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Jonathan Beale
Correspondente de Defesa da BBC News

A rapidez com que o Talebã tem dominado territórios no Afeganistão surpreendeu muitas pessoas – capitais regionais parecem cair como dominós.
Enquanto os insurgentes avançam, o governo afegão tenta manter o controle sobre as cidades. Nesta semana, vazou um relatório de inteligência dos EUA que estima que Cabul pode ser atacada nas próximas semanas, e que o governo afegão pode entrar em colapso em 90 dias.
Nesta sexta (13/08), os talebãs já dominaram a segunda maior cidade do Afeganistão, Kandahar, de cerca de 600 mil habitantes.
Local de origem do Talebã, Kandahar é estrategicamente importante por possuir um aeroporto internacional, pela produção rural e industrial e por ser um dos maiores entrepostos comerciais do país.
Mas como esse avanço avassalador do grupo radical islâmico ocorreu tão rapidamente?
Os Estados Unidos e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), entre eles o Reino Unido, gastaram boa parte dos últimos 20 anos treinando e equipando as forças de segurança do Afeganistão.
Inúmeros generais americanos e britânicos já declararam que haviam formado um Exército afegão mais poderoso e qualificado – promessas que hoje parecem vazias.

A força do Talebã
O governo afegão deveria, em tese, ter vantagem sobre os talebãs, com mais tropas à sua disposição. As forças de segurança do Afeganistão contam com 300 mil pessoas, pelo menos no papel. Isso inclui exército, força aérea e polícia.
Mas, na realidade, o país sempre teve dificuldades para alcançar as metas de recrutamento. O exército e a polícia têm uma história tumultuada, com número elevado de mortes, deserções e corrupção. Alguns comandantes inescrupulosos já se apoderaram de salários de tropas que simplesmente não existiam: os chamados “soldados fantasmas”.
No seu último relatório ao Congresso dos EUA, o Inspetor Geral Especial para o Afeganistão (SIGAR) expressou “sérias preocupações sobre o efeito corrosivo da corrupção… e a questionável precisão dos dados sobre a robustez atual” das forças de segurança.
Jack Watling, do Royal United Services Institute, diz que o exército afegão nunca soube quantas tropas ele realmente tem. Além disso, diz Waitling, há problemas com manutenção de equipamentos e moral dos militares.
Soldados são frequentemente enviados para áreas onde eles não têm conexões tribais ou familiares. Essa é uma razão pela qual alguns rapidamente abandonaram seus postos sem sequer oferecer resistência, quando os territórios foram invadidos.

Milhares de pessoas estão vivendo em campos improvisados em Cabul, após fugirem de territórios dominados pelo Talebã

A força do Talebã é ainda mais difícil de mensurar. Segundo o Centro de Combate ao Terrorismo, estimativas sugerem que existem cerca de 60 mil combatentes. Com o apoio de milícias, o número pode chegar a 200 mil.
Dr. Mike Martin é um ex-oficial do exército britânico que escreveu o livro An Intimate War (Uma guerra íntima), sobre o conflito na província afegã de Helmand. Ele alerta para os perigos de definir o Talebã como um grupo monolítico.
Segundo Martin, o “Talebã está mais para uma coalizão de donos de franquias independentes, que se afiliaram, provavelmente temporariamente.”
Ele observa que o governo afegão também sofre com divisões entre facções locais. A mudança na história do Afeganistão ilustra como famílias, tribos e até mesmo funcionários do governo mudaram de lado – muitas vezes para garantir sua própria sobrevivência.

Acesso a armas
Mais uma vez o governo afegão deveria ter vantagem tanto em financiamento quanto em armas. Ele recebeu, sobretudo dos EUA, bilhões de dólares para pagar salários de soldados e equipamentos. No seu relatório de julho de 2021, o Inspetor Geral Especial para o Afeganistão disse que mais de US$ 88 bilhões haviam sido gastos com segurança no Afeganistão.
Mas acrescentou: “A pergunta sobre se esse dinheiro foi bem gasto vai ser respondida pelo desenrolar do combate.”
A força aérea afegã deveria garantir ao governo uma vantagem crítica no campo de batalha. Mas ela tem tido dificuldades para manter e tripular suas 211 aeronaves- um problema que vem se agravando com o fato de o Talebã direcionar deliberadamente ataques a pilotos. A aeronáutica afegã também não tem sido capaz de atender às demandas dos comandantes em terra.
Isso ajuda a explicar a recente participação da força aérea dos EUA na tentativa fracassada de manter o controle de cidades como Lashkar Gah. Ainda não está claro por quanto tempo os EUA estão dispostos a prover esse tipo de apoio.

