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Major brasileiro enfrentou o maior surto da doença da história e acompanhou como um país se viu livre da ameaça

Marcelo Godoy e Paulo Beraldo
Era 13 de março de 2014 quando as autoridades da Guiné notificaram à Organização Mundial da Saúde (OMS) a existência de casos suspeitos e inexplicáveis de febre hemorrágica na região de Nzerekore. Oito dias depois um laboratório confirmava o que estava por trás do mistério: o vírus ebola. No dia 31, a Libéria confirmou o primeiro caso da doença. Cinquenta dias depois foi a vez de Serra Leoa. O que se seguiu foi o maior surto da história da doença, que atingiu dez países em três continentes, com casos nos Estados Unidos e na Europa, e que deixou 11.323 mortos após infectar 28.643 pessoas. Ao todo, 6 mil crianças perderam o pai, a mãe ou ambos. Foi no meio desse pandemônio que o major Ivan Werberich foi trabalhar como capacete azul das Nações Unidas.

Entrevista com o Major Ivan

Foi preciso investir US$ 1,1 bilhão antes de a OMS dizer em dezembro de 2015 que o surto de ebola havia terminado. Werberich trabalhava na Unmil, a força de paz que buscava estabilizar a Libéria, depois que o país foi quase destruído por duas guerras civis. “Fui nomeado para a missão em 2014, justamente quando começou o ebola no país.” O militar lia as notícias sobre a letalidade do vírus, que chegava a matar 70% dos infectados. “Em duas semanas ou você tinha falecido ou sobreviveria ao vírus.” Ele recebia ainda notícia de colegas brasileiros que estavam na força de paz quando a crise começou. “Eu me preparava espiritualmente, e minha família ficava bem apreensiva pelas coisas que eu ia enfrentar lá.” Casado, o militar tem duas filhas que, na época, tinham seis e três anos.“Elas só sabiam que eu iria me ausentar por muito tempo.”
Filho de um capitão do Exército, Werberich pertence a uma geração de militares brasileiros que se preparou no Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (Ccopab), no Rio. Ali recebeu instruções sobre o ebola e como fazer a profilaxia contra o vírus e outras doenças endêmicas na África. “Tomei umas vinte vacinas antes de embarcar para evitar todo tipo de doença. Depois ainda me deram remédio contra malária, protetor solar e repelente”, afirmou. Durante a epidemia, a ONU distribuíra aos militares da força de paz da Libéria água potável, filtros, luvas e máscaras. E, principalmente, orientou a todos como acontecia o contágio. Mesmo assim, três de seus homens morreram infectados pelo vírus.
Quando o dia do embarque chegou, o major levava na bagagem até uma rede contra mosquitos que o Exército lhe entregou. O embarque foi no dia 23 de março, em São Paulo para Casablanca, no Marrocos. Ali apanhou um Boeing 737 para Monróvia, a capital da Libéria. Naquele momento, o ebola já havia matado cerca de 10 mil pessoas na África Ocidental. O total de casos da doença estava em cerca de 25 mil. A quantidade de novos casos diminuía semana a semana e a doença já havia desaparecido do Senegal e da Nigéria, que também haviam sido atingidos pelos vírus. Por fim, 3 mil militares americanos haviam desembarcado na Libéria para combater a doença, montando hospitais de campanha e tratando dos doentes.

O major Ivan no helicóptero da ONU ao lado de dois militares jordanianos da força de paz ARQUIVO PESSOAL

Ao desembarcar na Libéria em 24 de março, o major logo teve contato com os procedimentos tomados pelo país para enfrentar a ameaça do vírus. Primeiro, tomaram-lhe a temperatura na descida do avião. Outro procedimento obrigatório era lavar as mãos em uma solução de água e cloro. O controle de entrada na Libéria era indistinto – pouco importava de onde vinha o passageiro. Todos tinham de passar pelo mesmo procedimento. “O país já estava adaptado ao protocolo. Tudo o que agora está sendo feito contra a covid-19 eu já havia conhecido de forma muito mais intensa.”
Para se entrar em qualquer loja era obrigatório o uso do álcool em gel ou da solução de água e cloro. Também mediam a temperatura dos clientes e o distanciamento social foi adotado com intensidade no país, pois entre as pessoas era a única forma de transmissão do vírus.
Werberich era esperado no aeroporto por um brasileiro que foi buscá-lo e levá-lo ao quartel da ONU, onde recebeu novas instruções e treinamento sobre a missão. “Eu havia estado antes no Haiti e vi que a infraestrutura da Libéria era melhor do que a do Haiti. Era visível que o país estava se reestruturando.” E assim ele ficou na capital por mais três semanas até que designaram-no para um posto no epicentro da epidemia, o condado de Lofa, no norte do País, na fronteira com a Guiné. “Havia um costume local, que era a lavagem dos corpos antes do enterro, que contribuiu muito para a propagação da epidemia. Eram os parentes que preparavam o morto e assim o vírus dizimava as famílias.”
Ao mesmo tempo que os velhos costumes tribais precisaram ser abandonados, outros foram adotados, como o cumprimento com os cotovelos. “O vírus não se transmitia pelo ar. Era mais fácil de controlar.” Antes de deixar a capital, Werberich viu os hospitais de campanha que tratavam dos pacientes com ebola e comprou um colchão. Amarrou-o bem em uma sacola para levá-lo consigo, pois sabia que na cidade de Voinjama não encontraria nada semelhante. “Embarquei com ele no helicóptero que nos levou.” O transporte aéreo durante a estação chuvosa era o único meio seguro para se chegar ao norte, ligado à capital por uma estrada de terra. Com o brasileiro ia um militar paquistanês, com quem iria conviver na base da missão. Ao chegar a Voinjama, percebeu que a capital de Lofa seria considerada no Brasil um vilarejo. Tudo lhe parecia precário. O comércio era feito em tendas e os mais idosos acreditavam que o ebola era uma invenção, uma mentira. “A maioria da população acreditava, mas até mesmo no caso do ebola havia quem negasse a existência do vírus. Não é só na covid-19.” E o major logo compreendeu que uma das novas funções de sua missão era dizer às pessoas que o vírus era real.
“Tínhamos de dizer que as medidas de profilaxia deveriam ser mantidas. Distribuíamos kits, folders e baldes com clorin para que fosse feita a limpeza das mãos e para evitar o contágio. Diversas vilas e vilarejos não tinham acesso a essas informações.” Havia lugares cuja população havia sido dizimada pela doença. Outras vilas cujos moradores buscaram refúgios em outros povoados, deixando tudo para trás para fugir da violência e da rapidez do vírus. “Entrava em uma vila com oito, nove casas e todas elas vazias, sem ninguém morando. Encontrei várias vilas assim. E vi o quão devastador foi a doença para o interior.”

