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NA ENCRUZILHADA
A incansável jornada de Bolsonaro para cooptar as Forças Armadas – e o que esperar disso

Consuelo Dieguez
O ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, leu a mensagem de WhatsApp na manhã de sábado, 27 de março passado: o presidente Jair Bolsonaro insistia que o comandante do Exército, o general Edson Pujol, fosse demitido imediatamente. O presidente estava irritado com o silêncio do general. Queria que ele tivesse feito um pronunciamento público contra as tentativas dos governadores de decretarem lockdowns para combater o avanço da pandemia. A última vez que um presidente da República pediu a cabeça do comandante do Exército foi em 1977, no governo militar de Ernesto Geisel. O general Azevedo e Silva, que ocupava o cargo de ministro desde o início do governo, leu a mensagem de Bolsonaro em seu celular, mas manteve sua posição: não demitiria Pujol.
Bolsonaro martelou ao longo do fim de semana, enviando diversas outras mensagens ao ministro. Dizia que os lockdowns eram uma violência contra “a liberdade individual” e um atentado à “recuperação econômica”. Queria dar uma demonstração de força e mandar um recado aos governadores de que tinha o apoio dos militares. Mas o general Azevedo tentou explicar que o Exército não poderia e nem dispunha de meios para evitar que os governadores adotassem lockdowns, pois tinham amplo amparo legal para fazê-lo. Nada resolvia o impasse. As mensagens começaram a subir de tom. Com seu perfil conciliador, o general sugeriu que deixassem para conversar pessoalmente, no Palácio do Planalto, na segunda-feira.
A insatisfação de Bolsonaro com Pujol era antiga. No fim de abril do ano passado, durante uma visita ao Centro de Coordenação de Operações de Saúde, do Exército, em Porto Alegre, Bolsonaro estendeu a mão para cumprimentar Pujol, que, em vez de responder com o mesmo gesto, ofereceu-lhe o cotovelo, em respeito às medidas de contenção do vírus. Seria um desencontro banal, como aconteceu a tantas pessoas e tantas vezes na pandemia, mas não para um presidente que sempre fez questão de desprezar as orientações sanitárias. Bolsonaro jamais perdoou o general. O desacerto entre eles só aumentou ao longo dos meses seguintes. Compreendendo a gravidade da pandemia, Pujol se recusava a criticar as medidas de isolamento social em vigor nos estados, o que deixava Bolsonaro ainda mais irritado.
Na tarde de segunda, conforme ficara combinado por WhatsApp, o general Azevedo e Silva entrou no gabinete de Bolsonaro, no terceiro andar do Planalto. Nem foi convidado a sentar-se. “Fernando, quero o seu cargo”, disparou o presidente. O general ficou surpreso, mas não se alterou. “Pois não, presidente, o cargo é seu.” Como compensação ao general, com quem tinha uma amizade antiga, desde a década de 1970 quando cursaram a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), Bolsonaro ofereceu-lhe uma vaga num conselho de alguma estatal no Rio de Janeiro, cidade onde o ex-ministro tem apartamento. Azevedo declinou. O encontro transcorreu em clima frio e, ao final, o general fez um alerta. “Saiba que o senhor não irá colocar as Forças Armadas numa aventura”, disse. “O senhor não vai levar as Forças para a política.”
A piauí reconstituiu o contato entre o presidente e o ministro – das mensagens de WhatsApp à demissão – a partir das versões que Bolsonaro e Azevedo contaram mais tarde para seus interlocutores, entre civis e militares. Demitido, Azevedo e Silva deslocou-se para o Ministério da Defesa. Em seu gabinete, convocou uma reunião com os comandantes das três Forças. Pujol, comandante do Exército, soube da demissão do ministro naquele momento, mas seus colegas da Marinha, almirante Ilques Barbosa Junior, e da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Antônio Carlos Bermudez, não ficaram surpresos. Já pressentiam o desfecho desde a véspera, quando receberam um telefonema do ministro da Casa Civil, o general Walter Braga Netto, pedindo-lhes que permanecessem em seus postos caso Azevedo e Silva e Pujol deixassem o governo. Os dois ouviram o apelo de Braga Netto, mas nada prometeram. Na reunião com Azevedo e Silva e Pujol, os dois disseram que também sairiam.
