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Otávio Santana do Rego Barros*
A cinco meses das eleições, as manchetes diárias descrevem cenários desafiadores. Parece que caminhamos ligeiros para um quadro de confrontação perigoso para a nossa democracia.
As más notícias potencializam as acusações entre adversários, ao contrário de induzirem a busca de concertação (se algum dia foi possível), único antídoto que o país terá para enfrentar e superar tantas adversidades.
Ainda confiantes no resto de equilíbrio emocional dos contendores e no processo instituído, no qual assinamos uma procuração com plenos poderes aos nossos eleitos, devemos cobrar clareza das cláusulas com as propostas do governo.
Como vencer a carestia, combater a corrupção, criar empregos, promover educação, ampliar segurança pública, fortalecer os relacionamentos institucionais, respeitar o meio ambiente, aplainar as relações diplomáticas, salvaguardar as Forças Armadas?
Os candidatos usam a simplificação rasteira de ideias para facilitar a comunicação e evitar um debate sólido e sustentado. Faltam-lhes substância de argumentos. Temem espantar eleitores já fidelizados.
Os programas de governo, quando apresentados, são resgates de backups passados, iluminados como inovadores, em um Power Point de versão desatualizada.
A complexidade dos desafios exigirá do vencedor a fortuna e a virtù, atributos que Maquiavel considerava essenciais ao príncipe, para recolher os cacos do cristal quebrado que hoje é o Brasil e tentar reconstruí-lo.
Os países, por maduros que sejam, precisam de chefes de governo equilibrados, em especial quando atravessam o cabo das tormentas de sociedades em agitação.
Embora não estejamos em conflito armado, uma leitura da obra Liderança na Guerra (Editora SCHWARCZ, 2019), do historiador Andrew Roberts, iluminará os atributos de quem fez história durante períodos convulsivos de suas nações e que são válidos para estimular nossas lideranças.
Na obra, foram alvos de observações construtivas: Napoleão, Nelson, Churchill, Marshall, De Gaulle, Eisenhower e Thatcher.
O historiador demonstra ainda que há lideranças no terreno do mal ao citar Hitler e Stalin.
Destaco mais algumas, cujo ambiente de batalha estava localizado em outros campos do poder:
– Um Franklin Delano Roosevelt, salvando o seu país da falência, com a política do New Deal.
– Um Nelson Mandela, unindo-se com seu maior algoz, para cicatrizar as feridas de sua gente.
– Um Mahatma Ghandi, enfrentando o maior império na primeira metade do século 20, apenas pela força das ideias.
Caberiam ainda nesta galeria de inspirações: Karol Wojtyla, Martin Luther King e Cândido Rondon.
Figuras emblemáticas que fugiram das glórias pueris do momento, para conquistá-las no severo julgamento da história.
Voltemos ao Brasil e aos seus problemas.
É preciso senso de realidade para saber que na atual quadra não encontraremos lideranças com esse capital de atributos.
A dificuldade por surgimento de um novo está no velho.
Nos velhos dirigentes de partidos políticos e nas lideranças encasteladas no poder que asfixiam o sistema político-eleitoral, impedindo a ascensão de jovens cabeças.
Com ternos bem cortados ou roupas desleixadas por marketing, os velhos cheiram à naftalina, à laquê e à álcool curtido em barris de carvalho.
Apenas uma ação coordenada da sociedade poderá escoimá-los das cadeiras acolchoadas de bazófias, de truculências verbais e físicas, e de desprezo aos bens públicos.
É missão do eleitor desmascarar os elegíveis desqualificados nas seguidas eleições e impor um choque de cidadania na reelaboração do proscênio nacional. É a única arma que temos e vem funcionando. Tem que começar agora. Está na hora de renovar.
Paz e bem!
*General de Divisão da Reserva

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