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Cláudio Eustáquio Duarte*
Tenho estranhado muito a postura de generais exonerados do governo.
O último a ser exonerado, o ex-presidente da Petrobras, concedeu entrevista para o jornal O Globo, na qual diz que “é ruim ver a biografia rasgada de forma não responsável”.
Desde quando a simples exoneração de um cargo público significa rasgar biografias?
Ora, uma pessoa que é nomeada para um cargo poderá ser exonerada a qualquer momento por quem o nomeou.
O dicionário Vocabulário Jurídico, de Plácido e Silva, define nomeação como “o ato pelo qual uma pessoa é designada para desempenhar um encargo ou exercer uma função, investindo-se, dessa forma, de poderes indispensáveis ao exercício da missão ou encargo”.
O ato de nomeação dirá se se a pessoa é designada em caráter efetivo ou não;
o ato de nomeação do presidente da Petrobras não dizia que a nomeação era definitiva.
No momento da nomeação, os nomeados se enchem de empáfia, utilizam o posto que ocuparam no serviço ativo do Exército como se tal posto lhes desse passaporte para a efetividade no cargo, imunidade contra demissões ou lhe desse superpoderes, à semelhança de SuperMan, para permanecerem no cargo enquanto se lhes aprouvesse.
Ainda mais que, no atual governo, alguns generais têm colocado as estrelas acima do voto de 58 milhões de brasileiros que elegeram o capitão para presidir o país.
Quem nomeia pode exonerar, que nada mais é que a desobrigação ou liberação de obrigação ou encargo; significa a dispensa do cargo então ocupado.
Fatos rotineiros no serviço público.
Mesmo na vida militar, fomos nomeados e exonerados ao longo da carreira: nomeados instrutores, comandantes ou seja lá o que for.
E fomos exonerados, sem traumas e sequelas e sem considerar que a biografia fora rasgada.
Mas generais nomeados para integrar o governo se enchem de pruridos ao serem exonerados.
Assim aconteceu com ex-ministros e, recentemente, com o exonerado da presidência da Petrobras.
Ao invés de se sentir orgulhoso pelo convite que recebeu e pela honra de haver participado do governo por convite, o camarada se sente ofendido, melindrado, diminuído pela exoneração, como se não pudesse ser exonerado.
E saem a atacar o presidente, como se o presidente fosse obrigado a suportar um auxiliar que não se mostrou à altura do cargo ou que contraria diretrizes de governo.
Vaidades, vaidades, tudo são vaidades.
A vaidade prepondera sobre a disciplina, sobre a lealdade, sobre a humildade (natural), sobre a prepotência, sobre a arrogância de achar que as estrelas do cargo são o salvo-conduto de competência, de ser “imexível”, como disse certo ministro de péssima lembrança e que acabou sendo “mexido”.
Estarão faltando valores básicos – disciplina, respeito à hierarquia, lealdade, disciplina consciente – a novos militares ou esses valores estarão faltando apenas àqueles que são nomeados para o governo, são picados pela mosca azul e colocam as estrelas acima das citadas virtudes?
Na recente visita à Academia Militar das Agulhas Negras em comemoração aos 50 anos de formados, o atual comandante da Academia declarou que a geração de hoje é melhor que a nossa de ontem.
Pelos exemplos de indisciplina, deslealdade, de excesso de vaidade, de desrespeito ao presidente da República, comandante-em-chefe das Forças Armadas, da prevalência dos interesses pessoais, pelo chororô e pelo mi-mi-mi antipático de militares exonerados do governo parece faltar a vivência de virtudes militares básicas.
De minha parte e da maioria da turma Marechal Castelo Branco, com quem convivo há mais de 50 anos, afirmo que os princípios de disciplina, lealdade, respeito à hierarquia e aos superiores permanecem inabaláveis, diferentemente do que percebo nos generais exonerados do atual governo.
*Coronel Veterano de Infantaria
Turma Marechal Castelo Branco – AMAN – 1971

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