Com a retirada de tropas americanas e da Otan, o Talebã ganhou espaço e pode estar perto de invadir a capital afegã, Cabul.

Com a retirada de tropas americanas e da Otan, o Talebã ganhou espaço e pode estar perto de invadir a capital afegã, Cabul.
O Talebã normalmente depende da receita do tráfico de drogas, mas também recebe apoio estrangeiro, principalmente do Paquistão.
Mais recentemente, o Talebã conseguiu capturar armas e equipamentos das forças de segurança afegãs, como metralhadoras, morteiros e artilharias.
O Afeganistão já estava inundado de armas após a invasão soviética, e o Talebã mostrou que o mais cruel pode derrotar uma força muito mais sofisticada.
Pense no efeito mortal do Dispositivo Explosivo Improvisado (IED) nas forças americanas e britânicas. Isso, somado ao profundo conhecimento local e à compreensão do terreno, têm garantido vantagem ao grupo radical islâmico.

Foco no norte e oeste
Apesar da natureza heterogênea do Talebã, alguns ainda enxergam evidências de um plano coordenado em seu avanço recente.
Ben Barry, um ex-brigadeiro do exército britânico e agora membro sênior do Instituto de Estudos Estratégicos, reconhece que os ganhos do Talebã podem ser oportunistas, mas acrescenta: “Se você fosse escrever um plano de ataque, seria difícil chegar a algo melhor do que isso. ”
Ele aponta para o foco dos ataques do Talebã no norte e no oeste, não em seus tradicionais redutos do sul, com sucessivas capitais regionais caindo em suas mãos.
O Talebã também capturou passagens de fronteira importantes e postos de controle, canalizando as receitas alfandegárias que eram essenciais para o governo.
O grupo também aumentou os assassinatos de funcionários importantes, ativistas de direitos humanos e jornalistas. Com isso, lentamente, conseguiu eliminar alguns dos pequenos progressos obtidos nos últimos 20 anos.
Já a estratégia do governo afegão é mais difícil de identificar. Promessas de retomada do território capturado pelo Talebã parecem cada dia mais vazias.
Barry diz que o plano parece ser manter o controle das maiores cidades. Comandantes afegãos já foram deslocados para tentar evitar que Lahskar Gah e Helmand caiam nas mãos dos insurgentes.
As forças do Afeganistão têm uma história complexa de corrupção, deserções e mortes
Mas por quanto tempo vão conseguir evitar isso?

As forças do Afeganistão têm uma história complexa de corrupção, deserções e mortes

As forças especiais afegãs são relativamente pequenas em número, cerca de 10 mil, e elas já estão sobrecarregadas. O Talebã também parece estar ganhando a propaganda da guerra e a batalha de narrativas.
Barry diz que o sucesso atual deles no campo de batalha aumentou o moral e garantiu um senso de união. Em contraste, o governo afegão está vivendo um momento de atritos, com demissão de generais.

Qual o fim do jogo?
A situação certamente parece desoladora para o governo afegão.
Mas Jack Watling diz que “a situação ainda pode ser salva pela política”. Se o governo conseguir conquistar o apoio dos líderes tribais, diz ele, ainda existe a chance de reverter o problema.
Essa visão é ecoada por Mike Martin, que aponta para o retorno do ex-senhor da guerra Abdul Rashid Dostum a Mazar-i-Sharif como um momento significativo. Ele já está negociando acordos.
A temporada de combates de verão logo terminará com o início do inverno afegão – tornando as operações mais difíceis para as forças em solo.
Ainda é possível que haja um ’empate’ até o final do ano. O governo afegão vai se agarrar à defesa de Cabul e de uma gama de cidades grandes.
A maré pode até mudar se houver fraturas no Talebã. Mas, no momento, parece que os esforços dos EUA e da Otan em garantir paz, segurança e estabilidade no Afeganistão foram tão infrutíferos quanto os dos soviéticos que vieram antes deles.
BBC Brasil/montedo.com

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