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Militar reclamou do soldo e da carreira em transmissão do deputado Vitor Hugo; para militares, Comando ficará desmoralizado se punir sargento e deixar Pazuello livre

Marcelo Godoy
Caro leitor,
Era 14 de maio de 2021 quando o Major Vítor Hugo começou mais uma de suas lives no Instagram. Antigo integrante das Forças Especiais do Exército, ele se tornou um dos líderes do bolsonarismo no Congresso, eleito deputado federal do PSL por Goiás. O parlamentar lia perguntas de eleitores na transmissão e dava palpites sobre a política e projetos em tramitação quando, quase no fim do programa, resolveu dividir a tela com um de seus apoiadores: Luan Ferreira de Freitas Rocha.
O que poderia ser apenas mais uma rotina na atuação do congressista criou um novo constrangimento para o Comando do Exército no momento em que se discute a punição do general de divisão Eduardo Pazuello por ter participado no dia 23 de maio do comício de Jair Bolsonaro no aterro do Flamengo, no Rio. É que Luan é 3.º sargento de Material Bélico da ativa e trabalha na Companhia de Comando da 15.ª Brigada de Infantaria Mecanizada, com sede em Cascavel, no Paraná.
Luan entrou na live, posto na transmissão por iniciativa do deputado. Está em trajes civis e fala sem esconder a condição de militar da ativa. Para militares ouvidos pela coluna, há desrespeito à cadeia de comando. O sargento tem um jeito de sujeito bem-intencionado, mas faz reclamações públicas ao deputado e conclama os colegas sargentos formados nos anos de 2013 e 2014 a acompanhá-lo no movimento reivindicatório. Ele e o general Pazuello cometeram a mesma transgressão disciplinar, segundo os militares.
Mas do que reclama o praça? Do aumento de tempo de permanência como terceiro-sargento imposto aos graduados pela chamada reforma da previdência dos militares, que os obrigou a ficar mais cinco anos, aposentando-se após 35 anos de serviço. E o que ele quer? Quer a criação de uma nova graduação para os sargentos, um novo nível hierárquico, para aumentar o salário de todos e compensar, assim, o maior tempo de trabalho. Hoje o 3.º sargento, diz ele, deve permanecer dez anos como tal até ser promovido a 2.º sargento.
No governo classificado pelo professor Héctor Luis Saint-Pierre, da Unesp, como “militar-bolsonarista”, o major-deputado patrocina encontros com sargentos, driblando o capitão comandante da companhia do praça, o coronel de seu batalhão e o general de sua brigada. Promove reivindicações coletivas de subordinados sobre temas que o Comando do Exército deveria tratar com o ministro da Defesa. Não se deve ser desleal, nem promover o desprestígio e o desprezo pela hierarquia e pelo Alto Comando; este se vê ultrapassado pelo major populista, que promete aos sargentos conversar com o presidente da República.
O sargento quer a criação da graduação de “sargento-mór”. Logo abaixo dos subtenentes. Diz que seus colegas que trabalham em São Paulo não conseguem viver com o que ganham. O soldo está baixo. Mas é pago em dia na pandemia. O major o apoia. “Acho que o tempo que as praças permanecem na mesma graduação é muito longo.” Se os generais do Planalto podem furar o teto do funcionalismo e ganhar até 69% de aumento, por que os sargentos não podem ter mais uma vantagem, outro filezinho dado pelo presidente Bolsonaro? “Vou falar com o presidente, pois você sabe, isso depende do presidente”, anuncia o major.
O major populista conheceu Bolsonaro quando trabalhava no Congresso. É um Força Especial (FE). Aceita qualquer missão, a qualquer hora e a cumpre de qualquer maneira. Esse é o lema dos FE. Mas deve fazê-lo por cima do Alto Comando do Exército? O presidente bem pode aumentar a anarquia e conceder ao deputado o que os sargentos reivindicam publicamente em uma transmissão político-partidária. Estaria de acordo com sua história. Mas e se negasse? O que faria se os sargentos procurassem a oposição ou a equipe de Luiz Inácio Lula da Silva em busca da promessa não obtida, mais uma vez ignorando o Comando do Exército?
O que faria o Alto Comando se fosse o presidente Lula a atender pleitos levados ao Planalto, não pelo Ministério da Defesa, mas por controladores de voo ou sargentos de material bélico? A baderna nos quartéis – dizem os críticos do presidente – quem a instalou foram os generais que aderiram a Bolsonaro, um homem que conheciam, que sabiam de sua história e o usavam em seus pleitos no Congresso até o dia em que viram nele a possibilidade de dominar a Esplanada. São eles que hoje defendem Pazuello e aceitam o deboche bolsonarista das normas, das instituições e das autoridades.
E qual alternativa deixam ao Exército? Se não punir Pazuello – como espera Bolsonaro – como terá o comandante na 15.ª Brigada moral para impor a autoridade ao sargento? O jovem praça reclamou publicamente de suas dificuldades. Parece ingênuo, levado pelo exemplo do major ou do general Pazuello. Disse que o tema sobre a criação do sargento-mór não foi tratado com ele e seus colegas. “Nem nos quartéis se reuniram com a gente.” Age como se fosse normal, como se a situação financeira o permitisse a fazer declaração não autorizada em transmissão pública, que serve de palanque ao deputado. Mas e o major? Não passou pela cabeça do político ouvir sua base reservadamente, sem estimular movimentos reivindicatórios fora da cadeia de comando? Em vez disso, expôs o sargento.
Mas isso é pedir demais ao bolsonarismo. O deputado desconhece a liturgia das instituições porque age de qualquer maneira. Um quadro disciplinar esgarçado soava exagerado para alguns, na semana passada, quando o tenente-brigadeiro Sérgio Xavier Ferolla se manifestou sobre a participação de Pazuello no comício do chefe. Ex-presidente do Superior Tribunal Militar, ele disse ao Estadão: “Como punir um sargento, se o general não for punido?” E completou: “Se aceitar isso, acaba a disciplina nas Forças Armadas”. Tem razão. Como preservar a hierarquia se a disciplina virar letra morta? É para esse abismo que a irresponsabilidade bolsonarista leva as instituições militares. Criam-se ilusões e agonias a cada dia para os soldados profissionais que amam seu Exército e a ele dedicam suas vidas em silêncio, em respeito à Nação.
O ESTADO DE SÃO PAULO/montedo.com

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