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Para o bem ou para o mal, elas definiram o mundo em que vivemos hoje.
JEAN-LOUIS MANZON
“A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”, escreveu o general e filósofo chinês Sun Tzu, autor do livro A Arte da Guerra. Há momentos, porém, que botar as armas de lado está fora de cogitação. Especialmente quando você se encontra sob fogo cruzado. E, tal como numa partida de futebol, a estratégia é fundamental para sair vitorioso do campo de batalha. Por isso decidimos fazer uma lista das 10 maiores manobras militares do século XX. Que, para o bem ou para o mal, definiram o mundo em que vivemos hoje — em que comemos cheeseburger ao invés de chucrute.

10# Gallieni e os Táxis de Paris
Rumo ao front: não há cálculo exato, mas imagina-se que entre 600 e 3 mil táxis foram envolvidos na operação que evitou a rendição de Paris (foto: Branger/Roger Viollet/Getty Images) – Guia do Estudante
Se você já foi a Paris e pegou um táxi, provavelmente foi maltratado. Mas nada que se compara com o que os taxistas parisienses fizeram contra o exército alemão na 1ª Guerra Mundial. Em 1914, os alemães chegaram a 40 quilômetros de Paris. O governo evacuou a cidade e convocou o general Gallieni para assumir a defesa da capital.
No início de setembro, enquanto as tropas do comandante francês Joffre sofriam pesadas baixas, o 1º Exército alemão manobrou para o Leste numa tentativa de flanquear as defesas francesas e tomar Paris. Gallieni viu nisto uma oportunidade.
Cerca de 600 táxis parisienses foram recrutados para mobilizar a 7º divisão de infantaria e parar o avanço inimigo. Os motoristas perguntavam: “Rodamos pela corrida ou pelo taxímetro?” Mesquinharias à parte, cerca de 5 000 homens a bordo dos carros foram rapidamente reposicionados no front.
O efeito militar da manobra é questionável, mas o primeiro deslocamento motorizado da história teve um efeito real sobre a moral das tropas e da população. Um marco da 1ª Guerra Mundial que rendeu 130 francos para os motoristas.
9# A ofensiva do Tet
Soldados americanos esperam ataque dos vietcongues durante a Ofensiva do Tet, 1968. (Wikipédia)
“Good morning, Vietnam! I love the smell of napalm in the morning…” Este e todos os outros punch lines de Hollywood não estão em filmes que mostram as derrotas americanas no campo de batalha do Vietnã. O motivo? Porque nunca houve uma. Mas ainda sim, os americanos perderam a guerra.
No ano novo lunar vietnamita, o Tet, tradicionalmente havia um cessar fogo. No dia 30 de janeiro de 1968 não seria diferente. Mas foi. Usando uma tática de desinformação, os vietcongs comandados pelo General Hoang Van Thai, que já havia batido os franceses em Dien Bien Phu, mobilizou tropas ao norte, dando a entender que atacaria ali.
Mas, secretamente, por uma rede de túneis e trilhas na floresta, mobilizou 80 mil soldados e lançou um ataque surpresa simultâneo contra mais de 100 cidades, entre elas a capital do Sul, Saigon. Lá um pequeno grupo conseguiu abrir um buraco nos muros da embaixada americana e por poucos instantes dominar o salão principal. Minutos depois, foram mortos ou capturados.
A ofensiva do Tet foi um fracasso militar retumbante, mas foi decisivo na vitória sobre os americanos. As imagens da embaixada destruída, soldados sem comando, o pânico espalhado, mostraram à opinião pública nos Estados Unidos que o estava acontecendo naquele longínquo país era muito diferente da versão oficial. Sem o apoio popular, a máquina de guerra americana emperrou e em 1975 Saigon caiu nas mãos dos comunistas. The end.
