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Em junho de 2019, um sargento da Aeronáutica brasileira foi detido no aeroporto de Sevilha, na Espanha, por transportar 39 kg de cocaína em sua bagagem.

Andréia Sadi e Arthur Guimarães
Iniciado em janeiro do ano passado, o processo judicial militar que investiga o tráfico de drogas em aviões da FAB segue em marcha lenta. O último andamento relevante foi registrado em agosto do ano passado.
Já são agora quase seis meses em que uma disputa técnica travada entre o Ministério Público Militar, a Justiça e os advogados não permite que o caso tenha prosseguimento. Tudo gira em torno da possibilidade de os promotores militares incluírem mais duas testemunhas no processo. Por conta do embate, o caso chegou a ser suspenso por ordem de instâncias superiores.
Na fase de inquérito, a Justiça Militar ouviu pelo menos 37 pessoas na investigação que apura o tráfico de 39 kg de cocaína por um sargento do GSI em avião da FAB, em junho de 2019.
Segundo o blog apurou, entre as pessoas ouvidas, estão quatro militares do GSI, que prestaram depoimento como testemunhas. Três estavam diretamente ligados à missão e foram para a Espanha no dia da prisão. Um quarto, o tenente coronel Piovesan, ficou no Brasil mas, de testemunha, virou investigado. Hoje, foi alvo da operação da Polícia Federal.
Ao ler os depoimentos e a investigação feita pelas Forças Armadas, ficam claras várias falhas na fiscalização e no controle de bagagens. Mesmo assim, a apuração, ao que se tem notícia, não chegou a responsabilizar militares de alta patente pelas omissões administrativas.
Uma das testemunhas, o major Benini, é do GSI e um dos seis subordinados diretos da equipe do coronel Eduardo Alexandre Bacelar, diretor do departamento de coordenação de eventos, viagens e cerimonial do GSI. Após a polícia espanhola achar a droga, Benini é chamado para acompanhar a situação. Um outro militar, de alta patente, é chamado para também ajudar ali na hora. É o tenente coronel Luís Rosal, também do GSI e subordinado diretamente ao Bacelar.
O piloto da aeronave, Cláudio da Costa Silva, também faz parte, até hoje, do GSI.
No processo, ainda há um quarto: o tenente Coronel Piovesan. Ele encontrou a ex-mulher do sargento preso no dia da apreensão na Espanha. Era tido como amigo próximo do sargento preso e, de acordo com outros militares ouvidos, dava benefícios para o sargento durante o trabalho. Ele chegou a ser investigado, mas o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, pediu o arquivamento parcial dos autos sobre Piovesan. Após a revelação do caso, ele foi exonerado da equipe do GSI. Aos olhos da PF, no entanto, ele segue suspeito e foi alvo de um mandado de busca hoje.
Nos documentos, os investigadores anotam que “dos depoimentos, um fato mostrou-se incontroverso: o investigado (sargento Manoel) tinha estreita amizade com um oficial do Gabinete de Segurança Institucional- o tenente Coronal Alexandre Piovesan”.
Uma das testemunhas disse no inquérito considerar o sargento Manoel um “peixe” porque ele se dava bem, principalmente, porque afirmava ser amigo do TC Piovesan e que acreditava que o investigado tivesse informações antes dos demais sobre voo porque o investigado dava “os briefings sobre inteligência antes dos voos, com as vulnerabilidades dos destinos dos voos, inclusive sobre drogas”.
Em outro trecho, outra testemunha disse não saber informar quem era o responsável por conferir quem pesou ou não as bagagens. E “que acredita que alguém da Presidência deveria fazer esse papel”.
Ao ler os depoimentos e a investigação feita pelas Forças Armadas, ficam claras várias falhas na fiscalização e no controle de bagagens. Havia uma ordem para que todos os militares pesassem as malas, por exemplo. Mas a norma não foi cumprida. A bagagem com cocaína, por exemplo, ficou de fora desse procedimento. E ninguém fiscalizou essa omissão.
Apesar de a rotina militar ser envolta em regras rígidas, no dia da viagem houve uma “bagunça” no embarque, como disse um envolvido no caso. Até o namorado de uma militar, civil, conseguiu entrar na aeronave antes da decolagem sem ter autorização, nem ter passado por revista. Mesmo assim, as investigações internas da Aeronáutica, ao que se tem notícia, não chegaram a responsabilizar militares de alta patente pelas falhas administrativas.
Peça fundamental das investigações, as informações de um celular Iphone apreendido com o sargento preso na Espanha até agora não foram enviadas para o Brasil, mesmo após mais de um ano e meio. O que o sargento sabe sobre o caso também não foi esclarecido. Inicialmente, no dia da prisão, ele não quis se pronunciar. Posteriormente, ele afirmou não poder dar detalhes sobre quem o contratou, por temer represálias contra sua família no Brasil. Disse apenas que deveria ir até um lugar pré-combinado em Sevilha, onde uma pessoa o reconheceria e o abordaria, para pegar a droga. Ele argumentou não saber quem seriam os destinatários da encomenda.
À TV Globo, Piovesan disse na semana passada que é inocente. E que sua “função na Presidência da República era institucional e não política, independente de quem seja o Presidente, independente de viés político, de cor, de raça, de ideologia ou de partido político”.
Disse ainda que “Estava na Presidência da República desde o Governo do Presidente Michel Temer, não estava lá ocupando cargo político, apenas representando a Força Aérea nos assuntos técnicos em relação aos deslocamentos aéreos nacionais e internacionais do Presidente da República.
Procurada, a assessoria do GSI afirmou que “pela simples razão de não ter qualquer participação no fato investigado, não ter sido o responsável pela instauração e, muito menos, pela condução do inquérito sobre o tema, apenas informa que a apuração está nas esferas da Justiça Militar e do Ministério Público”.
G1/montedo.com

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