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NA ENCRUZILHADA
A incansável jornada de Bolsonaro para cooptar as Forças Armadas – e o que esperar disso

Consuelo Dieguez*
O general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, de 69 anos, é um dos mais respeitados militares brasileiros. Seu desempenho na missão de paz do Haiti, liderada pelo Exército brasileiro, lhe valeu o convite da Força de Manutenção da Paz da Organização das Nações Unidas (ONU) para comandar a missão de estabilização no Congo, em 2013. Sua indicação criou mal-estar entre os militares brasileiros porque Santos Cruz já havia passado para a reserva quando a ONU fez a solicitação ao governo de Dilma Rousseff. Coube ao então ministro da Defesa, embaixador Celso Amorim, a tarefa de explicar aos comandantes que não havia alternativa. O convite era dirigido a Santos Cruz. Não fosse ele o enviado para a missão, não seria nenhum outro brasileiro.
Santos Cruz tinha uma antiga relação de camaradagem com Bolsonaro. Eles se conheceram nos anos 1970, nos tempos da Aman, a maior escola de formação de oficiais do país. Tinham 20 e poucos anos e se aproximaram por causa do esporte. “Eu era capitão, ele acho que tenente. Ele parecia normal. Era um sujeito engraçado”, avaliou. Depois, Bolsonaro foi mandado para a reserva por ter planejado atentados a bomba para forçar um aumento do soldo dos militares de baixa patente. E seguiu a carreira política. Ao tomar posse, Bolsonaro o indicou para ministro da Secretaria de Governo. Santos Cruz durou pouco no cargo. Deixou o posto em junho de 2019, depois de ser insistentemente atacado nas redes sociais por um dos filhos do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), e pela ala ligada ao ex-astrólogo Olavo de Carvalho. Criticavam-no por tentar conter os seguidos ataques que o grupo fazia contra autoridades da República.
Desde então, Santos Cruz vem aumentando as críticas ao comportamento de Bolsonaro. Num final de tarde de julho, encontrei o general em seu apartamento, na Asa Norte, em Brasília. Vestia-se de maneira informal – roupa esportiva, sandália de dedo e meia. Acomodou-se no sofá e, imediatamente, iniciou a exposição de seu ponto de vista sobre o governo e a relação deste com as Forças Armadas, como se tivesse urgência em falar. “Eu vejo que os militares têm que ficar completamente afastados da política de governo”, disse. “Por serem instituições de Estado, não tem sentido as Forças Armadas ficarem aceitando ser arrastadas pelo presidente da República para o seu projeto pessoal de poder.” E alertou: “É preciso que fique claro que o projeto de Bolsonaro é pessoal. Não tem nada de Brasil nesse projeto. É o projeto de alguém que disse que era contra a reeleição e, desde o primeiro dia de governo, está governando pela reeleição.”
Santos Cruz não esconde sua preocupação com a forma como o presidente insufla sua base de fiéis apoiadores. E relembra seus tempos de comandante em regiões de conflito para explicar por que o comportamento de Bolsonaro é um risco para o Brasil. “O investimento no fanatismo é extremamente perigoso”, disse, como quem inicia uma aula. “Eu vivi quase cinco anos em ambiente de conflito social, na América Central e no Congo. O fanatismo sempre acaba em violência.” Fez uma pausa, e continuou: “O pior é que as pessoas que se envolvem na violência são as pessoas comuns. Os líderes que estimulam a violência geralmente são covardes. Porque eles não participam. Eles insuflam os outros a participar.”
O general não descarta a possibilidade de movimentos fanáticos eclodirem no Brasil. Sua análise é de que há uma série de ações, comuns a todos os regimes totalitários, “seja de direita ou de esquerda”, que o deixam apreensivo. O primeiro deles é a divisão social. “Isso já vinha acontecendo. Não começou com Bolsonaro. Mas foi agravado neste governo.” A segunda forma de insuflar o fanatismo, de acordo com ele, é o assassinato de reputações – de pessoas e de instituições – com a disseminação de fake news. “Por falta de noção institucional, Bolsonaro está causando um prejuízo muito grande a todas as instituições. Inclusive a instituições sólidas como as Forças Armadas, que estão tendo um desgaste grande por causa do comportamento dele.” Em seguida, enumerou outras investidas do presidente. “Ele destruiu o conceito do Ministério da Saúde, ele tenta desmoralizar a Anvisa, que é um órgão técnico. Ele enfraqueceu o Coaf. Ele está destruindo a reputação e o prestígio de vários órgãos.” O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) foi o órgão que, pela primeira vez, levantou suspeitas de que o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) se apropriava de parte do salário dos funcionários de seu gabinete enquanto era deputado estadual, a chamada “rachadinha”.