8# Patton e Bastogne
Bradley, Eisenhower e Patton em Bastogne (Padre Steve)
George S. Patton é até hoje um dos mais polêmicos generais da história americana. Implacável, intempestivo, culto, motivador e cruel, Patton conhecia a estratégia e história militar como poucos. Na 2ª Guerra Mundial, ele avançou com o 3º Exército americano vencendo mais batalhas e causando mais baixas aos inimigos do que qualquer outro antes (ou depois) dele. No inverno de 1944, os alemães haviam lançado uma contra-ofensiva e cercado a cidade de Bastogne, um entroncamento estratégico de estradas ao norte da França. Lá, as forças da 101º divisão aerotransportada resistiam como podiam.
O General Eisenhower, comandante-supremo das forças aliadas, pergunta a Patton em quanto tempo ele poderia virar 180º e avançar com seu 3º Exército, de mais de 500 000 homens, tanques, aviões e suprimentos 400 km ao norte até Bastogne, para resgatar a 101º. Patton responde: “48 horas”. Eisenhower duvida.
Prevendo um possível ataque por aquela região, dias antes Patton havia dado ordens à sua equipe que preparasse 3 planos distintos para contra-atacar. No momento em que ele recebe as ordens do General Eisenhower para resgatar a 101º divisão, a operação já está em andamento.
Sob um inverno especialmente rigoroso, Patton finalmente chega a Bastogne, seus aviões lançam bombas sobre as posições inimigas e levam suprimentos para a 101º divisão cercada. Os tanques alemães são destruídos, milhares de perdas são causadas aos alemães e Bastogne é liberada.
7# Schwarzkopf e o bombardeio do Iraque
Bombardeio aéreo do Iraque (DefesaNet)
Oriente Médio, 1991. Saddam Hussein à frente de um país empobrecido pelo conflito contra o vizinho Irã, invade o pequeno reino do Kuwait, tomando seus campos de petróleo e passando a controlar, em conjunto com as reservas iraquianas, quase um quarto de toda a produção mundial de óleo cru.
Os Estados Unidos lideraram uma coalização internacional para forçar Saddam de volta às suas fronteiras. Com um ultimato expedido pela ONU, o mundo aguardou 3 meses até que o primeiro tiro fosse disparado. Saddam tinha ao seu dispor o quarto maior exército do mundo e seu plano era levar os EUA a um novo Vietnã: forçar pesadas baixas e vencer pela opinião pública.
O General Norman Schwarzkopf traçou uma estratégia para evitar ao máximo o combate corpo a corpo, tanque a tanque. Em 17 de fevereiro de 1991, o ataque aéreo foi lançado. A primeira onda foi de aviões invisíveis aos radares, até então secretos, que destruiu o sistema de alerta inimigo. A supremacia aérea se estabeleceu nos primeiros minutos de guerra. Se seguiram mais 100 mil voos, despejando 85 mil toneladas de explosivos arrasando as posições iraquianas.
O ataque foi tão surpreendentemente bem sucedido, que quando a invasão terrestre teve vez, as forças de Saddam Hussein já sem comando, sem suprimentos, simplesmente se rendiam e a prometida “mãe de todas as batalhas” nunca aconteceu.
6# Yamamoto e Pearl Harbour
Ataque a Pearl Harbor, com o Almirante Yamamoto no detalha (John Keay)
Em 1941, as tropas do 3º Reich marchavam invencíveis pela Europa e o Império Japonês se expandia pelo oriente. Os Estados Unidos se mantém fora do conflito, mas impõem sérios embargos econômicos ao Japão, principalmente de petróleo. Na época, 80% das importações japonesas de combustível vinham da América.
Ciente de que uma guerra prolongada seria vencida pela força industrial dos Estados Unidos, o Almirante Isoroku Yamamoto traçou um plano ousado: destruir a frota americana do Pacífico antes que ela pudesse entrar em ação. O problema é que ela estava a dezenas de milhares de quilômetros do Japão.
