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Ministro da Saúde está cada vez mais provocando reações entre os colegas por sua gestão na Pasta; Pazuello produz rara unanimidade, que une petistas a ex-bolsonaristas

Marcelo Godoy
Caro leitor,
Há muito silêncio em Brasília. Não faz muito tempo, um general da ativa, depois de ouvir mais uma crítica de Santos Cruz ao governo, afirmou à coluna: ‘Ele não coloca nem dez homens em forma (nos quartéis)”. A opinião do colega sobre as críticas do general da reserva ao capitão Jair Bolsonaro ilustrava um momento em que o comando da Força Terrestre sentia-se confortável para dizer que o governo não contaminaria sua imagem, dissociando-se das trapalhadas presidenciais. Era o tempo em que se tinha como certo que a lealdade e, principalmente, os ganhos obtidos pelas Forças Armadas na atual gestão seriam suficientes para conter qualquer tipo de descontentamento na tropa ou daqueles da reserva.
Mas o governo Bolsonaro insiste em tornar as coisas difíceis – e não só para os civis. Passou despercebida na semana passada mais uma trapalhada do capitão: sem alarde, ele tentou mudar a forma de promoção dos coronéis do Exército por meio do decreto 10.563, publicado no dia 7. Acabava a promoção por tempo de serviço e mantinha-se apenas aquela motivada pelo mérito, que para alguns podia significar uma forma “mais política” e, talvez, subjetiva para compor os futuros quadros de acesso.
Algo não caiu bem dentro da tropa. Em três dias, o decreto estava cancelado por outro, o de número 10.567. Situação igual esse governo de militares só vivenciou quando os generais do Planalto colocaram os pés pelas mãos e resolveram dar asas fixas ao Exército, provocando o repúdio da Força Aérea. Ambas as medidas tinham em comum o fato de serem estudadas há muito tempo. Mas parece que alguém quis tomá-las sem uma reflexão de sua viabilidade atual. Ninguém pensou que o fim da promoção por antiguidade dos coronéis podia ser mal interpretado? Há sempre os que poderiam enxergar na medida uma manobra de generais comprometidos até a medula com o atual governo para aumentar seu controle sobre os oficiais superiores.
Se todos sabem que percepções mudam com o tempo, por que se publicou o decreto para revogá-lo dias depois? O silêncio entre os militares foi notável. Há muitos silêncios ultimamente. E este, talvez, nem seja o pior. Há o silêncio sobre o gênio da logística, o general Eduardo Pazuello, aquele que era para ser ministro interino, virou titular e não consegue, desde então, fazer uma licitação para comprar seringas. O intendente que abaixa a cabeça para o capitão e obedece às suas ordens quer inundar o país com cloroquina em vez de vacinas para o desespero dos brasileiros que querem se imunizar, vencer o vírus e voltar à vida anterior à pandemia. E, depois, vai reclamar do que fala o ministro Gilmar Mendes…
Pazuello e seu chefe podiam ter assinado compromissos de compra com vários fabricantes de vacina há meses, mas preferiram brigar com quem achava a doença um problema sério. Agora os brasileiros estão condenados ao fim da fila. As mortes dos “maricas” se avolumaram – e vão continuar -, sem que os dois se dessem conta de que eles eram brasileiros. Além de politizar a pandemia – ainda que governadores tenham feito o mesmo -, Bolsonaro agiu como um capitão de artilharia que resolve não disparar seus obuseiros para apoiar a infantaria porque acha que os infantes devem ser corajosos o suficiente para lidar com as metralhadoras inimigas de peito aberto. Qualquer militar saberia qualificar esse tipo de comportamento em um campo de batalha, mas parece que, no Planalto, considera-se que civis brasileiros merecem menos proteção do que soldados em combate.