No dia seguinte, 30 de março, houve pela manhã uma tensa reunião dos três comandantes militares com o general Braga Netto, já então nomeado o novo ministro da Defesa em substituição ao general Azevedo e Silva. Segundo três fontes ouvidas pela piauí – duas militares e uma civil –, o almirante Ilques Barbosa Junior era o mais alterado. Deu socos na mesa, discutiu em tom inflamado com Braga Netto. Os dois quase chegaram ao ponto da agressão física. O almirante estava possesso com o apoio de Braga Netto às tentativas de Bolsonaro de envolver as Forças Armadas em seu projeto político pessoal. Na tarde do mesmo dia, os três comandantes comunicaram sua disposição de pedir demissão, acompanhando o ministro Fernando Azevedo e Silva.
No dia seguinte, o general da reserva Paulo Chagas, um dos principais apoiadores de Bolsonaro na campanha de 2018, mas que depois rompeu com ele, esteve no regimento da Cavalaria do Exército, localizado no Setor Militar Complementar, onde pratica equitação. Encontrou-se com Pujol. Na conversa, Chagas ouviu Pujol reclamar que Bolsonaro vinha cobrando dele “posições incompatíveis com a postura que as Forças Armadas têm que ter em função de suas responsabilidades”. Pujol frisou, ainda segundo Chagas, que “as Forças não podem ser partidárias”.
A demissão de toda a cúpula militar – a primeira desde a criação do Ministério da Defesa, em 1999 – coroava a incansável jornada de Bolsonaro para cooptar as Forças Armadas. Em sua nota de despedida, o general Azevedo e Silva deixou implícito que a demissão se dera pela resistência dos quatro militares em ceder às manobras autoritárias do presidente. “Nesse período preservei as Forças Armadas como instituição de Estado”, dizia um trecho. Não era a primeira vez que Bolsonaro tentava subjugar os militares, e também não seria a última. No próprio curso da crise, o presidente já estava empenhado em indicar os novos comandantes sem respeitar as regras tradicionais de antiguidade. Para comandar o Exército, a maior e mais influente das três Forças, queria o general Marco Antônio Freire Gomes, então comandante militar do Nordeste.
A resistência foi robusta. O Alto Comando do Exército, composto por dezessete generais, resolveu se reunir. No encontro, apesar do temor de criar um enfrentamento com o presidente de desfecho imprevisível, os generais tomaram três decisões que desagradaram Bolsonaro. Reafirmaram a posição do general Azevedo e Silva de barrar a politização das Forças Armadas, avisaram o ministro Braga Netto que o critério de antiguidade teria que ser respeitado e elaboraram uma lista tríplice com os nomes dos mais antigos. Fizeram questão de mandar dizer que preferiam que a escolha do presidente recaísse sobre o primeiro nome da lista – no caso do Exército, a lista era liderada pelo general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, então chefe do Departamento-Geral do Pessoal, em Brasília.
Inconformado, Bolsonaro ainda insistiu na indicação de Freire Gomes, cujo nome não constava na lista. Mas o próprio general Gomes apoiou o critério de escolha do Alto Comando e não se apresentou para a vaga. Coube a Braga Netto informar o presidente de que as Forças não aceitariam a quebra do critério de antiguidade. Um dia depois da saída da cúpula militar, os três novos comandantes – todos no topo da lista de suas armas – tomaram posse. “É óbvio que houve uma queda de braço entre o presidente e o Alto Comando”, avalia Raul Jungmann, que ocupou o cargo de ministro da Defesa durante quase dois anos no governo Michel Temer. “E quem ganhou a briga foram os militares.”
