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Rodolfo Costa
Brasília

Os militares estão divididos para as eleições de 2022. Boa parte dos praças, oficiais e oficiais-generais segue disposto a apoiar o presidente Jair Bolsonaro e dar seu voto a ele. Mas outra parcela considerável das Forças Armadas, da ativa e da reserva, prefere um candidato da terceira via – e o ex-juiz Sergio Moro (Podemos) larga na frente nessa preferência. Apenas uma parcela pequena pode vir a apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Bolsonaro obteve o apoio dos militares em 2018 ao se apresentar como o candidato da renovação na política e contra a corrupção. À época, seus principais “fiadores” nas Forças Armadas foram os generais Augusto Heleno e Oswaldo Ferreira. Heleno, desde o início do governo Bolsonaro, chefia o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República.
Mas muitos militares estão insatisfeitos, principalmente após a aproximação de Bolsonaro com o Centrão, a ponto de o presidente estar próximo de se filiar a um partido do bloco – o PL, partido comandado pelo ex-deputado Valdemar Costa Neto, condenado no caso do mensalão.
Por esse motivo, muitos integrantes das Forças Armadas começaram a cogitar a ideia de apoiar, em seus círculos mais próximos, um candidato da chamada terceira via. Outros podem se manifestar publicamente – a exemplo do general Santos Cruz, ex-ministro de Bolsonaro, que deve disputar uma cadeira ao Senado ou à Câmara dos Deputados no ano que vem.
Tratado como “traidor” pelos militares mais ideológicos que apoiam Bolsonaro, Santos Cruz se filiou ao Podemos na quinta-feira passada (25) para apoiar de forma mais prática e enérgica a candidatura do ex-juiz Sergio Moro. O general disse que “não se pode criminalizar a política” e que é preciso combater o “fanatismo e o extremismo” na política, que, segundo ele, só levam à “violência”. Com seu gesto, Santos Cruz pretende induzir outros militares a fazerem o mesmo.
O general reformado Paulo Chagas é outro que apoia a ideia de uma candidatura da terceira via, sobretudo a de Moro. Ele também cogita se filiar, embora não tenha decidido lançar candidatura.
O partido que preenche as melhores condições de acordo com o meu pensamento político e ideológico é o Podemos. Estava entre ele e o Novo. Mas já me defini pelo Podemos. A tendência é me filiar. Tem muita gente fazendo pressão para eu me candidatar a deputado federal, mas sinceramente não estou motivado a isso”, afirma o general.
Moro – ou outro candidato da terceira via mais à direita – tem mais chances de obter o apoio dos militares por causa do perfil da maioria deles: “conservador, patriota e de direita”.
Já a esquerda tem pouco apoio nas Forças Armadas, embora haja integrantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica que simpatizam com esse campo ideológico. “Sempre houve uma ala petista [nas Forças Armadas], mas é tão ínfima e tão pequena que eu nunca conheci alguém que se dizia petista”, afirma Chagas.

Como ocorre a discussão política entre os militares
Atualmente, a discussão eleitoral entre os militares ocorre por meio de grupos de WhatsApp e pelas redes sociais. Em geral, são nesses meios que os militares falam sobre candidatos de preferência e trocam material de leitura sobre as eleições de 2022.
O general Paulo Chagas diz que, em alguns casos, as discussões se dão num tom mais acalorado. “Algumas são, até certo ponto, acirradas, e que acabam, de alguma forma, interferindo até na amizade de companheiros. Santos Cruz e eu mesmo somos achincalhados por muitos [militares] ‘bolsonaristas’ mais fanáticos. Mas muitos falam mal de mim às escondidas, diferente do que acontece com o Santos Cruz”, afirma.

