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O QUE O NOVO COMANDANTE DA MARINHA PENSA DA CONJUNTURA POLÍTICA
Para o almirante Almir Garnier Santos, as falas do presidente são para sua base eleitoral e não incomodam as Forças Armadas

Tânia Monteiro
O almirante Almir Garnier Santos, de 60 anos, recebeu ÉPOCA em seu amplo gabinete no segundo do andar do bloco N, na Esplanada dos Ministérios, para sua primeira entrevista depois de assumir o cargo de comandante da Marinha. Na nova mesa de trabalho, Garnier, como é chamado, colocou três porta-retratos. No primeiro, ele está com a esposa, Selma. No segundo, sua mãe, Sulayr, aparece abraçada ao presidente Jair Bolsonaro na sua cerimônia de posse, no começo de abril. Na terceira foto estão seu filho, nora e neta.
Garnier começou sua vida na Marinha aos 10 anos, quando entrou na Escola Industrial da Marinha, no Rio de Janeiro, onde nasceu. Já com bastante experiência no mar, aos 31 anos fez mestrado em pesquisa operacional e análise de sistemas na Naval Postgraduate School (NPS), nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, desenvolveu projetos de otimização de recursos, de emprego de Poder Naval, de jogos para treinamento de Guerra Naval e de implantação de sistemas de tecnologia da informação e comunicações.
Garnier disse ter ficado surpreso com as demissões de Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa e dos três comandantes das Forças Armadas no final do março, mas reconheceu que elas foram legítimas, por serem da competência legal do presidente da República. Leia a seguir trechos da entrevista.

O senhor se surpreendeu com a demissão do ministro Azevedo e Silva e dos comandantes? Foi um trauma? Foi uma surpresa, mas não foi um trauma. É um processo normal de mudança. As mudanças ocorrem em função de um contexto.
Ficaram feridas? Conosco não.
E no Exército e na Aeronáutica? Não tenho como avaliar isso, porque cada Força tem o seu jeito.
Como ficou a relação do presidente com os militares depois desse episódio, que muitos descrevem como trauma? Estive com o presidente no Planalto na cerimônia de cumprimento aos oficiais-generais recém-promovidos. Estávamos todos lá. Os que deixaram o cargo e os que iam assumir. Somos todos homens maduros. Já vivemos muitas adversidades na vida. Houve surpresa? Houve. Mas eu não percebi, neste contexto, nada de especial.
O presidente disse, em meados de abril, que aguarda a sinalização do povo para tomar providências. Esse tipo de fala mais provocativa incomoda a Marinha? De jeito nenhum. O que incomoda a Marinha é ter pouco orçamento, ter pouco navio, não ter mais oportunidade de apoiar a população brasileira.
Esses arroubos do presidente não causam desconforto? Não são conosco. Ele fala com a população como um todo. Ele tem uma grande base eleitoral. Como cidadão, vejo os números de pesquisa apresentados. Dois anos de mandato é um momento crítico para todo presidente. Temos uma pandemia. E, ainda assim, ele tem uma grande base que o acompanha nas redes sociais, que o recebe nos locais a que ele vai. Então, ele fala para o eleitorado dele, com as bases dele.
Em muitas das falas parece que ele quer mostrar que está respaldado pelas Forças Armadas para o que quiser fazer, não? O presidente fala com base na sua autoridade legal e constitucional. Ele ordena e as Forças Armadas cumprem dentro da legalidade constitucional, dentro das quatro linhas da Constituição. Essas outras considerações e ilações, eu não acho que elas estejam ligadas a este contexto.
O senhor encerrou seu discurso de posse dizendo “viva a minha, a sua, a nossa Marinha do Brasil!“. O presidente usou, mais de uma vez, a expressão “meu Exército” e foi muito criticado por isso. Eu adoraria que todos os brasileiros se referissem à minha Marinha. É isso que nós somos. A Marinha não é do Garnier. Não é de ninguém. Ela é de todos nós. Eu não vejo nada demais. Vejo como uma coisa positiva, de cidadania, de patriotismo, civismo. É bom que o povo se sinta assim. Mas, ao mesmo tempo, tem outro fator, já que você mencionou a fala do presidente. O presidente teve uma vida no Exército, talvez menor do que teve na política. Mas, é meio natural ele falar “o meu Exército”.
Não é uma fala antidemocrática dizer que vai pegar o Exército ou as Forças Armadas para fazer o que quiser? Ele disse o contrário. Disse que o “meu Exército” não ia fazer. Mas, ainda assim, esse tipo de expressão é patriótica, de apoderamento patriótico da Força.
Os novos comandantes vieram para ser alinhados ao presidente? Todos os comandantes são alinhados ao presidente porque são hierarquicamente subordinados ao comandante supremo. Serei subordinado ao comandante supremo, de acordo com as leis brasileiras, como todos os que me antecederam.
Quando Bolsonaro fala que aguarda sinalização do povo para agir, muita gente pensa que vai ter golpe. Isso é um risco?(Garnier ri, assim como os demais presentes na sala) O presidente foi eleito democraticamente. Que golpe é esse? Não consigo entender. Mas, também, não é meu papel entender. Meu papel é fazer o que venho fazendo aqui, reunindo com os demais membros do almirantado, planejar as próximas ações da Marinha, continuar o grande trabalho que o almirante Ilques (Barbosa) vinha fazendo.
As Forças Armadas vão pagar um preço por tantos militares participarem desse governo? As Forças Armadas são as instituições mais bem avaliadas por todas as pesquisas que vi até hoje, por uma razão muito simples: nós cuidamos do povo. Essa questão me parece que fica apenas sendo discutida em alguns grupos, em algumas camadas estratificadas da sociedade, onde há a clara e nítida intenção de debates políticos, talvez ideológicos. Mas, quando a poeira baixar, a sociedade continuará vendo as Forças Armadas como o que elas são. Elas são a garantia da soberania da nação. Elas são a proteção das riquezas e o cuidado do povo. A Marinha exerce uma série de ações cívico-sociais. O Exército e a Aeronáutica também. E isso é o que realmente fica. O resto é espuma de chope.
A CPI da Covid, que foi ampliada, pode ser uma espuma de chope? Não tenho bagagem para tratar desse assunto. Contudo, uma coisa é certa: compete ao parlamento fiscalizar o Executivo. Vejo que é uma oportunidade de o governo apresentar o excelente trabalho que vem sendo feito.
A CPI da Covid pode levar a um impeachment? Nem de longe. Não há nada que eu, como cidadão, veja dessa questão. Mas não sou a pessoa qualificada para avaliar isso. Não tenho essa bagagem. Tenho 950 dias de mar e zero de Congresso Nacional.
A frota da Marinha está obsoleta? Não. Existem meios navais com idade bem avançada. E nós gostaríamos de ter meios mais novos, com certeza. Para isso estamos construindo submarinos e iniciamos recentemente um programa de construção de fragatas. Estamos construindo navios-patrulha, compramos helicópteros. Agora, se você perguntar se gostaria de ter muitos mais navios, aeronaves e carros de combate de Fuzileiros Navais, é claro que gostaria. Muitas vezes se veem as Forças Armadas somente como gasto. Somos investimento. Cada real colocado na indústria de defesa, você multiplica. Nós somos tecnologia. Só o domínio do enriquecimento do urânio para fornecer material paras nossas usinas de geração nucleoelétrica, por exemplo, sem precisar comprar de ninguém, já é um grande ganho.
ÉPOCA/montedo.com

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