Em conversa por telefone, em agosto, o general Paulo Chagas, que concorreu ao governo do Distrito Federal pelo PRP em 2018, interpretou a crise como uma tentativa de golpe do presidente, desmontada pelo Alto Comando do Exército. “No momento em que Bolsonaro concluiu que com aquele quarteto ele não conseguiria uma demonstração de apoio das Forças Armadas, o que ele fez? Demitiu os quatro. Qual a impressão que dá? ‘Olha, se não me apoiar, eu derrubo’”, diz Chagas. Bolsonaro teve de engolir a decisão, mas não deixaria de fustigar as Forças Armadas, sobretudo o Exército. “O comportamento de Bolsonaro tem sido um desgaste para as Forças Armadas”, avalia Chagas. “Ele é uma fonte permanente de tumulto.”
Antes de completar dois meses da crise militar, o presidente arrastou o Exército para uma situação-limite, cujos efeitos ainda reverberam nos quartéis. Mesmo sabendo que militares da ativa são proibidos de participar de qualquer ato de natureza política, Bolsonaro convidou o general da ativa Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, para subir no seu palanque numa manifestação de apoio ao seu governo, no Rio de Janeiro. Pazuello topou, fez um breve discurso – e quebrou uma regra pétrea da disciplina da caserna. O general Paulo Sérgio de Oliveira, recém-empossado no comando do Exército, tinha poderes para decidir sozinho pela punição ao insubordinado, mas preferiu consultar o Alto Comando do Exército, em uma reunião por videoconferência. Queria ouvir seus pares que, por unanimidade, concluíram que a punição era inevitável. O primeiro passo era pedir a Pazuello uma carta de justificação e, então, abrir um processo disciplinar.
Bolsonaro reagiu com irritação e voltou a confrontar os generais. Informado sobre a decisão do Alto Comando pelo general Braga Netto, disse que não aceitaria que seu ex-ministro fosse punido. Entre os generais, como um deles confidenciou à piauí, circulavam comentários de que Bolsonaro estava inclinado a demitir o comandante do Exército caso insistisse no processo contra Pazuello. Entre os oficiais da reserva, disseminou-se a informação segundo a qual os generais do Alto Comando decidiram que, se o comandante fosse demitido, nenhum outro aceitaria o cargo. A adoção dessa postura nunca foi desmentida nem confirmada. Levada à prática, criaria um impasse com consequências imprevisíveis.
O comandante Paulo Sérgio de Oliveira julgou que, ao abrir um inquérito contra Pazuello, não teria como evitar que o próprio Bolsonaro fosse envolvido, já que veio dele, o comandante em chefe das Forças Armadas, “a ordem” para que o ex-ministro subisse num palanque político. Então, cedeu por inteiro à pressão de Bolsonaro: não puniu Pazuello, chancelou a mais evidente quebra de disciplina de um general da ativa e ainda decretou sigilo de cem anos sobre o caso. Na conversa com o Alto Comando, de acordo com o relato de um oficial, Oliveira pediu que o generalato “permanecesse calmo”. Bolsonaro saiu do episódio com uma vitória retumbante: humilhou a cúpula do Exército e, dias antes, ainda decidira proteger Pazuello ao indicá-lo para um cargo no Palácio do Planalto.
No dia seguinte à sua absolvição pública, Pazuello esteve no Clube do Exército, no Lago Sul, em Brasília. Ali, encontrou-se casualmente com o general Paulo Chagas, o ex-bolsonarista. Tiveram uma rápida conversa sobre o assunto. “O próprio Pazuello me disse que achava que deveria ter sido punido”, rememora Chagas, para quem o comandante do Exército, ao isentar o ex-ministro da Saúde, cometeu um erro brutal pelo qual o Exército ainda poderá pagar muito caro. “Isso não pode ser assim. O Paulo Sérgio, ao querer evitar uma crise com o presidente, acabou provocando um mal maior, que foi a abertura de um precedente dentro das Forças Armadas. É claro que isso vai dar problema. Ainda não aconteceu. Mas, se um sargento resolver subir em um palanque e se manifestar, como ele poderá ser punido, se o Pazuello não foi?” E completou: “É claro que o Pazuello sabe o problema que ele criou para a Força.”
