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Meu amigo Barcellos, retomando a forma e o estilo inconfundível após uma estada na UTI.



Ruben Barcellos de Melo*

De onde venho?
Pra onde vou?
Mais dia, menos dia, a gente se faz essas perguntas.
Não, ninguém se pergunta isso aos vinte anos. Aos vinte a gente sabe tudo e o mundo perde muito quando não nos ouve.
Mas um belo dia (ou num dia não tão belo), tudo que se vê é um pedaço de céu, num final de tarde, numa pequena janela de UTI.
Fico “beservando” o vai-e-vem das enfermeiras, formiguinhas incansáveis que sondam aparelhos sonoros e painéis coloridos com batimentos que apanham, pressões que não afrouxam e pinga-pinga de soro, sangue e esperança.
Pranchetas recebem novos dados, se atualizam e alteram fisionomias de médicos plantonistas – uma contração de lábios – a coisa enfeiou; um risinho entre tímido e otimista – agora vai!
O silêncio que se pede nos cartazes nem sempre acontece ali dentro. Arrastar de mesinhas, cadeiras, biombos…palavras de ordem, despertar de pacientes pra uma “picadinha”, telefone que toca…
O horário de dormir e acordar é um caos – Morfeus maconhados fazem dormir de dia e escondem os sonos nos labirintos sombrios da madrugada. E a madrugada é como correnteza de rio – não tem fim nem quando encontra o mar.
O relógio se arrasta na monotonia das horas. Luzes são necessárias pra achar os prontuários, as canetas e as prescrições. Roncos e gemidos se misturam. Respirações agitadas e suspiros doloridos também se fazem ouvir. Orações murmuradas, às vezes. Mas o que incomoda mesmo são os que não se mexem.
Pessoas treinadas pra servir da maneira mais nobre vestem aventais brancos, azuis e verdes – servem à vida, velam por ela e nem são da nossa família. Nunca os vimos e nos chamam de queridos. Passam por nossos braços, suas mãos viciadas em acarinhar sem esperar retorno ou gratidão.
– Seu José! O senhor vai tomar seu remedinho agora? deixa eu pegar um copo…
Mas seu José já abriu a garrafinha de água e espera o comprimido, com a mão aberta.
– O senhor vai tomar a água pelo bico?
E o seu José, encostando a boca no fundo da garrafa:
– Não, vou tomar pelo fundo!
De onde venho?
Para onde vou?
Quais eram mesmo as minhas vontades aos vinte anos?
Que importância isso tem agora?
Das cavernas às mansões mais luxuosas – o homem descobre do que é feito – de trabalho e de escolhas; de amigos e de esperanças; de perdão e divindade.
* Segundo tenente da reserva do Exército

Que o Patrão Velho o mantenha entre nós por muitas luas, meu amigo.
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