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Cursinhos preparatórios tiveram aumento de até 296% em alunos; vagas para as Forças Armadas somaram 2,6 mil em 2021

Douglas Gavras
SÃO PAULO

Enquanto se divide entre os estudos e o trabalho como motorista de aplicativo e caminhoneiro, Vinícius Aguiar, 26, não consegue conter a ansiedade. Tentando o concurso para a Polícia Militar de São Paulo pela segunda vez, ele acha que agora irá passar.
“Nunca tinha pensado em tentar um concurso até 2017 e, como nunca gostei muito da área administrativa, a PM me pareceu a opção perfeita. Como não passei da primeira vez, acabei colocando a ideia em segundo plano por um tempo, até me preparar melhor para a prova deste ano.”
Entre as motivações, ele cita as oportunidades de crescimento que a carreira oferece. “Isso ficou ainda mais importante nos últimos anos, de crise, mas virar policial sempre foi um sonho.” Aguiar não é o único a buscar estabilidade em uma carreira na polícia militar ou nas Forças Armadas.
No ano passado, o total de vagas não temporárias autorizadas em concursos públicos federais foi de 739 —chegando a 2.187, se considerados os provimentos para a Polícia Rodoviária Federal, segundo dados do Ministério da Economia.
Ao mesmo tempo, as vagas abertas em 2021 em concursos para as Forças Armadas somaram 2.605 e estados, como São Paulo, tiveram concursos semestrais para a Polícia Militar com editais que chegam a 2.700 vagas, segundo levantamento do site especializado JC Concursos.
Enquanto militares ganharam protagonismo e tratamento diferenciado em pautas impopulares do governo, como a reforma da Previdência, parte das demais carreiras da administração pública perdeu espaço com o discurso de austeridade nos últimos anos.
A forte presença militar no governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) e a baixa oferta de concursos públicos em órgãos federais desde a crise de 2015 e 2016 também afetaram o cotidiano das escolas voltadas para concursos.
Em uma das unidades do curso preparatório Central de Concursos, em São Paulo, o aumento no número de alunos matriculados em turmas para os concursos militares foi de 294% entre 2018 e 2021, de 53 para 209.
“O aumento da força de concursos voltados para a área de segurança e Forças Armadas é visível nos últimos anos, tanto por governos estaduais mais conservadores quanto pelo governo federal. Com a proximidade das eleições, estamos observando uma tendência ainda mais forte nesse sentido”, diz Gabriel Henrique Pinto, diretor da escola.
Ele diz acreditar que além da proximidade de discurso com as Forças Armadas ser uma marca do atual governo, havia uma carência de seleções na área civil desde o fim do governo da presidente Dilma Rousseff, em 2016, e um número crescente de candidatos passou a ver as carreiras militares como opção.
“O perfil, geralmente, é de candidatos mais jovens, que querem entrar na carreira ganhando em torno de R$ 4.000. E os cursinhos tiveram de se adaptar: há cerca de três anos, praticamente não oferecíamos turmas voltadas para a área de segurança; hoje, é impossível não oferecer.”
Segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, a ocupação na categoria de serviço público que inclui as Forças Armadas somava 7,6 milhões, enquanto outros funcionários públicos com e sem carteira assinada eram 3,8 milhões no quarto trimestre de 2021.
Diretora do Mag Educacional, em Brasília, Cristiane Barbosa conta que a procura por turmas preparatórias para seleções para as Forças Armadas triplicou nos últimos quatro anos. A maior parte das turmas é voltada para as provas que exigem ensino fundamental, buscadas por adolescentes que querem terminar a formação em escolas militares, mas a procura também cresceu entre os adultos.
“Muita gente passou a considerar a carreira militar como opção e recebemos alunos dos 14 aos 23 anos. Quem já passou do limite de idade exigido acaba indicando para os filhos ou sobrinhos”, diz a diretora. Um curso preparatório de um ano para uma carreira nas Forças Armadas na escola sai por cerca de R$ 17 mil.