A questão mais grave em todo esse processo destrutivo é, na visão de Santos Cruz, a cruzada de Bolsonaro contra o sistema eleitoral. “A família dele já foi eleita quase vinte vezes por esse sistema. Ele umas nove vezes, os filhos, quatro, seis. Nunca houve fraude, e agora eles estão planejando uma fraude.” Uma coisa, disse ele, é sugerir o aperfeiçoamento do sistema, outra é criar tumulto, descrédito, conflito, sem apresentar quaisquer provas de fraude. O general aumentou o tom de voz, deixando transparecer uma ponta de indignação. “Um governante não pode ser tão irresponsável a ponto de levar o país para a insegurança. É um show de falta de responsabilidade. É um desrespeito total com as pessoas e as instituições.”
Perguntei se, ao aceitar um cargo no governo, ele não pressentia que Bolsonaro continuaria sendo o radical que sempre foi. Santos Cruz disse que esperava que Bolsonaro, como presidente, adotasse um modo de operar mais moderado. Santos Cruz imaginava que, depois de trinta anos na política, Bolsonaro teria um comportamento compatível com o de um presidente da República. “Ele foi eleito com boas perspectivas. Com condições de tomar diversas decisões boas para o país. Por isso eu concordei em participar de seu governo.”
Então, ao tomar posse, tudo começou a desandar. “Eu fui eleitor dele e não aceito estelionato eleitoral. Aceitei ir para o governo porque acreditei no que estava sendo dito. Havia a promessa de combate à corrupção, reforçada pela presença do juiz Sergio Moro no governo. Ia acabar o toma lá dá cá, havia um projeto para a educação. Havia também a ideia de respeito. De consertar o que estava deficiente, de melhorar o serviço público, o meio ambiente, a questão indígena. Essa era a minha expectativa.”
O primeiro sinal de que tudo sairia do controle, disse o general, foi o aumento da influência de “um grupo de extremistas fanáticos dentro do governo, como Olavo de Carvalho e Filipe Martins”. Essas pessoas, disse ele, não discutiam ideias. “Era gente do mais baixo nível, era uma ralé dando mau exemplo e ainda querendo falar de educação, quando não sabem nem se expressar nas redes sociais.” O governo, ele avalia, se transformou em um culto à personalidade do presidente, característica de “um populismo barato”. E então vieram os discursos a favor do golpe militar em frente ao Quartel-General do Exército, os desfiles de motocicleta, manifestações, na sua visão, típicas de governos autoritários. “O fato é que, quando falta capacidade para governar, se substitui a gestão pelo show. E o que o país precisa? O país precisa de calma para trabalhar, para atrair investimento, para crescer.”
Para o general, sob o comando de Bolsonaro, o Brasil está jogando fora a oportunidade de dar uma virada. Parte da dificuldade na recuperação do país, diz ele, está no aprofundamento da cisão social. “Estamos assistindo a uma desorganização geral. O comportamento dele na pandemia, por exemplo, foi um espetáculo de besteiras e coisas absurdas”, disse. E enumerou os erros de Bolsonaro: colocar em dúvida a eficácia da vacina, insistir no uso da cloroquina, brigar com os governadores e com a comunidade científica. Para ele, estão claras as razões que levaram Bolsonaro para esse caminho. “Ignorância, medo da responsabilidade, falta natural de liderança. E vai fazer a mesma coisa na eleição. Vai usar o argumento da conspiração, da fraude. Isso aumenta muito o risco da violência.” Leia mais.
*Consuelo Dieguez
Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras
piauí/montedo.com

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