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Três criminosos participaram de assassinato de ex-exilado na zona leste de Porto Alegre, diz polícia
Morte de José Wilson da Silva, 89 anos, no bairro Partenon, completa uma semana nesta sexta-feira

LETICIA MENDES
Prestes a completar uma semana do crime que resultou na morte do ex-exilado José Wilson da Silva, 89 anos, em Porto Alegre, a investigação da Polícia Civil ouviu sete depoimentos, de familiares e outras testemunhas. A apuração da 1ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) aponta que três pessoas participaram diretamente do crime, ingressando na casa onde vivia a vítima no bairro Partenon, na Zona Leste. O militante, que era ex-vereador da Capital, foi morto com dois disparos.
Entre as pessoas ouvidas, está a companheira de Wilson, que, segundo a polícia, também era sua cuidadora. A mulher teria sido contratada pela família do militar reformado para auxiliá-lo, mas os dois acabaram mantendo um relacionamento. No entanto, ela continuava recebendo salário como cuidadora. Somente os dois viviam na residência onde aconteceu o crime, na Rua Paissandu.
Em depoimento, na última segunda-feira (13), a mulher detalhou à polícia como Wilson teria sido morto. Ela contou que estavam dormindo no quarto, quando ouviu barulho de chave em uma porta próxima, que dava acesso ao quintal da casa. Depois disso, teria acordado o companheiro para que ele fosse verificar do que se tratava. Na sequência, o militar reformado teria pego um facão debaixo da cama e ido em direção a essa porta.
— Ela conta que ouviu ele bater em uma mesa com o facão e perguntar: “Quem está aí?”. Achando que era alguém tentando furtar — explica a delegada Isadora Galian, da 1ª DHPP.
Neste momento, a mulher diz ter visto vultos de duas pessoas correndo na sala da casa. Uma terceira pessoa, que estaria na área dos fundos da moradia, teria sido a responsável por efetuar os disparos que atingiram o abdômen e as costas da vítima. Assim que os criminosos fugiram, o socorro chegou a ser acionado, já que o militar reformado seguia com vida, mas ele não resistiu e morreu ainda no local.
Um dos pontos que intriga a investigação é como os criminosos tiveram acesso ao interior da residência. Para chegar até lá, precisaram cruzar pelo menos dois altos portões de ferro – um deles rodeado de concertina – e uma porta.
— Não teve sinal de arrombamento. Todas as portas estavam intactas. A companheira disse que visualizou as portas todas abertas (após os executores fugirem). Ou eles tinham a cópia da chave ou usaram uma chave micha. Isso está sendo apurado. Se tinham a cópia, precisamos saber como obtiveram. Apuramos se há envolvimento de alguma pessoa próxima, já que eles teriam vencido três portas para chegar até ele — diz a delegada.
Ainda não se sabe o calibre de arma usada, mas a polícia acredita que tenha sido um revólver, já que não foram encontrados estojos no local (caso tivesse sido usada pistola, por exemplo). A investigação também apura de que forma os assassinos fugiram após matarem Wilson. Há relatos de testemunhas que dizem que eles ingressaram em um veículo e outros relatam que escaparam correndo. Isso ainda precisa ser elucidado.

Próximos passos
Com base nos primeiros depoimentos, na quarta-feira (15), a equipe da DHPP retornou ao local do crime para tentar entender e refazer os passos que teriam sido dados pelos criminosos na madrugada da sexta-feira (10). Para esclarecer os pontos que precisam ser elucidados, a polícia ainda pretende ouvir mais pessoas e imagens de câmeras de segurança da rua e das proximidades são analisadas.
A motivação do assassinato é outro mistério, já que nada foi levado de dentro da casa, o que reduz a possibilidade de latrocínio (roubo com morte). Por outro lado, nenhum dos ouvidos até agora relatou que o ex-exilado tivesse recebido ameaça ou tivesse inimizades. A aposta da polícia é chegar primeiro aos executores e, na sequência, ao mandante, caso haja um.
— Por enquanto, trabalhamos com a hipótese de homicídio, pela forma como ingressaram na residência e pela dinâmica do fato em si. Não que não possa ser latrocínio. Tudo é ainda muito preliminar. Estamos ouvindo o máximo de pessoas. Algumas talvez sejam reinquiridas. Não dá para descartar nada, desde o latrocínio, ou que alguma pessoa próxima esteja envolvida, não como executora, mas eventualmente como mandante ou facilitadora — diz a delegada.

“Qual a motivação?”
Vice-presidente da Associação de Ex-Presos e Perseguidos Políticos dos Rio Grande do Sul, Jair Krischke afirma que antes de definir o futuro da entidade, que deve realizar nova eleição em razão da perda de Wilson, o objetivo é buscar o esclarecimento dos fatos.
— A preocupação agora é esta: esclarecer a morte dele. Pretendemos pedir uma audiência com a chefe da Polícia Civil, delegada Nadine (Anflor). Confiamos na qualidade técnica da polícia, não temos dúvida nenhuma disso, mas queremos expressar nossa preocupação e a importância para nós que esse crime seja esclarecido — afirma.
Capitão reformado do Exército, quando jovem, Wilson ganhou o apelido de Tenente Vermelho por suas tendências de esquerda. Em abril de 1964, após o golpe militar, teve seus direitos políticos cassados. Só voltou ao Brasil com a anistia aos presos políticos, em 1979. Era também presidente da Associação de Defesa dos Direitos e Pró-Anistia dos Atingidos por Atos Institucionais. Wilson era ativo nas questões envolvendo a anistia. Em agosto, havia viajado a Brasília para debater assuntos relacionados ao tema.
— É claramente uma execução, mas qual a motivação? Precisamos saber isso. Nossa associação é de ex-presos e perseguidos políticos. Ele era presidente, tinha muita visibilidade como tal. Nossa primeira preocupação é esta: queremos saber o que aconteceu. Se pode haver essa conotação política. Gostaríamos muito que não fosse, mas queremos ter certeza quanto a isso — diz Krischke, militante histórico dos direitos humanos.
Para comemorar o aniversário de 90 anos, Wilson pretendia reunir os amigos em uma churrascaria no bairro Santana. No convite enviado, escreveu que só festejava aniversário de 10 em 10 anos, e, que, portanto, estaria completando seu nono ano, na segunda-feira, dia 13. No entanto, acabou morto três dias antes, na madrugada da sexta-feira (10).
— Nos encontraríamos para confraternizar. Era muito brincalhão, de bom-humor, acessível. Estava muitíssimo bem de saúde, dirigia. Tinha muita disposição para a luta ainda — completa Krischke.

Liderança nacional
Presidente nacional do PCdoB, participado ao qual Wilson era filiado, a vice-governadora do Pernambuco, Luciana Santos, também lamentou nesta semana a morte.
— Nos enche de tristeza e indignação a notícia do assassinato de José Wilson da Silva — o ‘Tenente Vermelho’. Militante do PCdoB, um homem comprometido com seu país, que lutou contra a ditadura, foi exilado, defensor da anistia e da reparação histórica às vítimas do golpe de 1964 — declarou.
Luciana afirmou ainda que é necessária “rigorosa apuração do crime, que não pode ficar impune”.
GZH/montedo.com

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