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Rubens Valente
Colunista do UOL

O deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP) confirmou à coluna nesta segunda-feira (31) que, em 2018, encaminhou ao CMSE (Comando Militar do Sudeste), a principal unidade do Exército em São Paulo, o empresário Marcelo Abrileri, que havia produzido uma planilha com supostos questionamentos sobre a votação eletrônica do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) no segundo turno das eleições de 2014.
O parlamentar, assim, corrobora o que o empresário informou no depoimento que prestou à PF (Polícia Federal) em apuração que tramita no STF (Supremo Tribunal Federal) sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, conforme a coluna revelou neste domingo (30). Abrileri disse que Bragança o orientou a fazer a suposta denúncia no Exército. O acesso de Abrileri aos militares ocorreu após conversa com um coronel apresentado pelo deputado, na época ainda candidato ao cargo.
A partir desse contato, Abrileri disse que foi recebido pelo CMSE em pelo menos duas reuniões com militares, um dos quais era o “oficial de inteligência” e coronel, hoje na reserva e ocupando cargo no Palácio do Planalto, Eduardo Gomes da Silva. De um segundo encontro no CMSE, disse Abrileri, participou o então comandante militar do Sudeste, o general Luiz Ramos, hoje na reserva e ministro do governo de Jair Bolsonaro na SGP (Secretaria-Geral da Presidência).
Três anos depois, em julho de 2021, os dados entregues por Abrileiri ao Exército apareceram numa live transmitida por Bolsonaro a fim de atacar as urnas eletrônicas, o processo de apuração e o TSE – a live é objeto da apuração da PF a mando do STF e do TSE. Abrileri disse que foi procurado por Ramos antes da live para falar sobre o mesmo assunto que ele havia discutido no CMSE em 2018.
O deputado Luiz Phillippe Bragança disse que foi procurado por Abrileri e resolveu encaminhá-lo ao Exército porque não conhecia outras autoridades de outros órgãos públicos “que pudessem ajudar nesse tema”. Ele disse que na época não conhecia pessoas do Judiciário ou de órgãos de controle.
“Eu só achei que deveria ser apurado, exatamente isso, o que estava se tratando. Todos os partidos [estavam] interessados, não existia nenhuma instituição no Brasil com isenção com relação ao sistema eleitoral. Então achei que a gente deveria ter uma averiguação disso, mais profundamente. Eu sou mero agente desse processo todo”, disse o parlamentar. Ele afirmou que não participou das reuniões de Abrileri com os militares no CMSE.
Segundo o parlamentar, “foi um choque para eles [militares] saber que poderia haver” a suposta fraude relatada numa planilha feita por Abrileri. A tabela sugeria que houve benefício à então candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT), contra o adversário Aécio Neves (PSDB), durante apuração eletrônica no segundo turno em 2014.
Tabelas com alegações semelhantes aparecem em vídeos que circulam em redes bolsonaristas na internet com o objetivo de desqualificar o processo eletrônico de votação. O TSE e agências de checagem de informação já consideraram essa alegação “falsa”, cuja metodologia “não tem lógica”. Em reportagem de 29 de julho de 2021, a agência BBC informou que o suposto padrão apresentado por Bolsonaro na live “não indica fraude” e especialistas disseram que “o cálculo foi feito errado”.

Empresário diz que não vai se manifestar
Também localizado pela coluna por telefone nesta segunda-feira, Marcelo Abrileri disse à coluna que não iria responder às perguntas. “Eu não vou dar nenhuma explicação.” Ele disse que solicitou uma cópia do seu depoimento à PF, quando o prestou em setembro de 2021, mas até hoje não a recebeu.
“Eu queria que o senhor por favor na sua reportagem abordasse o seguinte: eu, que prestei o depoimento, não tenho acesso à cópia do meu depoimento. Eu não tenho acesso, o meu advogado não tem acesso”, disse Abrileri. Sem o acesso, o empresário afirmou que “não falará nada”.
Em seu depoimento à PF, Abrileri se apresentou como um “empresário do ramo de internet”, cuja atividade “gira em torno de plataformas online”. Ele tem o segundo grau “técnico na área de eletrônica”. Reconheceu que não possui nenhum “grau de conhecimento formal” nas áreas de matemática, probabilidade e informática, embora se considere, “desde a infância”, como um “autodidata nessas três áreas”.
Em seu depoimento, o coronel Silva disse que era “oficial de inteligência” em 2018 e, nessa condição, foi designado – não informou por qual autoridade militar, nem foi indagado pela PF – para a tarefa de conversar e colher os dados encaminhados por Abrileri.
Passadas mais de 48 horas desde que foram acionados pela primeira vez pela coluna, no sábado (29), não deram resposta ou retorno sobre o mesmo assunto: o Comando do Exército, em Brasília, o Comando Militar do Sudeste, em São Paulo, a SGP (Secretaria Geral da Presidência), no Palácio do Planalto, e o ministro-chefe da SGP, o general da reserva Luiz Ramos.
A coluna indagou ao Exército, entre outros pontos, se “oficiais de inteligência” e generais do CMSE costumam apurar, receber ou investigar supostas denúncias sobre sistema de votação eletrônica no Brasil, cuja responsabilidade cabe ao TSE; se cabe ao comandante Militar do Sudeste participar pessoalmente desse tipo de captação de supostas informações de inteligência, e o que o CMSE fez a respeito das supostas informações repassadas por Abrileri.
UOL/montedo.com

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