Vilarejo visitado pela patrulha do major Ivan durante o combate ao ebola ARQUIVO PESSOAL

Entrava em uma vila com oito, nove casas e todas elas vazias, sem ninguém morando. Encontrei várias vilas assim.E vi o quão devastador foi a doença para o interior.
Ivan Werberich, major

O major foi logo designado para fazer patrulhas no entorno de Voinjama. Teve como companheiro na viatura Nissan Patrol da ONU o oficial paquistanês com quem viajara desde Monróvia e um guia local, que falava o dialeto do lugar. No caminho do vilarejo que buscavam, o guia alertou os dois militares que estavam passando por uma das vilas dizimadas pelo ebola. Werberich e o paquistanês perguntaram ao guia se podiam parar. Queriam descer e observar o lugar. Havia nove casas de pau a pique no lugar e telhados de palha. Todas vazias. Utensílios domésticos, como panelas, haviam sido deixados para trás pelos moradores. O major entrava nas casas sem tocar em nada. Parecia que a qualquer momento os moradores reapareceriam. O terreno no entorno era cercado por uma mata tropical. “Aqui todos faleceram. Não sobrou ninguém” disse o guia.

O colchão levado pelo major Ivan para seu posto no interior da Libéria ARQUIVO PESSOAL

Os observadores da ONU deixaram o lugar e rumaram para a vila seguinte, que tinha um conjunto de 15 casas, também feitas de barro e palha. Os militares procuraram o chefe do lugar, pois queriam sua autorização para distribuir os panfletos e o material de higiene contra o vírus. “O chefe da aldeia, normalmente, era a pessoa com mais instrução ou que sabia de todas as informações do lugar. Se era uma pessoa mais velha, usávamos o intérprete para nos comunicar. Eu sou loiro e pareço um militar europeu. Mas usava a bandeira do Brasil no braço. Quando descobriam de onde eu vinha, eles perguntavam se havia outros brancos no Brasil.” Ali também havia mais histórias de luto e dor. Werberich conheceu um pai que estava cuidando das duas filhas depois de ter perdido a mulher – mãe das crianças – na epidemia.
“É a imagem que, por mais que esteja preparado, ver isso tudo in loco deixa você chocado e você se envolve emocionalmente com aquela situação. A ideia que você tem é de que se eu puder ajudar, vou ajudar, vou fazer o que puder para confortar esse povo.” E, assim, o trabalho como observador militar do major e de seus colegas para verificar o cumprimento do acordo de paz se transformara em um trabalho humanitário. “Éramos os olhos e ouvidos da ONU no interior, buscávamos sempre a conciliação. Tínhamos de estar desarmados para que ficasse claro que não estávamos ali para tomar partido de A, B ou C”.
“Houve situação de mãe que perdeu quatro filhos e de crianças que estavam com tios, pois os pais morreram de ebola.” Weberich sentava em bancos de madeira da aldeia e se reunia com os moradores para começar a passar as instruções. Também anotava os pedidos dos moradores, quase todos relacionados com o abastecimento de água das aldeias. Muitas contavam com poços artesianos abertos por agências ou organizações não governamentais que trabalhavam com as Nações Unidas, mas o sistema de sucção da água pifara ou o nível dela havia abaixado, inviabilizando o poço. Os observadores preenchiam relatórios sobre o problema e informavam ao quartel-general. “O restante de alimentos eles cultivavam e carnes tinham de bode, de galinha. Alimentos eles plantavam e conseguiam, pois a terra era fértil e era fácil plantar e colher.”

Casas abandonadas no interior da LIbéria: população foi devastada pelo ebola ARQUIVO PESSOAL

ESTADÃO/montedo.com

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