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Paula Losada e Ana Carolina Guerra
Com influente participação no território pernambucano, o Exército Brasileiro busca restabelecer laços históricos no estado, através de projetos nos setores de turismo, cultura e educação. Em entrevista para o Diario de Pernambuco, o comandante militar do Nordeste, Richard Fernandez Nunes, falou sobre a escolha de Pernambuco como sede da Escola de Formação e Graduação de Sargentos de Carreira, que será erguida no Campo de Instrução Marechal Newton Cavalcanti (CIMNC), que abrange os municípios de Abreu e Lima, Paudalho, Nazaré da Mata, Paulista, Tracunhaém, Igarassu e Araçoiaba, localizados na Região Metropolitana do Recife (RMR). O comandante militar do Nordeste ainda comentou sobre os planejamentos para a área do turismo no estado, que incluem a revitalização do Parque Histórico Nacional dos Guararapes (PHNG) e o Projeto Cultural Memória Militar – Origens do Exército.
A proposta pretende resgatar o conhecimento histórico-militar em Pernambuco, com um circuito que passeia pelo Forte do Brum, no Recife Antigo, e segue para o Forte de Santo Inácio de Loyola, em Tamandaré, no Litoral Sul do estado. O comandante também revelou os desafios enfrentados pelo Exército durante a pandemia da Covid-19, a retomada das operações nacionais e a relação com a família Brennand.

Entrevista – Richard Fernandez Nunes // comandante militar do Nordeste

Escola de Sargentos
A escolha da Escola de Sargentos foi feita a partir de uma análise de vários aspectos socioeconômicos, patrimoniais e ambientais. Tudo isso foi filtrado até chegar em três regiões: Santa Maria, no Rio Grande do Sul; Ponta Grossa, no Paraná; e a Região Metropolitana do Recife, na área do Campo de Instrução Marechal Newton Cavalcanti (CIMNC). [Foram analisadas] Vantagens e desvantagens, comprometimento da sociedade e da classe empresarial. Foi uma decisão que nos deixou muito satisfeitos. A vinda para o Recife teve uma definição sobretudo geopolítica. A gente precisava deixar claro a importância do Nordeste para o Exército. As contrapartidas oferecidas pelo governo do estado foram importantes, algumas delas são essenciais para o desenvolvimento da área, como o Arco Viário Metropolitano. O fato da Escola estar localizada na Região Metropolitana do Recife tem uma série de vantagens para quem vem residir aqui, até pelas opções que o Recife oferece nas áreas de educação, saúde e cultura. Trazer um empreendimento desse vulto também sinaliza a importância do Nordeste para a estrutura militar terrestre brasileira.
Os próximos passos, que serão realizados ainda este ano, envolvem a proposição de um protocolo que deve ser assinado pelo Exército e pelo Governo de Pernambuco. Em seguida, o Exército deve partir para a contratação da empresa que vai realizar o projeto. A nossa expectativa é que essa obra comece daqui a dois anos. O investimento deve ficar entre R$ 600 milhões e R$ 1 bilhão.
Existe uma manobra patrimonial que está sendo feita em Brasília, com a Rodoferroviária, que será encaminhada para o Governo do Distrito Federal. Com o dinheiro dessa manobra patrimonial se custeia a obra do Exército. O recurso de R$ 320 milhões do estado de Pernambuco é para os projetos de infraestrutura, como o sistema de água, esgoto e vias urbanas.
A Escola de Sargentos atende várias áreas. Do ponto de vista socioeconômico é um grande empreendimento porque nós estamos falando de uma escola que vai atrair 10 mil pessoas, entre alunos, instrutores, professores, além de toda a equipe de apoio e familiares. Essa será a primeira grande obra de uma escola do Exército totalmente sustentável, com todos os conceitos de modernidade ambiental, aproveitamento de água de chuva, eficiência energética e manejo de vegetação. Do ponto de vista pedagógico, é fundamental [a vinda] porque está trazendo uma estrutura de formação de sargentos que estava espalhada em várias regiões do país e em vários quartéis diferentes, para uma escola centralizada.

