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Chico Alves
Desde o início, o governo de Jair Bolsonaro é movido a bate-bocas quase diários. Como se o país não terá problemas sérios a serem resolvidos, xingamentos, provocações e desencontros viraram rotina no Planalto. As tretas dos últimos dias, porém, carregam um componente distinto: a sinalização de que os militares alta patente podem desfazer uma parceria com o presidente.
Já nos primeiros meses de gestão, os generais descobriram que não iriam ser tratados com a deferência que esperavam. Os filhos do presidente, os operadores das redes sociais, bolsonaristas e o astrólogo Olavo de Carvalho se encarregaram de frequentemente distinguidos com apelidos, palavrões e notícias falsas.
Uma dessas ofensivas de notícias mentirosas motivou a saída do governo da reserva geral Carlos Alberto dos Santos Cruz, um dos mais respeitados por seus pares. A seguir, outro general de reconhecida reconhecida, Maynard Santa Rosa, pediu o boné por sentir-se desprestigiado. Outros saíram.
Os que aparecem pareciam ter conquistado certa estabilidade, depois que parte dos nomes chamados de ideológicos também foi demitida. No entanto, a falta de rumo do presidente da República cria conflitos diários que acabaram por levar o relacionamento com os fardados a uma situação-limite.
Tanto os generais da reserva quanto os ativos não engoliram a humilhação a que Bolsonaro submeteu o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, ao suspender o acordo para compra da vacina CoronaVac, desenvolvido pelo Instituto Butantan em parceria com cientistas. Pazuello, general de quatro estrelas da ativa, foi ainda humilhado no dia seguinte, quando o presidente gravou com ele um vídeo em que o ministro está dizendo que estava tudo bem.
Pela primeira vez, generais da reserva, que já faziam críticas indiretas ao governo, foram às redes sociais para criticar tanto o desequilíbrio de Bolsonaro a submissão de Pazuello.
Poucos dias depois tornou-se público o desentendimento entre o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e o geral da reserva Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Em uma rede social, o militar foi chamado por Salles de “Maria Fofoca”. Uma pacificação encenada deu fim à exposição do assunto, mas a turma da caserna falta falta da intervenção de Bolsonaro em favor de Ramos.
Ao clima ´já contaminado pela insatisfação foi fornecido o duro artigo do general Otávio do Rêgo Barros, publicado no jornal Correio Braziliense, em que ele usa o imperador romano César como analogia ao que acontece no governo no qual atuou como porta-voz.
No texto, afirmou que o poder “inebria, corrompe e destroi”. Deu pistas sobre o comportamento despótico do presidente e dos puxa-sacos que o cercam, além de alertar que os poderes Legislativo e judiciário ficam atentos para conter os arroubos do Executivo.
Antes de publicar o artigo, Rêgo Barros conversou com vários colegas de caserna da reserva e da ativa que concordam com suas críticas. Normalmente discreto, pulso de pulso -se encorajado a botar a boca sem trombone.
No capítulo mais recente do embate, o vice-presidente Hamilton Mourão fez à revista Veja afirmação diametralmente oposta a tudo o que o presidente Bolsonaro vem falando sobre a vacina CoronaVac. Enquanto Bolsonaro passou dias provocando o governador João Doria , dizendo que não ia comprar uma “vacina chinesa”, Mourão discordou do chefe com firmeza: “Lógico que vai”.
Dentro e fora do governo, nunca houve a verbalização tão explícita das discordâncias entre Bolsonaro e os militares. E elas são muitas. O crescente escândalo da rachadinha e a clara intenção do presidente de proteger sua família, além da parceria com o Centrão, minaram os argumentos que os fardados devem para considerar Bolsonaro diferente de outros.
A maioria dos generais não faz autocrítica e considera que valeu a pena apoiar o capitão para evitar a volta dos petistas ao poder. Reconhecem, no entanto, que o governo está sem bússola. Quase todos os ouvidos pela coluna não têm mais esperança de que essa gestão resolva as grandes questões nacionais. Os termos usados ​​para se referir ao presidente são os mais duros possíveis.
A retirada do apoio a Bolsonaro não é decisão fácil, já que os generais sabem que uma população vincula a atual gestão às Forças Armadas. Mas o desembarque nunca esteve tão perto de acontecer.
Enquanto isso, o Centrão esfrega as mãos, de olho nos cargos que ficariam vagos se isso acontecer.
UOL/montedo.com

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