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General Santos Cruz, secretário Nacional de Segurança Pública e veterano do Haiti, comandou a missão de paz no Congo, atingida na quinta pelo pior ataque aos soldados da ONU desde 1993
Santos Cruz (à frente) comandou as forças de paz no Congo entre 2013 e 2015
HUMBERTO TREZZI
RODRIGO LOPES
Um dos mais experientes militares das Forças Armadas, o general de divisão Carlos Alberto dos Santos Cruz, 65 anos, conhece como nenhum outro brasileiro a violência na República Democrática do Congo, onde na quinta-feira (7), 14 militares da Organização das Nações Unidas (ONU) foram mortos em um confronto com guerrilheiros locais. Entre 2013 e 2105, o gaúcho de Rio Grande comandou o efetivo de 22 mil homens de 20 países que integram a Missão das Nações Unidas para a Estabilização na República Democrática do Congo (Monusco). Chegou a ter seu helicóptero atingido por disparos do mesmo grupo rebelde que atacou os soldados da paz na quinta-feira.
Veterano do Haiti e atual secretário Nacional de Segurança Pública, Santos Cruz, de tempos em tempos, é requisitado para atuar como consultor da ONU. Retornou na quinta-feira da África, onde deu sugestões para evitar as recorrentes baixas entre os capacetes azuis na República Centro-Africana e no Mali – países que vivem uma guerras civis semelhantes a do Congo. Apesar de ser um dos mais experientes militares brasileiros, ele nega que seja cotado para comandar a possível missão brasileira na República Centro-Africana, estudada pelo Ministério da Defesa para 2018 ou 2019. A seguir, trechos da entrevista, concedida na sexta-feira, por telefone:
Que leitura o senhor faz desse ataque às forças de paz da ONU no Congo?
Isso aí é um ataque praticado por um grupo chamado ADF (Allied Democratic Forces), inicialmente de radicais islâmicos que atuam no Congo, perto da fronteira com Uganda. Um lugar chamado Oicha, na direção leste da fronteira com Uganda. Nessa região, atua esse grupo considerado de radicalismo islâmico, mas que, na verdade, não é nada disso. Trata-se de um grupo criminoso. Foi criado originalmente como oposição ao governo de Uganda, mas acabou como todo grupo ali, envolvendo-se nas atividades criminosas da área. Tem feito vários ataques desde a época em que eu estava lá. Em um ano, matou cerca de 500 civis, quase todos com machado e facão. Eles não têm nenhum escrúpulo de efetuar matanças de mulheres e crianças.
Eles têm alguma ligação com grupos estrangeiros, como a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico?
É o mesmo estilo. Já foi detectada algumas vezes a presença de elementos estrangeiros ali no Congo, procedentes do Quênia, de Uganda e de outros países da região. Não dá pra dizer conexões, mas já há confirmação de estrangeiros na composição desse grupo.
Quantos grupos guerrilheiros atuam hoje no Congo?
Entre 40 e 45, mas alguns são grupos locais. Não têm projeto político, característica religiosa, nada disso. É só questão de conseguir benefício financeiro local.
A situação está se deteriorando no Congo ou foi um ataque pontual?
Esse grupo têm um histórico de ataques na região. É tudo ao longo de uma estrada de apenas 64 quilômetros. Sempre atuaram ali. Não é uma questão de piorar ou melhorar o ambiente no Congo, porque o país é muito grande. E isso aí é muito localizado, em um trecho praticam massacres de civis sem precedentes. Já mataram muita gente do exército do Congo. Quando eu estava lá, fizeram uma emboscada, perdi dois militares da Tanzânia com mais 15 feridos.
O senhor estava em um helicóptero que foi atacado por esse grupo, não?
Foi esse mesmo grupo, nessa mesma região. Acertou bem (o helicóptero) e a gente teve de pousar.
Na quinta-feira, eles sabiam que estavam atacando a ONU?
Isso aí é deliberado, planejado.
Tem motivação antiocidental, contra a ONU?
Não é que seja antiocidental, é um grupo criminoso que tem o interesse em manter a instabilidade naquela região. Eles têm interesse que seja instável para que possam sobreviver. Começaram com característica religiosa, como qualquer grupo: começa com uma ideia e, depois, se torna um grupo criminoso, controlando comércio ilegal de minerais, de ouro, contrabando. Começa com um ideal religioso ou político e, depois, passa a ser uma máfia criminosa como outra qualquer, onde o que interessa é a instabilidade local para que possa desenvolver atividades ilegais.
A missão no Congo perdeu mais de 90 militares. É a situação mais complexa que a ONU enfrenta?
Não. Perder 14 elementos, com cerca de 50 feridos, é um ataque de grandes proporções. O Congo sai da normalidade. Hoje, o que tem mais baixa é o Mali. Eu estava lá há duas semanas, ocorreram dois ataques, morreram quatro e mais 30 feridos.
O que o senhor fazia no Mali?
A ONU solicitou que eu fizesse recomendações do que fazer para diminuir o número de mortos e feridos por ações violentas contra a ONU. Cheguei da República Centro-Africana ontem (quinta-feira). Minha tarefa era analisar e sugerir para a ONU recomendações para que não se tenha elevado número de baixas. São dois locais onde essa incidência é maior. O Mali é uma situação muito difícil, com o emprego de minas e explosivos improvisados. Tem causado muitas baixas. Como missão, acredito que essa seja a mais difícil nesse momento.
GAUCHAZH./montedo.com
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