O que pensam os militares que apoiarão Bolsonaro
A maioria dos militares que já ingressou na política apoia Bolsonaro. Eles usam seu capital político para trabalhar suas candidaturas à reeleição e dar sustentação a Bolsonaro. Alguns exemplos são os deputados federais General Peternelli (PSL-SP) e General Girão (PSL-RN).
Mesmo o vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB), que se distanciou de Bolsonaro, conta nos bastidores com o apoio do presidente para sair candidato a algum cargo majoritário: Senado ou governo estadual – possivelmente pelo Rio de Janeiro ou Rio Grande do Sul. Isso, porém, não impediu Mourão de manter conversas com o ex-ministro Sergio Moro. Segundo o jornal O Globo, o movimento faria parte dos esforços do ex-juiz para obter apoio dos militares para sua candidatura.
Os militares que apoiam Bolsonaro afirmam que o presidente da República manterá o apoio da maioria dos integrantes das Forças Armadas. “A cada cinco eleitores militares, você vai achar um a favor do Moro dentro das Forças Armadas, e olha lá”, diz um oficial da ativa do Exército de forma reservada.
A avaliação feita por militares apoiadores do presidente é de que Moro encontra maior apoio na cúpula do Exército e, sobretudo, entre oficiais-generais. Mas ponderam que a grande maioria dos praças e oficiais estarão com Bolsonaro em 2022.
“O desejo por uma terceira via reflete muito uma visão da cúpula do Exército, ali no alto comando, e ecoa entre os generais da reserva. Mas isso é mais um fenômeno da cúpula, e não da tropa. Na Marinha e na Força Aérea, a esmagadora maioria apoia o presidente”, diz um militar da ativa da Marinha. “A posição e opinião de oficiais-generais e superiores não refletem a ‘massa’ de militares”, complementa.
Alguns motivos são elencados pelos militares que apoiam Bolsonaro. Um deles é o prestígio que as Forças Armadas receberam do governo do atual presidente. “Ele vai nos eventos [militares], e isso é levado muito em conta. Está sempre afagando a tropa. Se ele não fez tudo o que poderia, e todos entendem as dificuldades de um país como o nosso, ele prestigia os militares. E isso, na base, é muito bem visto”, justifica um dos militares ouvidos pela reportagem.
É dito na cúpula das Forças Armadas, inclusive, que Bolsonaro vai comparecer a eventos militares até 2022 a fim de testar sua força junto aos militares e reforçar seu apoio. No sábado (27), por exemplo, ele compareceu a uma cerimônia de formatura de 391 cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende (RJ).
Outro militar ressalta que Bolsonaro é quem mais reflete o sentimento militar “antiesquerda” e de defesa de valores conservadores. “Bolsonaro é contra os exageros da esquerda e sempre verbaliza isso; é quem mais reflete o nosso pensamento. O Moro levanta as bandeiras do conservadorismo? É contra a política de ideologia de gênero? Ele parece ter uma única bandeira, a da anticorrupção”, diz. “Assim como a maioria da população, nós não desejamos o retrocesso ou os ‘modismos’ do progressismo”, acrescenta outro militar.

Sinais dos comandantes das três Forças sugerem quem é o candidato deles
Institucionalmente e publicamente, nenhum dos comandantes das Forças Armadas vai verbalizar apoio formal a qualquer candidato. Mas seus gestos são vistos pelas tropas como indicativos sobre quem seria o favorito deles para 2022; e isso pode influenciar o voto de seus comandados.
No Exército, muitos na cúpula entendem que seu comandante, Paulo Sérgio de Oliveira, não fará gestos de apoio a Bolsonaro. Os demais comandantes, entretanto, já sinalizaram quem, eventualmente, terá o voto deles em 2022, na avaliação feita por militares ouvidos pela reportagem.
O desfile de blindados na Esplanada dos Ministérios em agosto foi visto dentro das Forças Armadas como um gesto de alinhamento do comandante da Marinha, Almir Garnier Santos, ao governo. “Aquilo, de certa forma, divulgou a Operação Formosa [da Marinha], mas foi um gesto de prestigiar o presidente em reconhecimento ao prestígio que ele dá às Forças Armadas”, analisa um dos militares ouvidos pela Gazeta do Povo.
Já o comandante da Aeronáutica, Carlos Baptista Júnior, curtiu, em agosto, um tuíte de uma internauta que acusou os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) de “ininterruptas interferências e perseguições” contra Bolsonaro e no qual os chama de “inimigos eternos”. Recentemente, ele também republicou um tuíte do deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP) em que faz críticas às menções de que o STF atua como um “poder moderador” do Executivo.
“Não era de competência do poder moderador fazer ativismo, alterar a constituição, criar leis ou mandar prender. O poder moderador era para manter harmonia através do veto, sanção e remoção de juízes abusivos”, comentou Orleans e Bragança na última sexta-feira (19) na mensagem republicada pelo comandante da Aeronáutica. O Poder Moderador existia no período da monarquia e era exercido pelo imperador do Brasil.

