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Presidente convidou número 2 do Exército para lugar de Onyx, que deve ir para a Cidadania

Igor Gielow
SÃO PAULO

A ala militar da gestão Jair Bolsonaro consolidou a retomada do prestígio no governo com a decisão do presidente de convidar um general para substituir o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS) na chefia da Casa Civil.
A opção, por outro lado, gerou desconforto entre alguns membros da cúpula do Exército preocupados com o que consideram excessiva identificação com o governo.
A Folha antecipou o convite de Bolsonaro a ​Walter Souza Braga Netto, 62, que ocupa o segundo principal posto do Exército, a chefia do Estado-Maior. Após reunião com o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, ele sinalizou que aceitará o cargo.
Como não houve um anúncio formal por parte do Palácio do Planalto, contudo, fica em aberto a possibilidade de alguma mudança de planos.
Braga Netto, que em 2018 passou dez meses como interventor federal na segurança pública do Rio de Janeiro, resistiu inicialmente ao convite de Bolsonaro. O Planalto, porém, trabalhava com a sinalização de que ele iria aceitá-lo.
Segundo oficiais-generais ouvidos pela Folha, houve um movimento discreto por sua permanência no cargo.
Auxiliares do presidente no Planalto sugeriram que, se Braga Netto não aceitasse, poderiam ser convidados ou o general Antônio Miotto (Comando Militar do Sul) ou o almirante Flávio Rocha (1º Distrito Naval).
Embora não carreguem o peso simbólico de ser o número 2 de uma Força, como Braga Netto, ambos têm as quatro estrelas do topo da carreira nos ombros e comprovariam a simbiose entre áreas, pois iriam para o governo como agregados —jargão para quem se mantém na ativa, emprestado para o cargo.
Há outras considerações. Miotto é visto como um dos mais ativos generais com perfil de combatente, mas não como alguém com tato político.
Sua indicação repetiria o problema apontado no caso de Braga Netto, além de desfalcar o Alto-Comando da mesma forma. O colegiado tem 15 “quatro estrelas”, subordinados ao comandante.
Já a indicação de Rocha, que recebeu sua quarta estrela na segunda (11), atenderia a demanda de setores da Marinha que a veem sub-representada no governo. Com o consequente ciúme de membros do Exército empolgados com a integração ao poder político.
Há uma preponderância de oficiais do Exército, da reserva e da ativa, em cargos importantes do governo, a começar pelo presidente —um capitão reformado. Entre os 22 ministros, 5 têm origem na Força terrestre, 1 na Marinha e outro na Força Aérea.
A troca de Onyx por um militar deixará três dos quatro ministérios palacianos nas mãos de oriundos das Forças Armadas. O quarto, a Secretaria-Geral, é ocupado pelo policial militar Jorge Oliveira.
A ida de Rocha ao Planalto já estava certa, mas para cargo na Casa Civil ou na SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos), visando ajustar o fluxo de demandas internas.
Isso combina com o perfil do militar e o esvaziamento prévio da Casa Civil sob Onyx, sugerindo uma atuação menos política. O próprio Braga Netto já foi assessor da SAE.
Seja qual for o desfecho da situação, deve haver alterações no balanço de poder interno no governo.
O escolhido será o segundo oficial-general de quatro estrelas da ativa com assento no Planalto, sendo o outro Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), padrinho do nome de Braga Netto.
Um dos grupos mais poderosos no começo do mandato de Bolsonaro, os militares foram perdendo peso relativo ao longo de 2019.
Em seu lugar, ascendeu a ala ideológica do bolsonarismo. Ela é comandada pelos filhos do presidente e composta por discípulos do escritor Olavo de Carvalho.
Isso começou a mudar com a ida ao Planalto de Ramos, amigo de Bolsonaro desde os tempos de cadete. Apesar de críticas vindas do que classificou de “serpentário” palaciano, o militar afirmou-se como um dos mais influentes assessores presidenciais.
Ele aparou arestas em crises com o Congresso e ajudou a moderar a virulência com que os filhos do presidente, em especial o vereador Carlos, atacavam desafetos no governo.
A outra ponta do eixo militar renovado é o ministro da Defesa, o também general Fernando Azevedo. Ele manteve pontes ativas durante 2019 —antes, havia assessorado o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli.
Também conseguiu ver aprovada a reforma previdenciária e da carreira militar.
Eram demandas de décadas da corporação, sob intensa crítica na opinião pública.
A ida de Braga Netto, se ocorrer, consolidaria a ascensão da chamada “turma da Olimpíada” no governo.
Azevedo era o comandante do Leste, área que engloba o Rio, chefiando Ramos (chefe da 1ª Região Militar) e Braga Netto (1ª Divisão de Exército), todos com tropas operacionais nos Jogos de 2016.
Além disso, o ministro da Defesa teve o da Secretaria-Geral como seu subordinado durante boa parte da sua vida militar —ele o trata carinhosamente como “meu pitbull”.
A condução da questão das queimadas na Amazônia, que geraram duras críticas internacionais ao governo no segundo semestre do ano passado, foi vista como decisiva para a melhoria da relação de Bolsonaro com seus generais.
Também está fortalecido o vice-presidente, Hamilton Mourão, um general da reserva que agora também chefia o Conselho da Amazônia.
Ele moderou suas posições em debates internos e passou a ser visto com menos desconfiança pelo Alto-Comando do Exército e pelos ministros de origem militar. Antes, seu comportamento intempestivo era visto como prejudicial.
Na ala militar, perdeu espaço o general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional). Antes o principal conselheiro de Bolsonaro, em especial durante a campanha eleitoral, o oficial da reserva tem sofrido críticas internas.
Já Onyx estava com os dias contados desde o episódio em que seu número 2 perdeu o cargo por fazer uso indevido de um avião da Força Aérea.
Seu destino deve ser o Ministério da Cidadania, ocupado por Osmar Terra. Na avaliação do entorno palaciano de Bolsonaro, a pasta social não entregou nenhuma marca de relevo neste primeiro ano.
Na meritocracia particular do governo, Onyx também passou em branco, mas, como é um apoiador de Bolsonaro desde os tempos em que raros políticos tinham coragem de fazer isso, o presidente quer lhe dar uma chance.
Já Terra deverá ser indicado para uma embaixada, na Argentina ou na Espanha. Para tanto, ele teria de renunciar ao mandato de deputado federal pelo MDB. Ele já foi avisado da hipótese, e sua situação deve ser definida até sexta-feira (14).
Se Braga Netto ou outro oficial forem mesmo nomeados, haverá também uma contradição em termos. A Casa Civil, órgão criado em 1938, tradicionalmente era ocupada por um civil, paralelamente à antiga Casa Militar, hoje o GSI.

MILITARES NO 1º ESCALÃO DO GOVERNO
Hamilton Mourão
Vice-presidente, é general da reserva do Exército
Augusto Heleno
Chefe do GSI, é general da reserva do Exército
Luiz Eduardo Ramos
Chefe da Secretaria de Governo, é general da ativa do Exército
Marcos Pontes
Ministro da Ciência e Tecnologia, é tenente-coronel da reserva da Força Aérea
Bento Albuquerque
Ministro de Minas e Energia, é almirante da reserva da Marinha
Fernando Azevedo
Ministro da Defesa, é general da reserva do Exército
Wagner Rosário
Ministro-chefe da CGU, é capitão da reserva do Exército
Tarcísio Freitas
Ministro da Infraestrutura, é capitão da reserva do Exército
Colaboraram Gustavo Uribe e Julia Chaib, de Brasília
FOLHA DE SÃO PAULO/montedo.com

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