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No dia do Exército (19), o General Villas Bôas fez uma palestra aos estudantes e professores do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Tema: “O papel do Exército na vida nacional”. Abaixo, o vídeo completo:
Durante uma hora, o Comandante da Força abordou vários assuntos. Em alguns tópicos, prevaleceu o tom professoral das aulas de história militar. Em outros momentos, entretanto, aflorou a vivência militar do ‘VB’ – como referiu-se a ele um seu ex-instrutor da Aman.
Nas questões relacionadas à Amazônia,  ele questionou a validade da preservação das tradições da cultura indígena, mesmo as mais bárbaras, como a que determina que a índia, ao dar à luz sozinha na mata, dê cabo imediato do recém nascido caso este apresente algum defeito físico, ou mate um dos bebês, no caso de nascerem gêmeos. Foi incisivo e crítico quanto ao papel das ONGs que pululam na selva e também quanto aos interesses nada humanitários de outros países pela região.

“A pergunta que não quer calar”

Mas o foco aqui é outro: ao final da fala do general, como é de costume, foram feitas diversas perguntas e colocações pelos presentes. Entre elogios dos membros da mesa e perguntas sem profundidade, o general pode dar-se ao luxo de ‘cometer’ uma ou duas piadas sem graça.
Como a plateia não apresentava disposição para tal, o professor João Herculino Lopes Filho fez ‘a pergunta que não quer calar’ (no vídeo, às 2:00:30). Ele quis saber que análise Villas Bôas faz da conjuntura atual, traçando um comparativo com o período da ‘intervenção militar’. Abaixo, na íntegra, a resposta do general:

O Brasil, da década de trinta até a década de oitenta foi o país do mundo que mais cresceu. Pega ali, Getúlio Vargas – né!- Juscelino e os governos militares. Nas décadas de sessenta,  setenta, oitenta, nós cometemos um erro, nós permitimos que a linha de fratura da Guerra Fria, linha de confrontação, passasse dentro da sociedade brasileira e nos dividisse. E o Brasil, que era um país que vinha com forte sentido de projeto, com ideologia de desenvolvimento, […] perdeu a coesão, perdeu esse sentido de projeto. Ele ‘tá’ sem um rumo, uma direção. Nosso País está meio à deriva. São vários os fatores que contribuíram pra que isso acontecesse, mas a verdade é que nos dividimos. Eu conversava isso com o ministro da Defesa, que é do Partido Comunista do Brasil e hoje trabalhamos juntos, absolutamente identificados e temos como convergência os interesses nacionais e nos demos conta – imagina! – ficou o ministro, que era, ele prum lado e eu pro outro, éramos quase inimigos, ou nos considerávamos inimigos. Então vejam que erro que nós cometemos! Nos falta esse sentido de projeto, até porque, nos precisamos de recuperar isso porque não estamos livres de que venha a acontecer uma outra Guerra Fria que venha nos dividir novamente, não nos mesmos parâmetros, não nos mesmos fundamentos ideológicos, mas…vou citar um exemplo: quando a Nicarágua anunciou que ia construir um outro cnal, com apoio da China, houve uma enorme movimentação ambientalista no sentido de que o novo canal ia trazer problemas ambientais. O foco, o centro de poder que orienta esse tipo de coisa, vem ‘da onde’? Vem de países que seriam eventualmente prejudicados pela construção do canal. Então, não tenho dúvida que nós podemos sofrer também algo, um processo semelhante que venha a nos dividir novamente. Por isso temos que recuperar a coesão nacional e sentido de projeto, colocar o interesse do País, da Nação, acima de todas essas querelas que dominam o nosso dia a dia hoje. Com relação a 1964, comparar com a data de hoje, houve duas diferenças básicas em 64. Primeiro: era período de Guerra Fria, posições extremadas e ideologizadas. Segundo, que em 1964 o País não contava com instituições amadurecidas, com seu espaço e limite de atuação definidos, cumprindo adequadamente seus papéis. Então, hoje, a grande diferença está aí: o Brasil tem instituições amadurecidas, ele é um País já sofisticado, com sistemas de pesos e contrapesos que dispensam a sociedade de ser tutelada. A partir daí, as Forças Armadas entendem… dois aspectos fundamentais que orientam a nossa atuação. Primeiro é a da legalidade: todo e qualquer emprego das Forças Armadas estará absolutamente condicionado pelos dispositivos legais, desde a constituição, passando pelas leis complementares e assim por diante. Se formos empregados, isso se dará sempre por iniciativa de um dos poderes, como vimos na redação do Artigo 142 da Constituição. Força armada não existe para fiscalizar governo, muito menos para derrubar governo. O segundo fundamento nosso é o de que nós temos como obrigação contribuir para a estabilidade, condição extremamente necessária para que as instituições continuem trabalhando em condições ideais e em nome da sociedade encontrem o caminho para superar essa crise toda que nós estamos vivendo. Nós vimos esta semana, foi uma semana extremamente preocupante, uma série de medidas preventivas foram adotadas por nós e vimos e as coisas transcorreram naturalmente. Os embates na área política e na área judiciária tem sido extremamente acirrados mas as instituições estão funcionando.”

Trata-se de uma fala absolutamente equilibrada, de alguém que tem a exata noção do cargo que ocupa e da responsabilidade que carrega. Negritei ali em cima e reproduzo novamente aqui a primeira parte da resposta do general:
O Brasil, da década de trinta até a década de oitenta foi o país do mundo que mais cresceu. Pega ali, Getúlio Vargas – né!- Juscelino e os governos militares. Nas décadas de sessenta,  setenta, oitenta, nós cometemos um erro, nós permitimos que a linha de fratura da Guerra Fria, linha de confrontação, passasse dentro da sociedade brasileira e nos dividisse.


Atenção!
– O general afirmou que o Brasil foi o país que mais cresceu de 1930 a 1980!
– É óbvio que o ‘nós’ a que se refere o comandante é o conjunto da sociedade brasileira, não seus governantes!!!

Uma versão vergonhosa
Heloísa Cristaldo, que cobriu o evento para a Agência Brasil, fabricou uma versão vergonhosamente mentirosa dessa fala, no texto que publicou. Confira:
‘Villas Bôas disse que a intervenção militar de 1964 foi um erro das Forças Armadas. “O Brasil da década de 30 a 50 foi o país do mundo que mais cresceu, com Getúlio [Vargas], Juscelino [Kubistchek]. Nos governos militares nas décadas de 70 e 80, nós cometemos um erro, nós permitimos que a linha da Guerra Fria nos atingisse e o país que vinha num sentido de progresso, perdeu a coesão”, analisou.’

Nota à margem: a Agência Brasil é um braço da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), portanto, a voz oficial do governo. Adiante.


A escalada da ‘verdade’ nas manchetes e redes sociais
Foi o que bastou para a ‘informação’ ganhar manchetes em outros sites, como vemos na colagem aqui ao lado. A ‘verdade’ foi estampada inclusive no Noticiário de Imprensa (Notimp) da FAB.
A ‘notícia’ de que o Comandante do Exército admitiu que 1964 foi um erro das Forças Armadas está sendo replicada furiosamente nas redes sociais.

Talleyrand, os Bourbons e os petistas 

(By Reinaldo Azevedo)
 “Eles não aprenderam nada; não esqueceram nada!”

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