O que pensam os militares que buscam uma terceira via
Ao contrário do que dizem os militares que apoiam Bolsonaro, os que defendem a terceira via afirmam que a tendência dentro das Forças Armadas é que a maioria apoie outro candidato que não seja o atual presidente e nem Lula. “Esse pessoal que ainda está com o Bolsonaro é uma turma que ainda acha que a solução é um governo militar forte. Isso tudo é uma grande bobagem e um grande retrocesso. Não tenho dúvida que, qualitativamente, o apoio à terceira via é superior”, diz Paulo Chagas.
O general afirma que embasa seu argumento em conversas que tem tido com colegas e amigos que estão na ativa. Segundo ele, há muitos militares que se dizem desapontados com o governo. “Tenho encontrado mais gente decepcionada, e revoltada com o fato do Bolsonaro querer envolver a Força como fator de apoio ao governo dele, do que gente bolsonarista”, diz.
Essa ala dos militares entende que Bolsonaro inverteu as pautas defendidas durante as eleições em seu governo e “traiu” o eleitorado ao abandonar pautas como o combate à corrupção. “Os bolsonaristas chamam o Moro e o Santos Cruz de traidores. Mas traidor foi o Bolsonaro, que, no momento em que venceu a eleição, inverteu o quadro e passou a ouvir as pessoas erradas, como os filhos e o gabinete do ódio”, diz Chagas.
Além de críticas à ala mais ideológica do governo, Chagas também critica a aproximação de Bolsonaro com o Centrão. “Tem alguns que falam que ele se juntou com o Centrão porque o cara [o presidente], para governar, precisa fazer esse tipo de aliança. Eu discordo. E muita gente como eu discorda”, diz.
Apesar da defesa de uma terceira via e da preferência por Moro, Chagas evita dar apoio ao ex-juiz agora e diz que outros militares seguem o mesmo entendimento. “Se definir agora [o apoio por um candidato] vai se dividir. Tem que chegar no momento em que a terceira via se une em cima de um nome, e isso só vai acontecer lá por abril e maio [quando encerra o prazo eleitoral de registro de candidatura]”, diz.
A predileção por Moro de parte dos militares remete, de certa forma, ao mesmo espírito que levou os integrantes das Forças Armadas a apoiar Bolsonaro em 2018: a expectativa por um candidato que possa representar a “nova política” e que mantenha a defesa dos valores conservadores nos costumes e liberais na economia. “Os militares têm esse perfil e, mesmo que alguns não tenham, a maioria tem um perfil antagônico ao do PT e do resto da esquerda”, explica Paulo Chagas.
Ter Santos Cruz como um dos principais cabos eleitorais de Moro também é outro motivo que tem estimulado os militares inclinados à terceira via.
“Se isso [opção de Santos Cruz por Moro] vai ter alguma influência mais significativa ou não sobre os militares, isso aí a gente tem que esperar ainda um pouco porque ele está sendo massacrado por esse pessoal que ainda está do lado do Bolsonaro e está muito fanatizado”, diz Chagas.
GAZETA DO POVO/montedo.com

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