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Lott, o general que garantiu a posse do presidente eleito JK e do vice Jango
Há 60 anos, ministro da Guerra comandou 25 mil homens no Rio para impedir insurreição contra Juscelino Kubitschek articulada por derrotados nas eleições presidenciais


Paulo Luiz Carneiro
“Ocupada a cidade pelo Exército, sob as ordens de Lott. Destituição do Sr. Carlos Luz e entrega da presidência ao Sr. Nereu Ramos”. Esta era a manchete da edição extra do GLOBO no dia 11 de novembro de 1955, quando o ministro da Guerra, general Henrique Dufles Teixeira Lott, iniciou um golpe para evitar o golpe — para historiadores, o “golpe preventivo” que garantiria a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart, na presidência e vice-presidência, respectivamente, vitoriosos na eleição de 3 de outubro de 1955.
Esse episódio teve origem meses antes dos acontecimentos que levaram ao suicídio do presidente Getúlio Vargas, em agosto de 1954, e seus desdobramentos posteriores. Vargas tinha chegado ao poder nas eleições de 1950 por meio da coligação PTB/PSP (Partido Trabalhista Brasileiro/Partido Social Progressista). Seu principal opositor foi a UDN (União Democrática Nacional) do brigadeiro Eduardo Gomes, que já havia sido derrotado na eleição anterior. Os principais partidos políticos do período eram o PTB, que aglutinava as classes trabalhadoras urbanas e a classe média de mais baixa renda, fortemente ligado aos sindicatos; a UDN, que reunia a classe média alta, a elite industrial e a ala mais conservadora das Forças Armadas; o PSD (Partido Social Democrático), identificado com a classe média, o funcionalismo público e os proprietários rurais; e o PSP, a quarta força política dos anos 40 e 50, fundado pelo político paulista Ademar de Barros e com grande representatividade em São Paulo.
De volta ao poder “nos braços do povo”, Getúlio teve que manobrar “num mar de correntes contraditórias”, como disse o historiador Boris Fausto. Não obteve maioria na Câmara e, com inflação alta e a carestia em marcha, enfrentou protestos dos trabalhadores. A virada veio a partir de 1953, quando mudou o Ministério, criou a Petrobras e lançou uma lei sobre a remessa de lucros para o exterior, reforçando sua imagem de “pai dos pobres”.
A nomeação de João Goulart para o Ministério do Trabalho desagradou aos udenistas e aos grupos mais conservadores. Um dos opositores mais ferrenhos do governo Vargas era o jornalista Carlos Lacerda, à frente do seu jornal “Tribuna da Imprensa”. O atentado que sofreu na Rua Tonelero, em Copacabana, no início da madrugada do dia 5 de agosto de 1954, as investigações posteriores e as graves denúncias de corrupção, culminaram nos acontecimentos trágicos de 24 de agosto de 1954. O suicídio evitou um golpe de Estado encabeçado pela UDN. Tomou posse o vice-presidente João Café Filho (PSP). O novo presidente montou um Ministério que favorecia a UDN e comprometeu-se a manter as eleições para Câmara, Senado, estaduais e presidenciais de outubro de 1955.
As eleições presidenciais foram vencidas pela dobradinha Juscelino Kubitschek (PSD)-João Goulart (PTB). O general Juarez Távora (UDN) ficou em segundo lugar, perdendo por 500 mil votos, o que motivou o seu partido a entrar com uma representação junto ao TSE pedindo a impugnação da eleição. Para os militares, Jango era um “incitador de greves e articulador da República Sindicalista”. Uma corrente da UDN, comandada por Carlos Lacerda, apelou abertamente para o golpe: “Esses homens não podem tomar posse, não devem tomar posse, nem tomarão posse”, dizia ele em 9 de novembro na “Tribuna da Imprensa”.
No dia 8 de novembro, por motivos de saúde, Café Filho afastou-se da presidência, assumindo Carlos Luz (PSD), presidente da Câmara. Logo, Henrique Lott apresentou um ultimato a Carlos Luz pedindo a punição do coronel Jurandir Bizarria Mamede (ligado à Escola Superior de Guerra) que durante o enterro do general Canrobert Pereira da Costa (chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e então presidente do Clube Militar), no dia 1º de novembro, fez um discurso inflamado defendendo a linha golpista. O orador foi cumprimentado por Carlos Luz e parte dos oficiais presentes.
O presidente recusou-se a apoiá-lo e ele, não vendo outra saída, demitiu-se no dia 10 de novembro. Não punindo Mamede, Lott concluiu que Carlos Luz estimulava o golpe contra a posse dos candidatos eleitos. No dia seguinte, o general comandou 25 mil homens, que, em poucas horas, tomaram os pontos estratégicos do Rio, então Distrito Federal. Carlos Luz, Carlos Lacerda, coronel Bizzaria Mamede e parte do Ministério se refugiaram no navio Tamandaré, que ficou ao largo da Baía de Guanabara. No dia 12 de novembro, foi empossado na Presidência da República o primeiro vice-presidente do Senado, Nereu Ramos, que assegurou a posse de Juscelino Kubitschek em 31 de janeiro de 1956.
“A decisão que tomamos em 11 de novembro foi muito violenta para mim, porque ela implicava divergir, momentaneamente, da lei e do regulamento. Mas as minhas aspirações e mesmo as convicções eram mínimas diante dos interesses maiores que estavam em jogo”, disse Lott ao GLOBO em 18 de novembro de 1958. Lott tentou eleger-se presidente em 1960, perdendo para Jânio Quadros. O marechal morreu de infarto, aos 89 anos, em 19 de maio de 1984. Foi enterrado sem honras militares.
ACERVO O Globo/montedo.com
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