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Morre aos 80 anos Cabo Anselmo, em São Paulo
José Anselmo dos Santos ficou conhecido como agente duplo da ditadura e afirmava ter delatado militantes da esquerda para evitar a sua morte

Foto de março de 1964, na qual o Presidente da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais, cabo Anselmo (José Anselmo dos Santos), aguarda para falar na assembléia Foto: Arquivo O Globo / Agência O Globo

RIO — Morreu aos 80 anos o ex-agente infiltrado da ditadura José Anselmo dos Santos, mais conhecido como Cabo Anselmo, na noite desta terça-feira em São Paulo, em decorrência de um mal súbito. A informação foi confirmada pelo seu ex- advogado.
Anselmo ganhou notoriedade depois que se tornou um agente infiltrado da ditadura militar nos grupos guerrilheiros. Em 1973, ele atuou na ação que matou um grupo de militantes da VPR na chamada “Chacina da Chácara São Bento”, em Pernambuco.
José Anselmo dos Santos nasceu em Sergipe, no dia 13 de fevereiro de 1941. Órfão de pai, ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros em 1958. Cinco anos depois, fez o curso de formação profissional e ingressou na Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais, que pleiteava direitos e garantias à classe. A conversão do coletivo em uma entidade parasindical levou 12 colegas à prisão.
Em resposta às prisões, um grupo de sargentos, cabos e marujos ocupou a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, de onde sairiam cinco dias depois. O líder do movimento era o marinheiro de primeira classe que viria a ser conhecido como Cabo Anselmo, apesar de nunca ter chegado a cabo. Foi um dos atos de insubordinação militar que antecedeu o golpe de 1964.

Marinheiros aquartelados no Sindicato dos Metalúrgicos – Ao centro, Cabo Anselmo (José Anselmo dos Santos) – Foto José Santos / Agência O Globo – Negativo: 32596 Foto: Arquivo O Globo / Agência O Globo

Expulso da Marinha depois do motim, Anselmo foi para Cuba e retornou ao Brasil após o golpe militar, quando passou a integrar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo da luta armada contra a ditadura. Ele acabou preso por agentes do Dops. Em troca da liberdade delatou perseguidos políticos ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, chefe do Dops, incluindo sua namorada, Soledad Viedma, que acabou morta pela tortura. Cooptado pelos órgãos de segurança, tornou-se agente duplo e sua atuação foi decisiva para desmontar grupos de resistência armada urbana à ditadura.
— Me arrependo (apenas) de ter traído meu compromisso com a pátria, quando deixei a Marinha e passei para o lado da insubordinação — disse o ex-militar durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, em 2011.
Depois de integrar organização que reagia à repressão dos militares, ele contou que só começou a delatar os companheiros de esquerda após ter sido torturado, em 1971.
— Comecei depois do pau de arara, dos choques elétricos, daquele horror todo — disse.
Desde essa época, ele passou a viver na clandestinidade. Passou por uma cirurgia plástica para não ser reconhecido e chegou a usar uma identidade falsa.
Em maio de 2012, a Comissão de Anistia negou um pedido de indenização feito pelo cabo Anselmo. O ex-marinheiro reivindicou reparação de R$ 100 mil por ter sido supostamente preso e perseguido pela ditadura.
O Globo/montedo.com

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