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Mototaxista foi baleado, e Exército afirma que não vai mudar a rotina de trabalho
Militares patrulham a Maré – Foto: Carlos Moraes (Agência O Dia)
ATHOS MOURA , FLAVIO ARAÚJO , MARCELLO VICTOR , MARIA INEZ MAGALHÃES E VANIA CUNHA
Rio – Cinco ataques a tiros, inclusive contra tropas do Exército, em apenas um dia. A retaliação de traficantes que ainda permanecem no Complexo da Maré mostram que a pacificação ainda é um caminho longo a ser percorrido pelas Forças Armadas, que também enfrentam a reação de moradores insatisfeitos com os métodos de policiamento dos militares.
Segunda-feira, foram feitos protestos na Baixa do Sapateiro e Vila dos Pinheiros. Lideranças de comunidades entregaram ao secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, documento com seis exigências para guiar as ações das tropas. Segunda-feira, o mototaxista Fábio da Silva Barros, de 28 anos, foi baleado nas costas por ocupantes de um Corolla preto que abriu fogo contra o ponto de mototáxis da Avenida Brasil.
Segundo o relações-públicas da Força de Pacificação, major Alberto Horita, a tropa que ocupou a Maré já entrou preparada e com planejamento que previam ações do crime organizado. “Não posso dizer que não esperávamos esse tipo de ataque, não nos surpreende. Estamos trocando informações com serviços de inteligência das polícias na tentativa de identificar esses criminosos. Não vai ser esse evento que vai nos fazer mudar a nossa rotina de trabalho”.
“Na Maré sempre teve guerra por território. Infelizmente, dessa vez eu que fui a vítima”, contou Fábio, morador da Vila dos Pinheiros, ressaltando que não é raro que moradores sejam vítimas dos traficantes rivais. Ele disse que estava próximo a quatro militares quando o carro passou. O atirador abaixou o vidro e disparou duas vezes. Ele recebeu os primeiros socorros dos militares até a chegada dos bombeiros. A bala ficou alojada no ombro.
A vítima contou que nunca se envolveu com facções criminosas. Ele responde a processo por estelionato na 5ª Vara Criminal Federal e foi preso em 2009 pela Delegacia Fazendária da Polícia Federal. O primeiro ataque ocorreu às 23h30, no Conjunto Esperança. Colegas de Fábio disseram que os paraquedistas não reagiram e chegaram a se jogar no chão para se abrigar dos tiros. Horita não confirmou a informação, mas disse que é um procedimento usual se abrigar e verificar de onde partem os disparos.
Cerca de 500 metros do local do primeiro ataque, os bandidos dispararam contra mototaxistas no ponto da Vila do João. Depois, criminosos atiraram novamente na Vila dos Pinheiros, Baixa do Sapateiro e Timbau. Revoltados, os mototaxistas fizeram protesto, interditando com as próprias motos duas faixas da Av. Brasil no início da madrugada de ontem.
Em nota, o Exército confirmou os ataques e alegou que não foi possível prender nenhum dos suspeitos, que fugiram. “Sabemos que ainda há presença de traficantes, apesar de não termos confronto”, disse o comandante da Força de Pacificação, general Roberto Escoto, no sábado.
Colegas de vítima fazem críticas
Os militares do Exército que estão na Maré desde o último sábado foram criticados pelos mototaxistas

Foto:  Osvaldo Praddo / Agência O Dia

A abordagem de militares foi criticada por colegas de Fábio, que classificaram a ação como ‘autoritária, sem planejamento e desgastante.’ Eles alegam que, em alguns locais, os mototaxistas não trabalham de capacete, outros são revistados constantemente e que os militares ficam apenas na entrada das comunidades. O major Horita informou que não recebeu nenhuma denúncia contra os militares, mas que está apurando os casos. “As tropas são experientes e aptas a enfrentar qualquer ameaça”.
Ontem, agentes da Divisão de Homicídios (DH) fizeram as reconstituições e perícias complementares de sete das 10 mortes ocorridas na Maré em junho, durante confronto entre traficantes e policiais do Bope. Entre as vítimas, estavam o sargento Ednelson Jerônimo dos Santos e o garçom Eraldo da Silva, o único dos moradores mortos que não tinha antecedentes criminais.
A DH convocou 40 policiais do Bope e até o blindado usado naquela noite foi usado. Oitenta agentes da Polícia Civil participaram da ação, que terminou à noite. “É para esclarecer todas as circunstâncias. Todos estão sendo tratados como testemunhas. Temos dois objetivos: confrontar os depoimentos com o que foi apurado pela perícia e verificar se o que foi apresentado pelos PMs corresponde às lesões das pessoas”, disse o delegado Rivaldo Barbosa.
Delegado não acha que atiradores sejam do Caju
Ontem, o clima na Maré era aparentemente tranquilo, mas mototaxistas que circulavam com Fábio trabalharam tensos. “A gente tem que trabalhar. Mas a qualquer momento pode aparecer de novo um criminoso e dar um tiro no peito de alguém”, contou um mototaxista que não quis se identificar. “O que aconteceu foi um absurdo. Eles (bandidos) acham que a gente fica passando informações. A gente não faz nada disso, só leva e traz pessoas”, reclamou.
Segundo moradores, uma semana antes da ocupação, traficantes do Caju (onde há UPP) fizeram ameaças de ataques e de tomar o controle das comunidades. O delegado da 21ª DP (Bonsucesso), Delmir Gouvêa, não acredita que os autores dos disparos sejam do Caju. “Não há nada concreto sobre isso. O que sabemos é que existe uma briga antiga entre bandidos da Baixa do Sapateiro com os da Nova Holanda, que são de facções diferentes. Já solicitei à CET-Rio as imagens das câmeras. Vou ouvir testemunhas e a vítima quando sair do hospital”, disse o delegado.
O Dia/montedo.com
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