Complexo Logístico

O nosso sonho é que a região da Arena Pernambuco se torne um complexo logístico do Exército. Para isso, existe um projeto que tem o objetivo de agregar três quartéis que estão na cidade do Recife. Um no Cabanga, que é o 7º Depósito de Suprimentos, outro em Afogados, que é o 14° Batalhão Logístico, e o outro em Casa Forte, que é o Parque de Manutenção. Essas três unidades logísticas viriam para a região da Arena Pernambuco – inclusive, o governo do estado tem interesse nisso – para construir ali o Complexo Logístico.

Operação Carro-Pipa

A Operação Carro-Pipa surgiu de forma emergencial há mais de 20 anos e permanece assim porque temos um alto grau de confiabilidade, onde são atendidos 525 municípios [no Semiárido brasileiro], beneficiando cerca de 1,9 milhão de pessoas. O 1° Grupamento de Engenharia do Exército atua nas obras de transposição do Rio São Francisco, além de realizar perfurações de poços. O cenário ideal é que houvesse uma estrutura capaz de dar conta dessa situação sem que o Exército tivesse que atuar de forma permanente, mas o nosso papel é tentar servir da melhor forma possível.
Atualmente, estamos realizando uma concentração de escritórios de unidades gestoras. Com isso, aumentaremos o número de pessoas capacitadas, com um nível de especialização maior. Teremos cinco escritórios regionais no Nordeste, que estão localizados em Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife e Salvador. O escritório nacional já está instalado e fica aqui no Recife. Esses escritórios reunidos em um único local resultam em uma economia de mão de obra e recursos humanos. É uma mudança gerencial já iniciada e temos certeza que a Operação Carro-Pipa vai ganhar muito com isso.

Força de Prontidão
Temos uma operação de acolhida dos venezuelanos em Roraima. Essa Operação está sendo realizada por tropas que não são de lá. O próximo contingente que vai para o estado para participar da acolhida será integrado por militares do Comando Militar do Nordeste e do Comando Militar do Norte, com sede em Belém, no Pará. Serão enviados 506 militares, sendo destes 306 do CMNE.
Essas tropas, chamadas Força de Prontidão, recebem um certificado e podem atuar em qualquer lugar, inclusive no cenário da Amazônia.
Como a Amazônia é a prioridade de defesa do nosso país, havendo a necessidade da operação empregar tropas de outros lugares, nós teremos equipes prontas para atuar. Ao todo, são mais de mil militares capacitados.

Missões Internacionais
A ONU, durante o ano de 2021, já mandou delegações ao Brasil e as comitivas já certificaram as nossas tropas. Se houver necessidade de contar com tropas brasileiras novamente em alguma missão internacional, nós temos total capacidade de atender.

Recrutamento
Quando há dificuldade no mercado de trabalho, o número de voluntários aumenta. Isso é cíclico na história. A gente observou isso neste ano também, o que é bom para nós porque assim conseguimos fazer uma seleção mais adequada. Mais de 70 mil soldados foram recrutados em todo o país nas três Forças Armadas. Desses, 66.778 incorporaram no Exército, dos quais 10.284 no CMNE.

Pandemia
Durante a pandemia nós continuamos operando, mesmo sabendo que é um problema grave. Fizemos um esforço enorme para manter as condições de saúde do pessoal e estar em condições de apoiar a sociedade com a vacinação, desinfecção de áreas públicas, transportes e equipamentos. Vacinamos os indígenas, na Amazônia, e tínhamos que continuar o treinamento do pessoal. Foi um desafio, algo inédito. Nunca tínhamos vivido uma situação parecida. Decidimos que precisávamos nos cuidar para cuidar dos outros. Houve uma mudança na rotina no sistema de refeição, alojamento, treinamento físico, formatura. Tivemos algumas dezenas de mortes de pessoas da ativa, mas de recrutas tínhamos perdido apenas um companheiro, que tinha comorbidade e morava no Sul do país. Ao todo, nós recrutamos mais de 200 mil conscritos pelo país.
Este ano retomamos as atividades, com a Operação Guararapes nos oito estados que compõem o Comando Militar do Nordeste. Tínhamos tropas treinando para realizar ações de apoio à defesa civil, treinando para fazer as ações clássicas de combate, além de trazer o sistema Astros de foguete. Também tivemos tropas treinando operações de coordenação e cooperação com agências e em apoio à saúde, instalando hospitais de campanha. Colocamos o nosso efetivo para trabalhar em um ambiente com muito mais liberdade de ação do que tínhamos em 2020, porque passamos um período aguardando o que a pandemia nos permitiria fazer. Os militares com mais de 60 anos e aqueles que têm comorbidades precisaram trabalhar de casa durante um período. Com o avanço da imunização, os que completaram o ciclo de vacinação já retomaram as atividades presenciais.

