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Reinaldo Azevedo
Colunista do UOL

A conversa entre o comandante do Exército, Edson Leal Pujol, e os ex-ministros Raul Jungmann e Sérgio Etchegoyen, ocorre dois dias depois de o presidente Jair Bolsonaro ter ameaçado os EUA com… pólvora. Ainda que o Brasil fosse uma potência militar planetária, o que não é, conviria pensar duas vezes.
Segundo o comandante do Exército, as nossas Forças Armadas mal conseguem dar conta de fazer a vigilância do território nacional, embora não exista nenhum país no continente que ameace a sua integridade.
O ministro defendeu um aumento do efetivo das Três Forças. Segundo disse, temos um dos menores contingentes militares do mundo caso se considerem o tamanho do território e o patrimônio a ser protegido:
“Somos uma reserva de alimentos para as próximas décadas e de água e minerais estratégicos que serão necessários para a humanidade.”
Ele não se limitou a tratar da precariedade do Exército. Lembrou, por exemplo, que o Brasil tem menos caças do que nações europeias que são menores do que alguns dos nossos Estados:
“Estamos muito aquém do que o Brasil precisa para que as Forças Armadas cumpram suas missões constitucionais”.
Também lembrou que a Marinha não dispõe de veículos para monitorar todo o mar territorial brasileiro.
Indagado por Jungmann sobre a Amazônia, o general lembrou que tem havido um deslocamento crescente de forças para a região. Disse:
“O Brasil sempre se colocou, e nós, militares, sempre pensamos que a Amazônia é nossa. Não podemos abrir mão. O que preservamos dela nesses 500 anos é incomparavelmente superior ao que aconteceu em outros continentes.”
Citou o caso de países europeus que conservam menos de 1% de sua cobertura vegetal original — isso não conta o reflorestamento. Sim, é verdade! Na Holanda, por exemplo, nada há da mata original. É preciso tomar cuidado com o modo de usar esse argumento.
Na boca do bolsonarismo, tem soado como licença para queimada e desmatamento. O general sabe muito bem que dificilmente haverá uma ocupação da Amazônia por potências estrangeiras. Sem uma atuação decente na preservação do meio ambiente, haverá desocupação de investimentos… É esse o problema — além do risco de retaliação na área comercial.
As Forças Armadas, é verdade, são escaladas para operações que, a rigor, nada têm a ver com sua função original. Integram, por exemplo, as operações de Garantia da Lei e da Ordem; a Operação Covid e a Operação Verde Brasil, de preservação do Meio Ambiente. Desde 1998, está em curso a Operação Pipa, que distribui água potável no semiárido. Afirma o general:
“O problema começa lá pela previsão da Constituição. Nosso principal negócio é a defesa da pátria, mas o nosso emprego tem sido fundamental para cumprir outras missões e a necessidade da nação brasileira. (…) Temos preocupação de que a Operação Verde Brasil se transforme em outra Operação Pipa, em que o Exército está sendo empregado de forma emergencial desde 1998.”
Pujol endossa a proposta de Hamilton Mourão, vice-presidente, segundo quem o país precisaria contar com uma Guarda Nacional Florestal. Sabe, no entanto, que isso pede um dinheiro que inexiste. O mesmo dinheiro que falta para o aumento do efetivo. E, pior, a grana minguou. Segundo o comandante do Exército, o Orçamento da Defesa em 2012 foi de R$ 19 bilhões, caindo para R$ 10,1 bilhões em 2019. No ano que vem, será de R$ 11,7 bilhões.
Teremos de esperar um pouco, pelo visto, para um mano a mano com o Império do Norte.
As Forças Armadas participam da vida dos brasileiros mais do que imaginamos. Só a Operação Covid mobiliza 28 mil homens. A ação contra o desmatamento, outros cinco mil. Nada menos de dois mil estão envolvidos com a distribuição de água.
Um país com as dimensões do Brasil, com o seu patrimônio natural, suas áreas agriculturáveis, sua água, seus minérios, pede um contingente militar capaz de fazer a vigilância e defesa do território.
Por isso mesmo, as tropas têm de ficar longe da política. Assim vinha sendo. Infelizmente, o presidente Jair Bolsonaro decidiu confundir sua pantomima pessoal com as Forças Armadas. Gente como Pujol sabe como isso é arriscado. Infelizmente, há também entre os fardados quem comungue da fantasia de que governa quem tem armas.
É o caminho certo para o desastre. Tão logo Bolsonaro vá para casa, as Forças Armadas restarão com um peso enorme nos ombros. O trabalho heroico de 28 mil homens envolvidos no combate à doença será tragado pela memória de um general constrangido — refiro-me a Eduardo Pazuello —, desautorizado e desmoralizado a dizer: “Um manda, e o outro obedece”.
UOL/montedo.com

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