A frota imperial envia em silêncio seus gigantescos porta aviões ao Hawai. Às 7:30 da manhã de 7 de dezembro, mais de 400 caças e bombardeiros avançaram indetectados sobre a maior base naval americana da região. Mal informados, mal treinados e com comunicações precárias, as perdas foram gigantescas para os EUA. Encouraçados, destróieres, aviões, soldados — nada do que estava em Pearl Harbour restou. A operação foi um sucesso.
Poderia ter sido o fim, mas não foi. O que os japoneses não sabiam é que os porta aviões americanos estavam realizando exercícios ao longo da costa, e esses navios vieram a ter um papel fundamental em Midway, anos depois, na aniquilação da frota imperial.
5# A Virgem Maria e o Milagre da Marne
Maria teria guiado os franceses (Lourdes)
Na 1ª Guerra Mundial, as forças alemãs comandadas por Von Kluck, Von Bülow e Von Moltke haviam contornado as defesas francesas pela Bélgica e chegado a poucos quilômetros de Paris. O general Von Kluck declara: “Que a França desapareça para sempre!”
A situação era desesperadora. O General Foch, no comando do 9º exército francês, escreve a seus superiores sobre sua situação próximo ao rio Marne: “Minha direita está sob forte pressão, o centro está cedendo, impossível de manobrar. Situação excelente, eu ataco!” Descobrindo por sua aviação uma brecha entre as forças alemãs, essa é justamente a ordem suicida que ele dá.
Os soldados franceses relatam que ao receberem a ordem de deixar as trincheiras e avançar sobre o inimigo, uma mulher vestida de branco os guiava. Soldados alemães diziam que uma mão desceu dos céus e os impediu de prosseguir. No dia 8 de novembro, aniversário da Virgem Maria, começa a retirada alemã e ocorre o mito do Milagre da Marne.
Por mais uma semana os alemães são perseguidos pelos franceses, ingleses e aliados até finalmente se reforçarem na retaguarda. Os dois lados se enterram em trincheiras, de onde não sairiam mais pelos próximos 4 anos.
4# Moshe Dayan e a Guerra dos 6 dias
O general Moshe Dayan, durante a “Guerra dos Seis Dias” (© Fondation Gilles Caron)
Junho de 1967, Israel está cercado por inimigos. Tropas hostis se mobilizam nas fronteiras ao sul com o Egito, ao norte com a Síria e a leste com a Jordânia. Governos nacionalistas em toda a região se preparam para um ataque, usando a luta contra o Estado Hebreu como fator de união para a criação de uma Pan-Arábia.
O General Moshe Dayan, Ministro da Defesa de Israel, com sua marca registrada, o tapa-olho cobrindo uma ferida de combate, tem um plano. Em 5 de junho a força aérea israelense lança uma ofensiva surpresa contra as maiores bases aéreas egípcias. Em apenas 3 horas era o fim da força aérea egípcia, antes mesmo que ela tivesse chance de decolar. Simultaneamente, as tropas terrestres de Israel avançam pelo Sinai, enquanto em Jerusalém a Jordânia ataca.
Com total superioridade aérea, Dayan vence a Jordânia em menos de um dia, os empurrando para além do rio Jordão. Ao Sul, a divisão de tanques comandada por Ariel Sharon força os egípcios para o Canal de Suez e ao Norte. E, assim, Israel assume o controle das colinas de Golã, rechaçando os Sírios.
Em apenas 6 dias Israel destruiu todos os seus inimigos imediatos, anexou territórios imensos e conquistou novos inimigos para a eternidade.
3# Von Manstein e a Blitzkrieg
Tropas nazistas na Blitzkrieg (Veja)
Depois do sucesso na invasão da Polônia no início da 2ª Guerra Mundial, as forças nazistas se viraram contra um desafio para o qual eles mesmo se julgavam despreparados: vencer a França, Grã-Bretanha e seus aliados simultaneamente. A solução, segundo Von Manstein, era um ataque motorizado e rápido, no local em que o inimigo era fraco, por onde eles menos esperavam e com tudo o que tinham disponível.
