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ANÁLISE


IGOR GIELOW
DE SÃO PAULO
The intercontinental ballistic missile Hwasong-14 is seen during its test launch in this undated photo released by North Korea's Korean Central News Agency (KCNA) in Pyongyang, July, 4 2017. KCNA/via REUTERS ATTENTION EDITORS - THIS IMAGE WAS PROVIDED BY A THIRD PARTY. REUTERS IS UNABLE TO INDEPENDENTLY VERIFY THIS IMAGE. NO THIRD PARTY SALES. SOUTH KOREA OUT. ORG XMIT: GDY104

Pyongyang fez o que todo mundo temia. Anunciou ao mundo que testou um míssil intercontinental logo na Coreia do Norte afirma ter testado míssil intercontinental com sucesso, logo na sequência da mais recente explosão de ameaças
norte-americanas contra a Coreia do Norte e seu
programa de armas nucleares e foguetes.
Desde que o presidente Donald Trump assumiu, a
escalada militar em torno da península coreana por
parte dos EUA serviu para dar alguns recados claros. Primeiro, que Washington está disposta a usar a força se nada mais funcionar para evitar
que a dinastia comunista norte-coreana tenha uma arma capaz de, um dia,
pulverizar uma cidade americana.
Segundo, quis pressionar também a China, Estado que protege Pyongyang
porque lhe é conveniente ter uma zona tampão entre seu território e o
contingente americano de 30 mil soldados estacionados na Coreia do Sul
desde o cessar-fogo da guerra inconclusa em 1953.
O movimento foi inteligente, algo pouco associado às ações da gestão Trump, mas só à primeira vista. Como mais de 90% do petróleo consumido na Coreia
do Norte vem do vizinho comunista, se Pequim fechasse as torneiras o
torniquete no pescoço do regime de Kim Jong-un apertaria muito. Mas não
foi isso que aconteceu, apesar dos puxões de orelha retóricos dados na
ditadura ao sul da fronteira.
Agora, é Pyongyang que toma a iniciativa. O faz com uma força marítima
poderosa circundando suas águas e com Trump repetindo as palavras que
antes foram de militares e de seu secretário de Estado: a paciência estratégica
dos Estados Unidos acabou. Kim ouviu o recado e decidiu dobrar a aposta, já
que todos os analistas ocidentais consideravam um teste de míssil com
capacidades intercontinentais a famosa “linha vermelha” a ser cruzada.
Outro ponto é o que tal arma carregaria. Recentemente, o ditador nortecoreano
posou ao lado do que seria uma arma nuclear miniaturizada o
suficiente para ser colocada na ogiva de um míssil. Mas foto é uma coisa,
realidade é outra: um foguete balístico intercontinental quase deixa a
atmosfera para reentrar em direção ao alvo, um processo violento de variação
de temperatura e com turbulência violenta. Não é tecnologia que se adquire
do dia para a noite, e muito pouco se sabe das reais capacidades nortecoreanas.
Essa incerteza é o maior problema, porque Pyongyang pode clamar qualquer
coisa, deixando a dúvida sobre o blefe com os EUA. E Trump elevou de tal
forma a capacidade ofensiva em torno do país asiático que talvez lhe restem
poucas alternativas senão atacar. A admissão por Washington de que o míssil
de fato tinha alcance intercontinental eleva a dramaticidade do cenário.
Ele faria isso? Há problemas sérios, a começar pela aliada Coreia do Sul, que
sofreria a maior parte dos danos no caso de um conflito. O norte tem
apontada toda sua artilharia e foguetes convencionais para a região que vai da
fronteira até Seul, e estima-se que a metade da população sul-coreana que mora por ali estaria sujeita a algum grau de bombardeio. Mesmo que os EUA
atacassem primariamente essa força, teria de enfrentar uma defesa antiaérea
capaz antes de anular as chances de um bom estrago ser feito ao sul.
Isso sem contar o imponderável: se Kim tiver uma arma nuclear pronta para
ser usada em algum dos seus eficazes mísseis de pequeno ou médio alcance,
que não passam pelo processo traumático de trajetória de um modelo
intercontinental. Aí falar de linha vermelha se torna ocioso.
Por isso, o novo presidente sul-coreano, Moon Jae-in, tem insistido na
diplomacia. Há a questão chinesa, mas pelos relatos Trump já deu um
ultimato a Pequim. Os japoneses, por sua vez, parecem interessados na
guerra, já que o atual arsenal norte-coreano pode atingi-los. Por fim, o
presidente americano já provou o gosto da popularidade que a violência militar dá, em ataques pontuais na Síria e Afeganistão.
A Coreia do Norte é outro assunto, como Kim sabe ao dar suas cartas. Até
aqui, ele tem levado os EUA ao limite. O risco de confronto militar, uma
inevitabilidade no longo prazo, cresceu bastante nesta terça (4). 
O CONFLITO NA COREIAVeja as capacidades dos adversários 
FOLHA DE SÃO PAULO/montedo.com
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