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Ricardo Montedo
“Sentei praça” em 1979, no início do governo Figueiredo, o último do regime implantado em 1964. Acompanhei como militar todas as mudanças políticas pelas quais o Brasil passou: a anistia; as Diretas Já; a eleição de Tancredo; sua agonia e morte transmitidas em cadeia nacional e a posse do seu vice.
Com Sarney, o Exército passou tempos duros sob o jugo do general Leônidas Pires Gonçalves, que o comandou com mão de ferro num período de grandes transformações políticas, sociais e econômicas. Foi nessa época que um obscuro capitão se apresentou ao Brasil escrevendo um artigo para a sessão Ponto de Vista da Veja, com o título “O salário está baixo.”
Em seguida vieram Collor, cassado por conta de uma Fiat Elba mal havida (não ria, é verdade!); Itamar, com seu topete e o Plano Real, que garantiu a ascensão e reeleição de FHC. Oito anos depois, Lula, PT e caterva chegaram ao poder. A partir daqui, creio que todos conhecem a história.
Em todo esse período, as Forças Armadas concentraram esforços em distanciar-se da política nacional, construindo uma imagem de competência, profissionalismo e credibilidade junto à opinião pública. Como todos lembram, ainda antes da onda bolsonarista o general Villas Bôas encarregou-se de quebrar essa “regra de ouro”, via Twitter.
Sob as vistas de um punhado de generais de pijama, que um dia acreditaram poder tutelá-lo, o “mito” vem tentando embaralhar com o “seu” Exército as ações e trapalhadas do governo, atiçando a claque ensandecida que sonha com a tal “intervenção militar constitucional”(sic).
As ações de Bolsonaro nesta segunda-feira me fizeram relembrar um costume dos meus tempos de menino, quando se anunciava uma briga na saída do colégio ou no campinho de futebol. A gurizada se aglomerava em torno dos dois ‘desafetos’, empurrando um contra o outro e a expectativa era enorme até que a contenda começasse.
Caso a briga demorasse a iniciar, havia um recurso extremo: um guri traçava com o pé uma linha imaginária no chão, cuspia nela e gritava:
– Quem apagar, sela!
O primeiro brigão que pisasse em cima do cuspe tinha o direito de dar uma bofetada na cara do rival. E estava garantido o “espetáculo”, para êxtase da gurizada daqueles anos 60. Cá entre nós, entre socos, pontapés e rasteiras, nunca assisti estrago maior do que um ou outro olho roxo e o verter de lágrimas raivosas.
Com as ações desta segunda-feira, ao forçar a saída de um chefe militar honrado e de carreira exemplar, Bolsonaro cuspiu numa linha traçada há décadas e, como os guris de minha infância, bradou:
– Quem apagar, sela!
Duvido muito que encontre algum estrelado disposto a desferir o primeiro soco. O papel de garantidoras da democracia é hoje o maior patrimônio das Forças Armadas. Não creio que ele seja jogado na lata de lixo da História para atender os arroubos autoritários de “um mau militar”, como o definiu Ernesto Geisel.
Num momento em que ponderação e bom-senso são atributos de primeira necessidade, o chefe da Nação age de forma tão irresponsável e leviana quanto um menino em briga de colégio.
De todos os erros que praticou até aqui, sem dúvida esse foi o maior. Ao tentar empurrar os militares da ativa para o centro da arena política, o “mito” aposta na convulsão social e começa – agora sim! -a pavimentar o caminho para o impeachment.

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