Barbosa concorda que, embora as carreiras militares sempre tenham atraído um público que se identificava com a atividade e as particularidades dessas carreiras, essas provas entraram em evidência com o desemprego elevado e a baixa disposição do governo para lançar concursos para as áreas civis disputadas, como a Receita Federal e a Previdência.
“Em alguns casos, já são sete anos sem concursos novos. As seleções para Receita, Previdência e Banco Central seguem sendo muito aguardadas e em algum momento esses concursos vão ter de voltar. Mas temos alunos que acabaram optando pelas carreiras de segurança”, diz Marcos Brito, diretor pedagógico da Degrau Cultural, no Rio de Janeiro.
O cursinho, que antes esperava os editais para oferecer turmas para seleções de oficiais da Marinha, com salário inicial na casa de R$ 9.000, agora já começa a ofertar turmas o ano inteiro. Um curso de carga horária de 90 horas na escola carioca custa cerca de R$ 1.200.
“Desemprego e busca por estabilidade são questões que se tornaram mais relevantes nos anos recentes, de turbulência e crise. Sempre destacamos que a decisão de tentar um concurso assim deve ser um plano de dois anos”, diz Brito.
Segundo o diretor, os alunos das turmas das outras carreiras hoje não esperam uma enxurrada de novos concursos para carreiras civis este ano, mas tentam começar a se preparar agora para as seleções futuras. “Em algum momento, os outros concursos vão voltar. Lembra que o governo chegou a precisar colocar militares para fazer atendimento em agências da Previdência? É simbólico.”
Em São Paulo, o governo estadual suspendeu concursos e nomeações até 31 de dezembro do ano passado, para priorizar recursos para o combate à pandemia. A decisão afetou quem buscava uma oportunidade em órgãos, como o Detran-SP, levando a um volume de reclamações.
Segundo o governo paulista, o concurso público do Detran foi prorrogado por dois anos a partir de dezembro de 2021. “Em razão da ampliação dos processos digitais e de integração do órgão com o Poupatempo ainda estar em andamento, o Detran avalia onde haverá necessidade de mais colaboradores.”
A Secretaria de Governo também diz estar analisando a continuidade do andamento nas fases do concurso da SPPrev (São Paulo Previdência), que ficaram pendentes de conclusão.
O governo estadual também rebateu a possível predileção pelas provas para a Polícia Militar. “É ilógico apontar disparidade de tratamento nos concursos entre militares e civis, uma vez que foi aberto, neste mês, edital para a contratação de 2,5 mil policiais civis em todo o Estado.”
Questionado sobre os concursos abertos nos últimos anos, o Ministério da Defesa disse que as seleções são organizadas diretamente por cada uma das Forças. Segundo a Aeronáutica, foram abertas 4.856 entre 2018 e 2021, na Academia da Força Aérea, Escola Preparatória de Cadetes do Ar, Escola de Especialista de Aeronáutica e Centro de Instrução e Adaptação da Aeronáutica.
De acordo com o Exército, foram abertas 7.128 vagas no mesmo período, na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, na Escola de Formação Complementar, na Escola de Saúde do Exército, na Escola de Sargentos das Armas e no Instituto Militar de Engenharia.
A Marinha não respondeu.

VEJA EXEMPLOS DE CONCURSOS MILITARES EM 2022

Aeronáutica: Oficiais aviadores, intendentes e de infantaria
Inscrições: de 7.mar até 23.mar
Vagas: 85
Escolaridade: ensino médio
Remuneração: de R$ 1.500 a R$ 10 mil

Aeronáutica: Oficial
Inscrições: até 13.mar
Vagas: 159
Cargos: Médico, engenheiro, dentista
Remuneração: R$ 7.490 a R$ 8.245

Exército: EsPCEx (Escola Preparatória de Cadetes)
Inscrições: até 23.mai
Vagas: 440
Cargo: cadete, até 22 anos
Remuneração: de R$ 1.300 a R$ 7.500

Marinha: Aprendiz marinheiro
Inscrições: de 28.mar a 10.abr
Vagas: 686
Cargo: aprendiz, até 21 anos
Remuneração: de R$ 1.398 a R$ 2.294
Fontes: Organizadoras e JC
FOLHA/montedo.com

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