Memória Militar
O projeto Memória Militar é fundamental para a preservação da nossa história e importantíssimo para Pernambuco. Nós temos aqui [em Pernambuco] um patrimônio histórico-cultural considerável. Temos o Parque Histórico Nacional dos Guararapes, temos os fortes e ainda áreas que fizeram parte da Insurreição Pernambucana. As Batalhas dos Guararapes têm um valor simbólico para a nossa pátria, ali se cunha a ideia de união, de esforços daqueles grupos étnicos que compunham a sociedade naquele momento, lutando irmanados pela soberania. O que percebemos é que a história não está bem difundida. Pode ser evidente para quem mora aqui em Pernambuco, mas não é evidente para o resto do país. Às vezes nem no próprio Exército há esse conhecimento pleno do que foi a Batalha. A gente tem na mão um patrimônio preservado, com condições de ser mostrado para a sociedade.
Imaginamos criar um roteiro turístico, e esse roteiro tem que ser colocado à disposição da sociedade. A Secretaria de Cultura de Pernambuco, através do secretário Gilberto Freyre Neto, comprou a ideia de imediato, junto com empresários voltados para o setor turístico e da rede hoteleira. Nós já fizemos algumas reuniões e elaboramos o projeto com o roteiro a ser feito. O que precisamos é de um engajamento das agências de turismo. Podemos chamar as pessoas que moram nas comunidades ao redor dos fortes para trabalhar como guias turísticos. Na verdade esse processo já começou através da Prefeitura do Recife, que fez um curso de capacitação. A UFPE tem interesse também, inclusive já se reuniu conosco. Estamos animados porque na virada do ano, com a retomada das atividades turísticas, esse roteiro já pode ser apresentado.

Próximos passos
Temos algumas reformas em andamento voltadas para o Parque Histórico Nacional dos Guararapes, que incluem a melhoria das vias de circulação, do mirante, cercamento, sinalização. Também estamos analisando a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres. Temos conversado com a Arquidiocese de Olinda e Recife, sabemos que algumas restaurações foram feitas, mas ali precisamos de cuidados permanentes.
Já o Monumento aos Heróis da Batalha dos Guararapes, do Francisco Brennand, foi idealizado, inicialmente, para ser colocado na confluência das BRs 101 e 232. Não ficou bem porque estava muito isolado. Com a criação da Via Mangue, temos uma visibilidade maior e um espaço com um canteiro central. Ficou decidido que seria muito mais visível e teria mais impacto colocar o monumento lá. A ideia é que no mês de dezembro ele seja reinaugurado na nova localização.

Família Brennand
Temos oito obras do Francisco Brennand em nossas unidades. Somos vizinhos aqui do complexo do Curado. Temos um contato estreito, de muito tempo, até porque alguns membros da família prestaram serviço militar no CPOR, são oficiais da reserva do Exército. O Instituto Ricardo Brennand tem um pavilhão com sabres, adagas e espadas. A escola tem um sabre do sargento Max Wolf, que é em homenagem ao nosso herói da força expedicionária, e vai ficar bem ao lado do espadim doado pelo Exército e que já está no Instituto Ricardo Brennand. A família vai ficar sabendo do novo presente através da reportagem.
DIÁRIO DE PERNAMBUCO/montedo.com

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