Com a chegada de Braga Netto ao Ministério da Defesa, um militar que comunga com a visão da direita radicalizada, Bolsonaro nem precisava mais assumir a linha de frente das crises. Quando o senador Omar Aziz (PSD-AM), então presidente da CPI da Pandemia, disse que “militares da banda podre do Exército” estavam “envolvidos em falcatruas do governo”, Braga Netto acusou o golpe, mas não se contentou em repudiar a declaração do senador. Soltou uma nota ameaçadora, assinada por ele mesmo e pelos novos comandantes das três Forças. As Forças Armadas “não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”, dizia a nota.
“Embora Aziz não devesse ter falado isso, a reação veio muitos tons acima do recomendável”, avalia Raul Jungmann. Ao incluir os comandantes, Braga Netto ampliou a crise. Apesar de levar seu nome, o general Oliveira, o chefe do Exército, nem chegou a ser consultado sobre a nota. Quando foi redigida e distribuída, ele estava voando de Brasília para Porto Alegre. Mas o comandante da Aeronáutica, o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, não só aprovou a nota como fez questão de aumentar a temperatura da crise. Em entrevista ao jornal O Globo, disse que a nota era um “alerta” e ameaçou: “Nós não enviaremos cinquenta notas para ele. É apenas essa.” Jungmann critica: “A manifestação do brigadeiro Baptista Junior foi gravíssima. Até então, só quem falava eram militares da reserva. O Baptista foi o primeiro a cruzar a linha e isso é muito grave.”
Nos dias do conflito, Bolsonaro não se manifestou, e nem precisava. As coisas corriam naquele ambiente de tumulto e instabilidade que o presidente tanto estimula. No mês seguinte, em julho, deu-se nova crise, quando uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo informou que o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), recebera um recado ameaçador do general Braga Netto dizendo que, se o voto impresso não fosse aprovado pelos deputados, não haveria eleição em 2022. Braga Netto desmentiu. Lira, não. “O mundo da política em Brasília sabia que a ameaça de Braga Netto era real e foi transmitida pelo Ciro Nogueira [deputado do PP que, no mês seguinte, viraria ministro da Casa Civil]”, disse um deputado que preferiu não se identificar. “Com isso, Braga Netto ficou com fama de golpista. É tudo muito grave.” O procurador-geral da República, Augusto Aras, abriu uma apuração preliminar para investigar o general por “possível infração político-administrativa”.
“O Braga Netto é muito criticado fora e dentro do Exército pelo fato de estar politizando e partidarizando do jeito que está”, disse o general Paulo Chagas. “Mas é preciso que fique claro que, por ser oficial da reserva, ele não está na função de general, e sim numa posição política. Mesmo assim, ele deveria se policiar. Até pela experiência dele como militar ele sabe que não é um político qualquer.” No dia da votação sobre o voto impresso, Bolsonaro tentou dar uma demonstração de força, novamente escudando-se nos militares, e promoveu um desfile de veículos de guerra na Praça dos Três Poderes. O episódio ajudou a esgarçar a relação entre os poderes, mas o voto impresso foi rejeitado, e o desfile virou piada nas redes sociais, com a imagem patética de uma frota, velha e ultrapassada, soltando fumaça de óleo diesel.
Das conversas e entrevistas realizadas nos últimos dois meses com militares da reserva, um oficial da ativa, ex-ministros, consultores e analistas, a piauí identificou uma apreensão generalizada com as tentativas de Bolsonaro de envolver as Forças Armadas para atender suas ambições políticas. Um deles, general da ativa, fez um diagnóstico cortante: “O Jair precisa parar de defender incompetentes, como o Filipe Martins [o assessor palaciano que fez o gesto dos supremacistas brancos numa audiência no Senado e foi inocentado pela Justiça], e gente como o Ricardo Salles, envolvido com o contrabando de madeira ilegal para os Estados Unidos. É uma traição aos desejos da tropa que se mobilizou para levá-lo ao Planalto. Lutamos contra a corrupção e, por isso, fomos contra o candidato do PT. Não dá para o presidente ter bandido de estimação.” Leia mais.
*Consuelo Dieguez
Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras
piauí/montedo.com

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