas de golpes procurarem as equipes pelos telefones: (51) 3425-9056 e (51) 98459-0259.

Veja dicas para se proteger de golpes

Golpistas, em geral, oferecem vantagens para atrair a vítima e têm pressa para obter lucro. Fique atento a isso
Certifique-se de que a pessoa com quem você está conversando, seja pessoalmente ou pelas redes sociais, é ela mesma. Para isso, uma dica é telefonar para a pessoa. Também é possível entrar em contato com a instituição para checar se a pessoa realmente trabalha naquele local
Se tiver um familiar idoso, oriente a pessoa sobre os golpes mais comuns e como se prevenir deles
Desconfie de ligações de desconhecidos e nunca repasse informações pessoais
Ao comprar algo pela internet, desconfie se o site só aceitar pagamento por boleto ou transferência, se tiver falhas ou erros na página e se o único contato for por WhatsApp
Desconfie de publicações na internet que ofereçam serviços e bens por um valor abaixo do preço de mercado
Não adquira produtos pela internet sem antes se certificar de quem está vendendo Mesmo que seja um perfil conhecido, só efetue o pagamento após conversar diretamente com a pessoa
No momento do pagamento, seja por Pix ou transferência, confira se o nome do destinatário é o mesmo de quem está adquirindo o produto
Não repasse códigos recebidos no celular, por exemplo. Essa é uma das principais estratégias usadas para hackear contas no WhatsApp e no Instagram
Durante a venda de item, só entregue o produto após o dinheiro entrar na conta ou receber o valor. Não confie em comprovantes de transferência porque eles podem ser falsificados
Caso seja vítima, registre a ocorrência. É possível utilizar a Delegacia Online. Reúna todas as informações que podem servir como provas, como dados bancários, conversas por mensagens e fotografias

Fonte: Polícia Civil do RS
GZH/montedo.com

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