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O sargento John C. Woods tinha um emprego que o colocaria na história. Ele foi o responsável por preparar as cordas e enforcar os oficiais alemães condenados em Nuremberg

MARCELO ADIFA
Não há quem desconheça os terríveis eventos da Segunda Guerra Mundial e o seu rastro de violência e sangue envolvendo praticamente todas as grandes nações do mundo. Dezenas de milhões de pessoas morreriam nas batalhas, em bombardeios ou após o fim da guerra pela miséria e fome geradas como consequências das disputas. E um dos eventos mais importantes após a rendição da Alemanha, Itália e Japão foi o julgamento dos membros do III Reich pelo tribunal internacional de Nuremberg.
Aprisionados, os membros da cúpula alemã precisavam ser julgados rapidamente. Os aliados temiam que existisse pressão pela sua libertação ou algum tipo de veneração pelas suas ideias, além da dificuldade em se estabelecer uma prisão internacional que congregasse os responsáveis pelos mais terríveis crimes que a humanidade conhecera.
Com a aproximação do fim da Segunda Guerra, Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética passaram a discordar dos rumos que deveriam dar aos prisioneiros de guerra e da forma como os dirigentes nazistas deveriam ser tratados. Em parte, tinham receio que acontecesse o mesmo que ocorreu na Primeira Guerra, em que o tratado de Versalhes (1919) primava pela entrega de 900 alemães, incluindo o Imperador Guilherme II, e que nunca foi cumprido.
Durante a conferência de Teerã, realizada em novembro de 1943, o líder soviético Josef Stálin propôs a adoção de uma solução política rápida e eficiente: a execução sem julgamento de 50 mil oficiais e técnicos alemães como sendo suficiente para exterminar qualquer aparato militar do eixo e reprimir manifestações ou focos de apreço ao nazismo na Europa.
Essa solução foi referendada pelo americano Henry Morgenthau, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, mas foi repelida por Churchill. Decidiram então julgar os principais líderes nazistas com direito à defesa feita por advogados alemães, assim como as instituições que os abrigaram, como o Partido Nazista, as SS, Gestapo, e o comando da Wehrmacht, as forças armadas da Alemanha.
A escolha por Nuremberg para sediar o tribunal internacional se deu por um motivo simples; era uma das poucas cidades em que o prédio do tribunal do júri e o da cadeia pública estavam intactos, permitindo uma estrutura mínima de manutenção, transferência e julgamento dos presos.
Foi adotado o sistema judiciário anglo-saxão, com a convocação de juízes dos países vencedores da Guerra, descartando-se alemães – ainda que não alinhados com o nazismo – e de países que se mantiveram neutros. Obviamente, não era pra ninguém ser inocentado.

Oficial alemão sendo julgado em Nuremberg

A escolha do carrasco e a preparação das cordas para o espetáculo
Quando os Estados Unidos passaram a procurar por um carrasco entre os seus soldados, logo apareceu como voluntário o Sargento John C. Woods, alguém com especial apreço para a morte e que chegou a mentir que tinha experiência em julgamentos e execuções em território norte-americano para garantir a vaga. Woods já estava trabalhando no ofício passando a corda pelos pescoços dos seus próprios conterrâneos antes de aceitar o trabalho em Nuremberg.
Woods primeiro ingressou na marinha americana, isso em dezembro de 1929, logo sendo condenado em uma corte marcial por crimes menores e diagnosticado com uma psicopatia. Em agosto de 1943, com os esforços de guerra, seria novamente admitido nas forças armadas, desta vez no Exército, onde logo pleiteou – como se fosse uma honraria – o posto de carrasco.
Com o início de enforcamentos de soldados americanos condenados por crimes de guerra e das sentenças a criminosos comuns capturados pelos aliados, Woods foi aumentando o seu cartel de trabalhos bem sucedidos. Há registros que apontam que ele participou do enforcamento de 34 soldados americanos em vários pontos da França e auxiliou ao menos três outras execuções entre 1944 e 46, também teria participado da morte de 45 criminosos de guerra em Rheinbach , Bruchsal , Landsberg e Nuremberg, seu trabalho mais famoso. O jornal The New York Times, em um artigo de 2007 chega a estabelecer que ele teria praticado 347 enforcamentos bem sucedidos, número que não pode ser comprovado.
Responsável por cumprir a sentença a onze homens, seu trabalho limitou-se a dez prisioneiros. O décimo primeiro cometeu suicídio na prisão com uma cápsula de cianureto que ninguém até hoje explicou como foi entregue a ele.
As pessoas que foram chegando às mãos de Woods era horríveis, alguns dos maiores criminosos de guerra de todos os tempos, mas, segundo as leis internacionais, deveriam morrer de forma rápida. Não foi, porém, o que o sargento lhes garantiria. Responsável por preparar todo o cenário dos enforcamentos, incluindo as cordas, seus nós e os alçapões, John C. Woods reduziu o tamanho da entrada dos alçapões, o que fez com os corpos em queda chocassem-se com a madeira provocando ferimentos, e deu nós extras às cordas encurtando o seu tamanho habitual o que atrasou a morte dos executados. O que deveria ser imediato chegou a levar dezoito minutos, como no caso do General Alfred Jodl e vinte e quatro minutos como no caso do marechal Wilhelm Keitel.
Os corpos, sob identidades falsas, foram levados até um cemitério em Munique e incinerados, junto as cordas que os enforcaram, com as cinzas sendo lançadas no Rio Isar que atravessa a capital da Baviera. Os aliados não queriam nenhum vestígio dos corpos ou dos instrumentos que os levaram à morte.
O Sargento John C. Woods, conhecido mundialmente como o carrasco de Nuremberg, morreria jovem, em 21 de julho de 1950 enquanto servia nas Ilhas Marshall. Ele foi eletrocutado ao tentar consertar uma torre de iluminação. Seu corpo está enterrado em Kansas, onde é alvo de visitação pública.
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BRASILDRUMMOND/montedo.com

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