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Analistas são unânimes em apontar que generais estão se expondo ao perigo porque precisam comandar tropas mal preparadas ou desmoralizadas

Vilma Gryzinski
A conta de sete generais mortos em um mês na Ucrânia é impressionante por qualquer padrão. Segundo analistas americanos, a Rússia mobilizou cerca de vinte generais para o comando dos 150 mil homens que invadiram a Ucrânia.
Ter perdido seis ou sete – há dúvida sobre a primeira baixa, um general checheno – significa que quase 40% dos comandantes foram eliminados.
Generais de qualquer exército não devem se arriscar na linha de frente. Seu papel é comandar operações na retaguarda e garantir foco no objetivo estratégico, não se envolver nos embates táticos.
Nem nas forças armadas de Israel, onde faz parte da doutrina militar que os comandantes de unidades de combate avancem na frente com suas tropas, é admissível que generais atuem dessa forma. O general druso Ghassan Alian, primeiro não-judeu a comandar a legendária Brigada Golani, foi uma exceção: sofreu ferimentos nos olhos durante a operação de 2014 em Gaza. Voltou direto para o posto, mas houve algumas críticas bem discretas.
O único general americano morto nos vinte anos de guerra pós-Onze de Setembro, entre Afeganistão e Iraque, foi Harold Greene – não numa operação militar, mas atingido por um soldado afegão que disparou contra uma delegação de militares que visitavam uma base do exército.
Quando oficiais de alta patente vão para a frente de combate é porque alguma coisa está errada em matéria de planejamento, execução ou da própria concepção operacional.
Segundo uma conversa interceptada por forças ucranianas, o general Yakov Rezantsev, morto na sexta-feira passada na base usada pelos russos como posto de comando perto da cidade de Kherkov, havia visitado a tropa na linha de frente logo no segundo dia da invasão. “Aguente firme, filho”, respondeu ele a um soldado que reclamava da falta de equipamentos, garantindo que a operação seria resolvida em “questão de horas”.
Estava, obviamente, enganado. Um dramático indício de erros operacionais foi captado por forças chechenas, que postaram um vídeo mostrando o socorro que haviam prestado ao coronel Yuri Medvedev, levado para um hospital de campanha com as pernas esmagadas.
Segundo os ucranianos, sem querer os chechenos mostraram um incidente gravíssimo de indisciplina: o coronel havia sido atropelado por um tanque russo, de propósito, depois que a brigada do condutor perdeu “cerca de 50% dos homens”.
Ataques contra os próprios oficiais foram um problema enfrentado pelas forças americanas na Guerra do Vietnã. Numa época em que as forças armadas ainda não haviam sido profissionalizadas, recrutas revoltados ou desmoralizados foram responsáveis por nada menos que 800 episódios de ameaças ou ataques a oficiais.
O fenômeno ganhou até uma designação específica, “fragging”, palavra derivada do inglês para granadas de fragmentação. Jogadas nas barracas de oficiais odiados pela tropa, geralmente por incompetência, ou a percepção dela, as granadas não deixavam nenhum indício da autoria do atentado.
Matar ou capturar generais inimigos obviamente é um grande trunfo, tanto pelo significado militar quanto pela importância simbólica. Quando os russos finalmente tomaram Stalingrado, palco da mais dramática das batalhas da II Guerra, comemoraram a prisão de nada menos que 22 generais alemães.
O comandante das forças alemãs, Friedrich Paulus, havia sido promovido naquele dia a marechal de campo, o que interpretou, corretamente, como um aviso de que Hitler esperava nada menos do que seu suicídio – “Eu não tinha a menor intenção de me matar por um cabo da Baviera”, comentou depois o orgulhoso marechal alemão. O cabo era Hitler.
Magro, abatido e doente, Paulus foi na rendição, em 31 de janeiro de 1943, a imagem de seus próprios homens, que chegavam a enrolar toalhas nas pernas e nas mãos para enfrentar o frio durante o cerco duplo: os alemães rodeavam a pequena faixa de Stalingrado que ainda resistira e, por sua vez, estavam rodeados pelo Exército Vermelho.
Na prisão, ele tornou-se um crítico da liderança política nazista, foi testemunha de acusação no Tribunal de Nuremberg e chegou a ser autorizado a morar na Alemanha Oriental.
Deixou um alerta: “Até o melhor exército está fadado ao fracasso quando recebe a missão de desempenhar tarefas impossíveis, isto é, quando tem ordens de guerrear contra a existência nacional de outros povos”.
As forças russas, enfrentando um adversário mobilizado para uma luta existencial, estão muito longe da derrota – embora a vitória total tenha se tornado impossível.
“Esta guerra não corresponde à forma como os militares russos são treinados, preparados e equipados”, analisa o professor britânico Mark Galeotti, especialista militar em Rússia.
Galeotti acredita que “a operação inicial foi baseada nas noções bizarras de Putin de que a Ucrânia não é um país de verdade, não tem um povo de verdade, e portanto toda a construção desabaria”.
Militares que pagam o preço por erros de decisão de políticos são um clássico da história. Sete generais mortos em um mês, numa guerra que envolve poucas batalhas tradicionais frente a frente, são uma exceção.
“Os generais podem ver o que está acontecendo, mas têm que cumprir ordens e mentir a seus comandados que as coisas não estão tão ruins”, disse ao Financial Times outro analista bélico, o russo Pavel Luzin.
“Eles recebem ordens impossíveis de serem cumpridas, correm para a frente, direcionam cada tanque com as próprias mãos e são mortos”.
Veja/montedo.com

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