“O vírus ‘amarrou’ a metralhadora”, disse um coronel. Ele explica que amarrar uma metralhadora é certificar-se da direção de seus disparos. Sem vacina, marchamos em direção ao inimigo, que se abriga em casamatas não detectadas. E Bolsonaro pouco se importa. Pazuello foi o único a falar na semana passada. Conversou com governadores e disse que, se houvesse necessidade, compraria vacinas… E o general conseguiu a proeza de se fazer ouvir até por quem guarda o silêncio. Um de seus colegas – antigo apoiador do governo – enfureceu-se. Acusou generais do governo de se manterem lá por “conveniências pessoais”. Em vez de objetivos nacionais permanentes, disse, haveria no governo objetivos pessoais permanentes, entre os quais o de acobertar os filhos de Bolsonaro.
Seria bom os Hospitais das Forças Armadas contarem aos brasileiros como estão tratando os militares que são acometidos por covid-19. Quantos de seus pacientes receberam cloroquina e quantos receberam a combinação de neoloratidina, novalgina e prednisona, como um antigo general do governo foi tratado da doença? Por que, para os brasileiros comuns, incentiva-se o uso de um placebo e procura-se desacreditar vacinas, quando próceres do governo são tratados conforme recomendações de cientistas internacionais? O que isso significa? Por fim, após as denuncias de uso da Abin para ajudar a defesa de Flávio Bolsonaro, acusado de peculato e organização criminosa, o general questionou: “O que faz o general Heleno no governo?”
E concluiu que o general Ramos, ministro-chefe da secretaria de Governo, devia parar de “atrapalhar Bolsonaro com suas bobagens”. Quando as baterias se voltam contra Ramos, pode-se ter a dimensão de como o silêncio parece estranho. O general, que fora chamado pelos olavistas de “sabotador-geral da República”, é o amigo que Bolsonaro não abandona. Enquanto dizia no Twitter continuar com os mesmos “valores e amor total ao Brasil”, visitava pela enésima vez a Academia das Agulhas Negras, renovando na memória dos cadetes o espetáculo de um governo que insiste em fazer a política entrar nos quartéis – há uma diferença entre prestigiar cerimônias e instrumentalizá-las politicamente com a presença constante do chefe de Estado, candidato declarado à reeleição.
Ramos pode acreditar que tudo o que se escreve é maledicência da imprensa. Pode considerar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco um centro de esquerdistas – e desconhecer a história paulista. Pode olhar o tuíte de Tarso Genro sobre o general Santos Cruz e pensar: “Quem se opõe ao governo faz o jogo da esquerda”. Genro escreveu, depois de ouvir a última entrevista do ex-ministro: “Gen Santos Cruz indica por que foi expelido pelo governo genocida, mantendo intacta sua honra militar: ‘vacina é para vacinar toda a população, não para fazer política contra adversários’.” Não deveria haver espanto na concordância de Genro com o general. Mas vivemos em um tempo em que afirmar o óbvio parece revelar segredos e causar escândalo.
Enquanto o presidente se divertia expondo a própria roupa no Planalto ou dirigindo um Camaro e o ministro Pazuello ia a uma confraternização com Zezé di Camargo, a turma bolsonarista espalhava pelo whatsapp as 94 páginas do “plano de vacinação do Ministério da Saúde”. Muito militar recebeu o documento para tranquilizá-lo sobre as ações do governo. Deviam se dar ao trabalho de abrir e ler o papel. Iam verificar que ali não constava prazo algum para a vacinação começar. Nem as assinaturas do plano eram todas corretas – teve gente com o nome incluído sem ser consultado ou saber do que se tratava. E isso tudo em documento encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, uma Corte que não se devia desrespeitar ou enganar.
Tudo parece muito esforço na fivela, aquela mania de fazer um documento com capa bonita para ver se impressiona… Mas o truque não deu certo. Pazuello terminou o fim de semana intimado pelo ministro Lewandowski, do STF. Escreveu o ministro: “Intime-se o Senhor Ministro de Estado da Saúde para que esclareça em 48 (quarenta e oito) horas, qual a previsão de início e término do Plano Nacional de Operacionalização da vacinação contra a Covid-19, inclusive de suas distintas fases”. É a primeira intimação que o ministro recebe. Do jeito que vão as coisas, talvez, não seja a última. E antes que algum general do governo fique indignado com mais essa ação do STF, seria melhor manter o silêncio. Em respeito aos mortos.
ESTADÃO/montedo.com

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