Em 10 de maio a máquina alemã se moveu: tanques, paraquedistas, aviões, blindados avançaram a toda velocidade destruindo o que tinham pela frente. Em 5 dias caíram a Holanda e a Bélgica. Agora restava a França, naquela época com o maior exército do planeta e a linha Maginot, uma fortaleza defensiva de 750km ao longo de toda a fronteira com a Alemanha.
Von Manstein aconselhou Hitler a mover suas divisões de blindados pelas até agora consideradas intransponíveis (e portanto mal defendidas) florestas da região de Ardenne, contornando as defesas francesas e cortando o país em dois enquanto o restante das tropas avançavam pela costa atlântica.
Cerca de 600 mil franceses se renderam e outros 700 mil ficaram aprisionados nas posições de defesa, enquanto milhões de franceses civis caminhavam e puxavam carroças em direção ao Sul, tentando escapar da destruição. Em menos de um mês, a França se rendeu e nasceu a Blitzkrieg.
2# Eisenhower e a invasão da Normandia
Legenda
O desembarque americano na costa da Normandia, conhecido como o Dia D
Omaha, Utah, Sword, Gold e Juno. Esses eram os nomes de código das praias por onde se tentaria em 1944 algo não havia dado certo nos últimos 8 séculos: uma invasão pelo Canal da Mancha.
Uma linha de defesa monumental havia sido erguida pelas forças ocupadoras do 3º Reich para defender a costa francesa, a “Muralha do Atlântico”. Na retaguarda, os alemães mantinham sólidas posições defensivas. Para furar o bloqueio, o General Dwight D. Eisenhower sabia que um ataque maciço, coordenado e executado com perfeição era a única alternativa. Era tudo ou nada.
Depois de meses de preparação e uma bem sucedida campanha de desinformação, levando o inimigo a se posicionar ao norte, chegou o 6 de julho de 1944, o dia mais importante do século XX, o dia D.
De além do horizonte, mais de 1 200 navios abriram fogo contra a costa da Normandia, enquanto 10 mil aviões lançaram bombas e paraquedistas além das linhas inimigas. Pelo mar, apenas na primeira leva 155 mil soldados desembarcaram nas praias sob fogo cerrado. A operação foi um sucesso e ao todo mais de 3 milhões de soldados cruzaram o canal, dando início à libertação da França.
1# Zhukov e a Operação Uranus
Soldados soviéticos defendem Stalingrado (Wikipédia)
Depois de vitórias avassaladoras sobre as forças japonesas na Mongólia e as alemãs em Moscou, o marechal do Exército Vermelho Georgy Zhukov foi enviado para esmagar as forças do 6º exército alemão, comandado pelo General Paulus, que haviam tomado a cidade industrial de Stalingrado.
A operação Uranus posicionou 3 exércitos completos redor da cidade. O plano de Zhukov consistia em um cerco duplo, formando uma linha ofensiva no interior e uma defensiva contra reforços alemães ao exterior. Com o inverno se aproximando, a única maneira de abastecer as forças de Paulus era pelo ar. Hitler teve garantias de seus generais de que seria feito, mas a ponte aérea nunca foi efetiva.
Já em pleno inverno, com o rio Volga completamente congelado, os soviéticos se reabasteceram e fecharam o cerco com mais de 1 milhão de soldados contra o equivalente do lado nazista. Com perdas de 750.000 homens, os alemães famintos, doentes, sem munição ou combustível e sob artilharia pesada, finalmente se renderam, contra as ordens do Fürher, em 2 de fevereiro de 1943.
Georgy Zhukov seguiu comandando o Exército Vermelho até a vitória final em Berlin. (R. A.)
EL HOMBRE (iG)/montedo.com
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