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Em seis décadas de ditadura, não mudaram também o silêncio de parte da esquerda brasileira e o apoio declarado de outro tanto a um regime que promove eleições de araque, aniquila a liberdade de expressão, discrimina homossexuais e persegue jornalistas e artistas de oposição

MARCELO RECH
Em 1993, desembarquei em Cuba como turista para driblar o controle sobre jornalistas e escarafunchar a realidade do que se passava na ilha de Fidel após o fim da mesada da União Soviética. O cenário com que topei era devastador. Havia fome e faltavam medicamentos, combustível e liberdade. Sobravam apagões e rancores contra o regime, assoprados à boca pequena por cubanos temerosos dos agentes que vigiam a sociedade.
Vinte e oito anos depois daquela série de reportagens, os protestos desencadeados na ilha revelam uma desalentadora mesmice na rotina de privações. Com o quadro agravado pela pandemia, persistem a fome e faltam medicamentos, combustível e, sobretudo, esperança. Sobram os apagões e os rancores contra o regime, engasgados em uma juventude sedenta de liberdade. Em 1993, bem antes das redes sociais, a reportagem em Zero Hora me valeu uma onda de ameaças e ataques ensandecidos, além da condição de persona non grata em Cuba, por expor as entranhas da quimera de Fidel. Afora a penúria em larga escala, havia prostituição e corrupção no cotidiano como nunca testemunhara antes, nem mesmo no salve-se-quem-puder dos últimos suspiros da URSS.
Em 1993, cubanos improvisavam antenas parabólicas com panelas para captar TVs na Flórida. Já em 2021, o bloqueio da internet pelo governo tenta conter o desejo de mudança e fechar o caminho para a primavera caribenha. Na crise de 1993, como agora, o partido e seus aliados na esquerda mundial atribuíam ao embargo dos EUA a responsabilidade por todas as suas agruras. O boicote norte-americano é um instrumento anacrônico e inútil, porque não impede o comércio de Cuba com o resto do mundo. Mas o pretexto do embargo serve como biombo para a real origem dos problemas cubanos: a economia e as esperanças sacrificadas por uma burocracia e ineficiência estatais subordinadas ao compadrio ideológico.
Em seis décadas de ditadura, não mudaram também o silêncio de parte da esquerda brasileira e o apoio declarado de outro tanto a um regime que promove eleições de araque, aniquila a liberdade de expressão, discrimina homossexuais e persegue jornalistas e artistas de oposição. O que a mesma esquerda, justificadamente, condena nos ímpetos da extrema-direita é perdoado ao socialismo cubano por quem faz o tour guiado de Havana e não tem de conviver com a opressão diária e a miséria geração após geração.
É pouco provável que os cubanos que ousaram ir às ruas tenham o condão de fazer desabrochar a democracia e despachar para o limbo uma nomenclatura protegida por seu gigantesco aparato repressivo. Mas a Cuba de 2021 renovou a linha divisória da coerência. Os rebeldes cubanos, ao menos, já ajudaram a distinguir os que, em terras distantes, acham que ditadura só é ruim quando é de direita.
GZH/montedo.com

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