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O presidente Jair Bolsonaro e o agora ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência, general Maynard Santa Rosa (Alan Santos/Presidência da República/Divulgação)

O presidente e os militares vivem um momento difícil na sua relação

Tales Faria
Colunista do UOL

“Quando os interesses maiores da pátria ficam pequenos e é preciso manter a capacidade de dizer não.” Com este título, circula na caserna uma mensagem atribuída ao coronel Walter Felix Cardoso Junior, assessor especial da Secretaria de Assuntos Estratégicos. O texto explica como teria ocorrido a demissão de seu chefe, o general Maynard Marques de Santa Rosa, nesta segunda-feira, 4.
O próprio Walter Felix está demissionário. O blog procuro-o para saber maiores detalhes. Ele leu, mas não respondeu à mensagem. Também não negou, nem confirmou a autoria do texto que circula entre seus colegas, que diz o seguinte:
“Neste 04 Nov, o Ministro da Secretaria Geral/PR, Jorge de Oliveira, recebeu em gabinete o Secretário Especial da SAE, o Gen Ex Maynard Marques de Santa Rosa, para reclamar do desempenho da Secretaria Especial. As alegações estavam baseadas em dossiê montado, conforme mostrou, mas não correspondiam minimamente com a realidade dos fatos. O Gen esclareceu o Ministro sobre a verdadeira situação. Valendo-se do ensejo, comunicou-lhe estar desligando-se da função. Meia hora depois, o Ministro convocou os assessores de nível mais elevado da SAE, objetivando enquadrá-los segundo a mesma ótica. As colocações foram todas refutadas firmemente, e eles se demitiram também. Uma hora mais tarde, o Chefe já demissionário reuniu os subordinados e se despediu. Os assessores principais ficaram para tomar as medidas administrativas cabíveis, referentes à transmissão de funções e processos. O motivo mais provável para mais este desenlace importante no atual governo: desalinhamento cultural e conceitual. WF”
De fato, está instaurada uma crise na Secretaria Geral da Presidência, comandada por Jorge Antônio de Oliveira Francisco, major aposentado da Polícia Militar do Distrito Federal. Além dos assessores especiais, também está demissionário o secretário especial adjunto, general Lauro Luís Pires da Silva.
O general Ilídio Gaspar Filho, que chefia a Secretaria de Ações Estratégicas, outro órgão subordinado ao Ministério, também ameaçou deixar o cargo. Com isso, o ministro Jorge Oliveira estancou as cobranças que havia iniciado entre seus subordinados à espera de uma determinação do presidente Jair Bolsonaro sobre como lidar com a crise.
A chave está na própria mensagem atribuída a Walter Felix para seus pares, quando fala: “desalinhamento cultural e conceitual.” O “desalinhamento cultural” se dá pela insatisfação entre os militares de alta patente do exército em estar subordinados a um major da PM.
É um problema praticamente insolúvel, que perpassa a própria relação do capitão reformado do Exército e presidente da República, Jair Bolsonaro, com todos os membros do generalato sob sua subordinação desde que assumiu no Palácio do Planalto.
A forma autoritária com que o capitão dá ordens aos generais sempre causa algum constrangimento. O Palácio do Planalto, onde estão sediados quatro ministérios, chegou a ter três generais como titulares, além do vice-presidente, Hamilton Mourão.
Desde o início do ano, dois generais foram demitidos: Carlos Alberto dos Santos Cruz, que deixou a Secretaria de Governo após longo desgaste com o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente, e o general Floriano Peixoto, que foi retirado da Secretaria-Geral para presidir os Correios.
Floriano Peixoto assumiu o lugar do general Juarez Cunha, afastado por se rebelar contra a privatização dos Correios. Mesmo depois de Bolsonaro anunciar a jornalistas a sua demissão, Juarez Cunha desafiou: “Só vou sair daqui a hora que chegar oficialmente. Aí eu saio, senão, não saio, não.”
Quanto à questão “conceitual” apontada no texto atribuído a Walter Felix, deve-se ao recuo do governo na política de ocupação da Amazônia. O general Santa Rosa é defensor da aceleração do processo de ocupação e exploração da área, inclusive em terras indígenas. Ele assumiu o cargo pela total concordância do presidente com seus projetos. Mas os protestos internacionais e de ecologistas levaram ao engavetamento de suas propostas pelo ministro.
Entre essas propostas estão a construção de hidrelétricas na região, uma ponte sobre o rio Amazonas e ampliação da BR163 até a fronteira com o Suriname. Na verdade, são propostas que contam com a quase unanimidade do generalato.
UOL/montedo.com

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