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Para general, ação realizada em Resende, no Rio, permite avaliar como está o preparo das tropas nacionais tanto em armamento como em estratégias de combate

José Maria Tomazela
RESENDE(RJ) – O Exército brasileiro está pronto para ser uma tropa expedicionária e atuar “dentro e fora do Brasil”, segundo o general Tomás Paiva, comandante do Comando Militar do Sudeste. Ele acompanhou nesta quarta-feira, 8, um exercício de defesa real das tropas brasileiras com soldados dos Estados Unidos na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende, no Rio de Janeiro. O exercício faz parte do Core 2021, operações combinadas de treinamento que os dois exércitos realizam desde segunda-feira, 6, em cidades de São Paulo e do Rio.
Segundo o general, o treinamento conjunto permite avaliar como está o preparo das tropas brasileiras tanto em armamento como em estratégias de combate. “Uma força militar com emprego dissuasório tem de estar pronta para ser uma tropa expedicionária e atuar no Brasil ou fora, como já foi feito no Haiti. Podemos ser requisitados para ações na África, por exemplo, e estamos bem preparados. Temos que estar sempre prontos”, disse.
Durante 35 minutos, as tropas do exército brasileiro sustentaram os ataques do inimigo para defender uma posição estratégica conhecida como ‘cabeça de ponte’, nas colinas da zona rural de Resende. O avanço da tropa oponente começou a ser barrado pelos disparos de metralhadora calibre .50 que guarneciam quatro helicópteros Esquilo já no primeiro minuto de guerra. Seis blindados Guarani e Cascavel dispararam seus canhões sobre as posições inimigas, enquanto a linha de defesa com soldados camuflados em ‘tocas’ cuspiam intenso fogo de fuzil e metralhadora sobre os alvos.
Durante o exercício de tiro defensivo, foram usadas munições reais. Por segurança, a reportagem acompanhou a ação de uma área na retaguarda – os jornalistas usaram capacetes e coletes balísticos cedidos pelo Exército. Foram disparados 30 mil tiros de fuzil IA2 556, 12 mil tiros de metralhadora MAG 762, 4,5 mil de metralhadora .50, 12 granadas de morteiro 60 mm, 24 granadas de morteiro 81 mm, 32 granadas de canhão 84 mm, 10 granadas de canhão 90 mm, além de 45 granadas de mão e 34 de obuseiro 105 mm.
Paiva acompanhou as operações ao lado do comandante do batalhão Bulldog da 101ª Divisão de Assalto Aéreo dos Estados Unidos, coronel Michael Harrison. As tropas americanas estavam posicionadas em outra encosta, aguardando o desfecho da ação defensiva brasileira. “O que a gente viu aqui são os fogos defensivos. Ontem, fizemos um assalto aeromóvel com 22 aeronaves (helicópteros Esquilo, Pantera e Jaguar), com deslocamento tático e desembarque na área de objetivo, descarregando carga e munição. É um peso de 40 quilos por homem. Eles se deslocaram para uma área de morro para fazer a segurança de uma via. Hoje, estamos fazendo a defesa dessa posição, com armas individuais e coletivas, algumas novas no Exército brasileiro, como o Remax em viaturas Guarani”, explicou o general.
O Remax é uma estação de armas controladas remotamente e giro-estabilizadas, desenvolvida em parceria com o Centro Tecnológico do Exército. Conforme o general, a brigada de Campinas, interior de São Paulo, tem 65 blindados Guarani com essas armas. “A gente viu fogo de tiro tenso, tanto de armas coletivas como individuais. Numa condição adversa como essa há bastante volume de fogo e a gente precisa controlar a munição, que não é infinita. Esse exercício nos permite visualizar a capacidade de fogo que a gente pode colocar em ação ao mesmo tempo.”

Pracinhas
O general lembrou que as tropas brasileiras lutaram lado a lado com soldados americanos na Segunda Guerra Mundial, contra o exército de Hitler. “Vendo isso aqui, dá para imaginar a dificuldade que os nossos heróis pracinhas tiveram para progredir na Itália, contra talvez a tropa mais adestrada do mundo, que é a tropa alemã, e eles conquistaram todas as posições. Aqui, a gente usa tiro real porque treina melhor a tropa.” Segundo ele, ao final dos exercícios, a força de prontidão estará certificada pelo Comando de Operações Terrestres para atuar em qualquer parte do território nacional e fora do Brasil.
O Exército brasileiro mobilizou 750 militares para os exercícios. O exército americano enviou para o Brasil 250 homens. O protocolo para as operações conjuntas foi assinado em 2010 e, desde então, aconteceram muitos preparativos. Conforme o coronel Harrison, as tropas brasileiras também treinarão nos Estados Unidos, em data a ser definida. Uma das tecnologias americanas que o Exército brasileiro já assimilou é o uso de sensores em exercícios de combate que dão mais realismo aos tiros de festim, pois permitem simular as baixas sofridas. “É uma simulação com muito realismo, pois o homem que tem a baixa cai e precisa ser resgatado pelo helicóptero”, explicou. No exercício de terça-feira, foram 11 baixas americanas e 14 brasileiras.
Para o general Tomás, os dois lados saem vitoriosos. “Vemos o que eles estão fazendo de diferente e buscamos esse objetivo. A gente está aprendendo com eles, mas também estamos ensinando. Usamos artilharia de campanha, morteiros, armas anti tanques, fuzis, metralhadoras, armamento pesado. A tropa americana trouxe armas portáteis e equipamentos mais sofisticados de controle e georreferenciamento. Todos eles com equipamentos de visão noturna, que nós também temos, mas em menor quantidade”, disse.
Os exercícios prosseguem até o dia 16, quando o Core 2021 será encerrado. Além de simulações de combates, haverá exercícios de tiro individual com caçadores (snipers) e tiro real de fração – uso de vários tipos de armas ao mesmo tempo. O major Rodrigo Magalhães, da 12ª Brigada de Infantaria Móvel do Exército, explicou que o exercício desta quarta simulou uma situação real de defesa de uma posição conquistada pela tropa e cobiçada pelo inimigo. “Dispusemos 130 homens na frente, que iniciam os disparos quando o inimigo entra na linha de fogo. Primeiro usamos os fogos aéreos, com os helicópteros, depois os carros com metralhadoras ponto 50. Na retaguarda, usamos fogo de artilharia com alcance de até 13 quilômetros”, descreveu.
“À medida que o inimigo se aproxima, ele recebe o fogo cerrado.” O objetivo, segundo o major, é canalizar o inimigo para uma área de engajamento, momento em que todos os armamentos dispostos na posição defensiva são acionados. “Esse barulho mais forte é do canhão 90 milímetros, da viatura Cascavel. É o cruzamento de fogos de proteção final, ou o que chamamos de sinfonia da destruição. É quando se espera o recuo do inimigo ou a capitulação do inimigo”, disse.
Conforme o militar, um dos pontos altos do exercício conjunto acontece no dia 14, quando os soldados americanos e brasileiros trocam os armamentos e fazem uso dessas armas, no chamado tiro de integração. O coronel Harrison elogiou o desempenho dos soldados brasileiros. “Nossos soldados retornarão para os Estados Unidos mais preparados por terem treinado com eles. É a primeira vez que venho ao Brasil e me sinto honrado por participar desse exercício. Os resultados demonstram a importância da parceria entre os Estados Unidos e o Brasil”, disse.
TERRA/montedo.com

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